sábado, 14 de maio de 2011

O Salmo 91 na Terra do Papo Amarelo



Numa região em que à bem pouco tempo atrás a 'Papo Amarelo'* decidia muitas pendencias, vejo com preocupação o tom do debate na questão do Porto Sul.

Há enormes interesses sendo contrariados: todos os 'por fora' da obra em si, loteamento do entorno da Ponta da Tulha, expectativas do comercio local.

"O Capital" e o imediatismo ilusório lançam farpas de todos os tipos contra um homem honrado: insinuações de propina, de conchavos, alienação premeditada e interesses escusos, e o Floresta Viva uma espécie de Caixa 2 pessoal. Enquanto isso, no mundo real, um dos membros da família Klabin  disse-me textualmente que 'os empresários acreditam no trabalho do FV em função da transparência na prestação de contas'.

Em nome do Núcleo Serra Grande, apoio Rui Rocha por ver o Floresta Viva como zelador de Área de Preservação Permanente, frágil bioma patrimônio da humanidade pela UNESCO, lar de espécies ameaçadas, como a surucucu, foco central de nossos esforços nos últimos 10 anos.

Preservar é também atividade econômica, e o ECONEGÓCIO a vocação natural da região. Lixo ilusório como o Projeto Porto Sul é matar essa galinha dos ovos de ouro.

Confira: http://www.portosulnao.org.br/filmes.htm

E confira tambem:

Pacto do Condurú, pela biodiversidade

por Rui Rocha* e Eduardo Athayde*

O conduru (Brosimum conduru) árvore de madeira roxa, retilínea, serve para o esteio de casas, para a movelaria e é usada para mastreação de embarcações desde os tempos coloniais. Caravelas, canoas, saveiros e escunas, foram e são conduzidos pela energia do vento transferida para força dos mastros de conduru.

O Parque Estadual da Serra do Conduru que abrange parte dos municípios de Ilhéus, Uruçuca e Itacaré, exibe um recorde mundial de biodiversidade - 456 diferentes espécies vegetais/ha - identificado por cientistas do Jardim Botânico de Nova York. Destacando-se num imenso telhado de 10 mil hectares de floresta viva, as serras do parque recebem as chuvas que alimentam os rios de Contas e Almada e formam a Lagoa Encantada, abastecendo mais de 500 mil pessoas na região.

Desde 1998, quando foi inaugurado o trecho da BA 001 que liga Ilhéus a Itacaré, um investimento de 20 milhões de dólares, financiado pelo BID, o valor das terras sobe estratosfericamente pela corrida imobiliária que silenciosamente chega à linha costeira da Mata Atlântica.

As áreas adjacentes ao parque já valem mais de R$1 bilhão de reais com lotes residenciais vendidos por preços que circulam R$ 300,00/m2. Hotéis, cheios o ano inteiro, cobram diárias entre 200 e 600 dólares.

"Vendi a minha casa no Algarve por dois milhões de euros. Só podia usar no verão e mesmo assim tomando rápidos banhos num mar gelado. Comprei uma fazenda na Mata Atlântica da Bahia e construí casa ainda melhor, tudo com 500 mil euros. Jamais gastarei o milhão e meio de euros restantes com as baratas viagens entre Lisboa e Salvador", goza um empresário português, dono de área vizinha ao Conduru.

Hoje ganha dinheiro com econegócios e se gaba na Europa por ser dono de parcela da biodiversidade do mundo.

Pousadas e ecoresorts geram mais de 1000 empregos diretos e 4000 indiretos com a produção de verduras, frutas e artesanato, produzidos através do Programa Floresta Viva.

Um serpentário com pesquisas sobre o veneno da mortal surucucu pico-de-jaca, é um embrião dos econegócios que chegam à região para gerar renda protegendo a biodiversidade.

O Parque do Conduru foi criado em 1997 graças ao apelo de ambientalistas junto ao BID. Na época, o Governo do Estado se comprometeu a disponibilizar 5 milhões de dólares para implantar a unidade de conservação. Quase dez anos depois o parque ainda está à espera da regularização fundiária e da polícia florestal.

O velho sistema de comando e controle usado pelo Estado, somado a reconhecida incapacidade de gestão e a crescente incapacidade financeira, não garante a proteção das áreas. A falta de fiscalização surpreende também os turistas impressionados com o gigantesco patrimônio natural, ativo ambiental que tomba todos os dias entre as Vilas de Serra Grande e Tibina. Nos fins de semana caminhões continuam a abastecer as madeireiras das cidades próximas.

O Conselho Gestor do Parque, criado recentemente pela Secretaria de Meio Ambiente da Bahia, é uma nova esperança. Reúne 17 instituições, incluindo entidades ambientalistas que atuam na região, como o Instituto Floresta Viva, Iesb, Tijuípe e Boto Negro.

Inovando, a secretaria e as instituições parcerias podem articular o "Pacto do Conduru", adotando indutores eco-econômicos para investir na preservação com geração de renda e garantir um patrimônio único no planeta, pondo fim à era da madeira tombada.

O Parque do Conduru, por tudo que representa, é uma grife. Assim como as pessoas, o parque tem uma "natureza emocional" que ajuda na atração de econegócios para a sua manutenção.

O que pode representar uma floresta com recordes em biodiversidade no mundo para investidores interessados nos produtos da preservação ou dela derivados? Quanto vale uma semana ao lado do parque, integrado ao meio ambiente e a sociedade rural do Sul da Bahia? Quanto poderá valer, por exemplo, sabonetes de seivas ou cremes com princípios ativos de espécies do Conduru?

A estruturação do conceito de econegócio ajuda a formar fundos de investidores. "Conduru Ivestment Fund" batizariam os especialistas internacionais, voltados à preservação através da bioprospecção, geradores de eco-royalties para a manutenção do Parque. Neste sentido, o Estado pode e deve oferecer o seu apoio institucional, fomentando a atração de investidores como faz com sucesso em
diversas áreas.

Pessoas e ecossistemas formados por milhares de espécies da flora e fauna do Conduru dependem deste pacto. A produção rural vinculada aos econegócios faz dessas unidades de conservação exemplos de economia movida pela preservação da natureza.

O Parque Estadual do Conduru guarda in natura o que os cientistas, ambientalistas e empresários da Disney produzem em ficção, atraindo para lá turistas de todo o mundo.

O Pacto do Conduru, sintonizado com a Convenção da Diversidade Biológica, visa ações concretas para a preservação do ambiente, geração de economia e manutenção da qualidade de vida das gerações presentes, deixando um legado para as gerações futuras.

O que é Floresta Viva

É uma iniciativa sócio-ambiental inovadora que integra a proteção dos remanescentes florestais da Mata Atlântica, com a inclusão social dos agricultores familiares que habitam a Área de Proteção Ambiental Itacaré/Serra Grande, no Estado da Bahia - uma região com a maior diversidade biológica do planeta e com um dos piores indicadores sócio-econômicos do país.

Deste modo busca-se promover o fortalecimento sócio-econômico dos agricultores, através de incentivo financeiro para a conservação das florestas, melhoria na infra-estrutura das propriedades e promoção de transição tecnológica, através da capacitação dos agricultores em atividades produtivas sustentáveis, tais como: produção de mudas de espécies nativas, frutíferas e ornamentais; produção de
hortaliças orgânicas; sistemas agroflorestais; ecoturismo nas propriedades rurais; coleta de sementes florestais entre outras.

Ecoturismo

O Circuito de Trilhas do Floresta Viva é uma experiência inovadora, pois integra os pequenos agricultores familiares da APA Itacaré/Serra Grande e o crescente turismo nessa região, a preservação de um dos trechos prioritários para a conservação, por abrigar remanescentes da mata atlântica e seu elevado grau de endemosismo.

Este Circuito de Trilhas está sendo desenvolvido pelo Grupo de Ecoturismo, o Getur, formado por agricultores sob coordenação do Instituto Floresta Viva. Vale salientar que a capacidade de carga é respeitada com bastante rigor pelos próprios agricultores, que hoje respeitam o meio ambiente e entendem que precisam dele para sobreviver.

A preservação da Mata Atlântica é a grande prioridade, no entanto, é necessário aliar fatores que possam proporcionar renda para essas famílias. Por isso vemos a possibilidade de explorar os atrativos naturais como um aliado a preservação dessa região. O potencial do ecoturismo socialmente responsável torna este Circuito de Trilhas como um excelente produto ecoturístico a nível nacional.

Este circuito de trilhas possui duas modalidades: as Trilhas Implantadas, como o caso da "Janela da Gindiba" e do "Refúgio dos Anjos", implantados pelo MPE - Melhores Práticas para o Ecoturismo do Funbio em parceria com o Iesb; e as Trilhas Primárias, que estarão sendo operadas pela primeira vez no verão 2004. Em ambas, os visitantes poderão se encantar ao ouvir as histórias curiosas e singulares de seus moradores, tomar deliciosos banhos de rio, cachoeira e açudes e provar os deliciosos doces caseiros feitos de produtos 100% orgânicos (sem adubo químico).

A experiência adquirida com as Trilhas Implantadas durante 3 anos de operação fundamentaram o desenvolvimento do Circuito, que hoje conta com 6 trilhas, sendo 2 na categoria implantada e 4 na categoria primária.

As Trilhas Implantadas (TI) já possuem toda a infra-estrutura e são locais de rara beleza onde o visitante pode conhecer a realidade desses agricultores e entender a importância do processo de mudança nas atividades e na vida desses agricultores.

As Trilhas Primárias (TP) proporcionarão ao visitante a sensação de descoberta e realização, estarão sendo os primeiros a visitarem aquelas áreas e estarão ajudando na formatação do produto turístico final, que deverá estar pronto para o verão 2006.

Estamos implantando em escala experimental a operação através do Voucher para o controle na Central Única de Reservas da capacidade de carga das trilhas que compõem o Circuito. No valor pago pelo visitante está incluído uma taxa de conservação a qual será administrada pelos agricultores que irão destinar esse recurso para atividades sócio-ambientais nesta região, além de seguro de vida.

* Rui Rocha é diretor do Instituto Floresta Viva. http://www.florestaviva.org.br/

* Eduardo Athayde é diretor da UMA-Univesidade Livre da Mata Atlântica e do
WWI-Worldwatch Institute no Brasil. http://www.wwiuma.org.br/

RETOMANDO e concluindo, convido a todos a ver uma entrevista do Rui no Jô Soares, aqui: http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/05/rui-no-jo-1605.html.

Com a lucidez e firmeza de sempre ele expões sua motivação pela luta Ambientalista no Sul da Bahia. Relembro que a Mata Atlantica está 93% suprimida, e que na Bahia, o desmatamento formiguinha leva atualmente à destruição de 1% ao mês do residual.

Peço especial atenção contudo aos aspectos sub-liminares da entrevista: o olhar, o tom do discurso, o gestual e a convicção. A pessoa.

Tudo em Rui me inspira verdade, e não porque eu conheça o carro que ele usa, a casa onde ele mora, e a honradez da família simples de onde ele vem, mas porque sei que Rui é um homem de uma fé ardente mas externamente discreta. Acredita  em Jesus Cristo como Senhor e Guia. Tem ciência da retidão de conduta requerida de quem pretende segui-Lo. Talvez desta Fé venha também sua enorme coragem.

Em Mateus 6, lê-se que:

Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.


No Salmo 91 Lê-se que:


1 Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Todo-Poderoso descansará.
2 Direi do Senhor: Ele é o meu refúgio e a minha fortaleza, o meu Deus, em quem confio.
3 Porque ele te livra do laço do passarinho, e da peste perniciosa.
4 Ele te cobre com as suas penas, e debaixo das suas asas encontras refúgio; a sua verdade é escudo e broquel.
5 Não temerás os terrores da noite, nem a seta que voe de dia,
6 nem peste que anda na escuridão, nem mortandade que assole ao meio-dia.
7 Mil poderão cair ao teu lado, e dez mil à tua direita; mas tu não serás atingido.
8 Somente com os teus olhos contemplarás, e verás a recompensa dos ímpios.
9 Porquanto fizeste do Senhor o teu refúgio, e do Altíssimo a tua habitação,
10 nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda.
11 Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos.
12 Eles te susterão nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra.
13 Pisarás o leão e a áspide; calcarás aos pés o filho do leão e a serpente.
14 Pois que tanto me amou, eu o livrarei; pô-lo-ei num alto retiro, porque ele conhece o meu nome.
15 Quando ele me invocar, eu lhe responderei; estarei com ele na angústia, livrá-lo-ei, e o honrarei.
16 Com longura de dias fartá-lo-ei, e lhe mostrarei a minha salvação

LEIA TAMBEM:

http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/05/um-essncial-no-jo-dia-1605.html

* "Papo Amarelo": modelo de rifle da Winchester, calibre 44, o preferido dos 'Coronèis' para armar a jagunçada. Abaixo o famoso Chico Pereira com a sua, modelo 1873




Falar de Ilhéus e Papo Amarelo, portos e coronéis, sem lembrar Jorge Amado, é injustiça com sua memória. Parece até que ele estava prevendo:

Jubiabá

"...Então é para o grande cais dos transatlânticos que se dirigem. Vão ver os homens que embarcam à noite, misteriosamente, levando sob o braço sobretudos e embrulhos; vão ver os homens que trabalham na descarga dos navios. São negros e parecem formigas que levassem enormes fardos. Andam curvos como se em vez de sacos de cacau carregassem sob as costas o seu próprio destino desgraçado. E os guindastes, como monstros gigantescos que rissem dos homens, levantam fardos incríveis que ficam balançando no ar. E rangem e gritam e andam sobre trilhos, guiados pelos homens de macacão que estão trepados dentro dos cérebros dos guindastes."

 




Do Livro "Jubiabá", de Jorge Amado, (pág. 76). Romance. São Paulo: Livraria Martins Editora, 27a. Edição, 1971

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