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INDICE AO BLOG NSG E À BIBLIOTECA VIRTUAL LACHESISBRASIL BASEADO EM BUSCAS ESPECÍFICAS

OBSERVE POR FAVOR QUE A MAIORIA DOS LINKS SÃO AUTO EXPLICATIVOS, E CONTÉM INDICAÇÃO DE CONTEÚDO ANTES MESMO DE SUA ABERTURA: 1) SOBRE ...

domingo, 23 de janeiro de 2011

Carl Gustav Jung e o clube da surucucú



O 'Clube da Surucucú' é fechado: não há mais do que três grupos reproduzindo Lachesis em cativeiro no planeta, sendo o Núcleo Serra Grande, representando o Brasil, um deles.

A reprodução em cativeiro viabiliza 1) matéria prima para produção de soro anti-laquético 2) elaboração de projetos de reintrodução na natureza e 3) pesquisa farmacológica avançada e de interesse medico, como por exemplo sobre a fração anti coagulante da peçonha laquética.

Segue abaixo uma carta (com destaques em vermelho meus), de um herpetólogo experiente que conhece as entranhas da herpetologia nos grandes institutos brasileiros, ou melhor, no Butantã (SP) e no Vital Brazil (RJ). Da Fundação Ezequiel Dias de Belo Horizonte, MG, ao contrário dos dois primeiros, tenho recebido respeito, confira o link:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/03/fundacao-ezequiel-dias-de-belo.html

Jung, fundador da Psicologia Analítica, em determinado momento fala dos perigos de nos confundirmos com a 'persona', termo cunhado por ele para definir o 'ser social', polido e estrategista - frequentemente falso e hipócrita - que habita dentro de cada um de nós, não sendo contudo, a integralidade do que somos.

Então agradeço a este sujeito que nem me conhece, mas presenciou tudo o que falo em "Essencias 6" http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/01/os-essenciais-6-argolo-anibal-marcelo-e.html, e que com sua maneira franca, me jogou para cima e para frente. Sinceridade é coisa rara neste mundo da 'persona'.

Segue-se seu texto na íntegra, com as devidas respostas entre os parágrafos sob a forma de imagens do NSG.

"Rodrigo, tudo isso é muito complexo, pois se formos seguir uma metodologia cientifica, ninguém no Brasil pode comprovar realmente reprodução em cativeiro do gênero Lachesis, por que ninguém tem documentado o  acasalamento, postura e nascimento, para se comprovar realmente reprodução  em cativeiro, comprovar o acasalamento em ambiente cativo é fundamental, pois postura e nascimento podem ser legados de uma fêmea prenhe proveniente  da natureza...."

"Complementando o que lhe disse acima, para que você comprove que reproduziu em cativeiro, precisa documentar o acasalamento, coisa que ninguém fez.













"Observando seus ovos, vejo que você terá alguns problemas, se você tivesse entrado em contato antes, eu lhe enviaria uma vermiculita especial que recebi de um criador Alemão, que afasta insetos e não permite a proliferação de fungos.

Acho que voce precisa entender como se incubam ovos de répteis, pelo que vi nas fotos você esta fazendo tudo errado, mas alguns ovos estão em bom estado, vamos torcer para que nasçam alguns filhotes"









Acho que você deveria se preocupar mais com o seu caso, com o seu criatório e esquecer ... (Vide postagem  "Os Essenciais 6")...  pois eles tem os animais totalmente legalizadinhos e seguros no ... o seu caso é um  pouco diferente, e vai necessitar de trabalho árduo e dedicação,  pois a grande maioria vê seu criatório apenas como um depósito de Lachesis dentro de galinheiros.

Irei lhe enviar um modelo simples de incubadora que você pode tentar fazer  ai, a grande maioria dos criadores conhece esse tipo de incubadora e você pode fazer sem problemas ou gastos, pois esse seu método não consegui  entender, e não atende ao mínimo necessário para se conseguir uma boa  incubação.

Não sei se você sabe algo sobre incubação, mas temperatura e  umidade devem ser controladas rigorosamente, não se deve permitir variações bruscas. A umidade é crucial, se muito úmido você terá belos ovos lotados de  fungos, se estiver baixa os ovos ressecam e você os perderá da mesma  maneira"



http://www.lachesisbrasil.com.br/download/BulChicagoHerpSoc_Vol42Num3pp41-43%282007%29.pdf


Confira também:  http://www.lachesisbrasil.com.br/NSG/nsg.html





domingo, 16 de janeiro de 2011

Os essenciais 7 - Paulo Emílio Vanzolini, in memorian



'Sai bravo, cheguei manso
Macho da mesma maneira
Estrada foi boa mestra
Me deu lição verdadeira
Coragem num tá no grito
E nem riqueza na algibeira'


Falava em homens de moral no post anterior sobre os Villas Boas, confira: http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/01/surucucu-orlando-moral-e-misterios.html

Em sendo 'moral' o tema, a sequencia natural é lembrar o Dr. Vanzolini.

Quando o NSG estava nascendo, dez anos atrás, nem a mais básica das perguntas tinha uma resposta: o que difere a surucucu da Mata Atlântica da Amazônica ? Ninguém sabia, e falo não por mim, que era só um sapo em meio á tanta "cobra criada" consultada, ninguém sabia. Ou sabe.

Para mim, erroneamente, o habitat sem fim do animal amazônico protegia e permitia o desenvolvimento dos gigantes, a verdadeira surucucu. Ao contrario, as matas atlânticas (Ab'Saber), tombadas em 93%, induziriam Lachesis a menos tempo de vida (pressão antrópica) e menos intercambio genético, gerando a "surucutinga", um diminutivo em relação ao bichão amazônico  Nesse raciocínio  só o tamanho diferenciaria muta muta, de muta rhombeata

Alguém lançou uma luz: "só o Vanzolini para responder essa" e logo veio o adendo, "mas não adianta nem tentar, ele não responde carta de ninguém".

Tinha visto um documentário seu, os "Os calangos de Boiaçú", e nele o Professor dizia: "com esta espingarda (parecia uma 36, de 2 canos, linda) e 2 litros de formol, criei seis filhos", e aquilo me marcou. Pois bem, este era o homem que tinha a resposta, mas que iria ignorar-me se consultado.

Escreví.


Em 27 de dezembro de 2003 recebo dele a seguinte correspondência:


"Lachesis rhombeata foi descrita pelo Principe de Wied-Neuwied em 1825 (Beiträge Zur Naturgerschichte von Brazilien, vol. 1, p. 449-468)

A descrição (de vários exemplares) é muito detalhada. Ele não designa localidade tipo, mas cita: Morro da Arara, Rio Iritiba, Itapemirim, Rio Doce e Peruhype.

As localidades de Wied são discutidas por Bokerman, 1957, arquivos de Zoologia 10 (3): 209-251.

O artigo pode ser obtido da Biblioteca deste Museu.

Hoge (1966, Mem. Inst. Butantan 32 ("1965"): 109-184) descreveu ( p.162) Lachesis muta noctivaga, de Vitória, Espirito Santo, com os seguintes caracteres diferenciais:

a) manchas no topo da cabeça grandes, bem distintas (pequenas em muta)

b) faixa postocular preta e larga, não marginada de branco (estreita, marginada, em muta)

c) colorido geral avermelhado brilhante (acinzentado em muta)

d) dorsais 33-37, ventrais 214-247 em machos, 226-246 em femeas; sub-caudais 31-48.

O trabalho contem uma boa prancha colorida da cabeça (prancha 20)

Mais tarde chamei a atenção de Hoge sobre a especie de Wied, e ele mesmo fez a sinonimia.

Eu pessoalmente considero isso tudo supérfluo  A meu ver é urgente proteger essa especie porque é um predador de grande porte confinado a uma área restrita (a Mata Atlantica, do Rio para o Norte) e sob duríssima pressão antrópica. é um bicho precioso e emblemático.

Não é uma serpente perigosa para o homem (V. pode ter informações sobre isso do Butantan, com Dra. Fátima Furtado ou Dra. Myriam Callefo).

Espero ter atendido a sua solicitação. se faltou alguma coisa não se acanhe. É o tipo de causa em que todos temos que nos engajar. Se eu puder ajudar no Ibama (duvido) estou às ordens.

Cordialmente,

Paulo Emilio Vanzolini

PS: Endereço postal do Museu

Museu de Zoologia da USP

Avenida Nazaréth 481

CEP 04263-000 

São Paulo, SP

PS 2: Voce já viu Amphisbena fuliginosa na sua área ? estou mandando uma separata explicando esse pedido

V"

Pouco depois chega à minha casa um pacote dele, obra sua em 2 volumes: "An annotated bibliography of the land and fresh-water reptiles of South America (1758-1975)". Inacreditável.


Esse era o homem que "não responde".

Seguindo a recomendação da carta do Professor, fiz contato com Dra. Fátima Furtado, que ajudou em inúmeras situações, como essa da dúvida abaixo:

Dra Fátima, perdão, mas é insegurança de revisão, é correto dizer isso ? :

 "...ação desfibrinante ("incoagulabilidade" ou "efeito anticoagulante"), pela geração de trombina e/ou ação direta sobre o fibrinogênio. A desfibrinação é precedida de hipercoagulabilidade seguida de liquefação do sangue por fibrinólise, podendo ocorrer C.I.V entre os eventos."

Sua resposta foi um 'sim, é correta a afirmação'. Nunca deixou de ajudar-me pelos labirintos da bioquímica profunda dos envenenamentos, onde temeroso, eu redigia textos com a responsabilidade de guiar condutas médicas.

Só se pode agradecer ao Professor pelas pontes como esta com Dra. Fátima Furtado, com mais empenho na busca da preservação deste bicho 'precioso e emblemático', que 'é urgente proteger', como ele próprio coloca.

Lendo a introdução no volume I das obras que o Professor me enviou, aprendi que ele se aproximara dos monstros sagrados da Zoologia mundial da mesma forma com a qual que eu havia me aproximado dele, 'com cartinhas muito provincianas', e que alguns destes Mestres, 'no espirito de seu tempo', doaram-lhe bibliotecas inteiras de reprints, iniciando-se ali a formação do excepcional acervo do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP).

Sob sua curadoria, a coleção de répteis e anfíbios da instituição passou de 1200 para 230 mil exemplares, e a biblioteca, montada com doações como as citadas acima, e com o dinheiro que ele ganhou com a música, é reconhecida como um dos mais completos acervos de herpetologia do mundo. Vanzolini compôs 'Ronda' e 'A volta por cima', dentre outros sucessos imortais.

Contudo, a 'menina-de-seus-olhos' talvez tenha sido a redação da lei que criou a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que viabilizou obras em que estou envolvido diretamente, como a edição de 'Animais peçonhentos no Brasil', do Dr. João Luiz Cardoso (Butantã) http://lachesisbrasil.blogspot.com/2010/12/os-essenciais-dr-joao-luis-cardoso.html e também nossa parceria etnobotânica com a USP, abaixo ...


EFFECTS OF JUICE AND LEAVES EXTRACT FROM SOURSOP (Annona muricata) ON ENVENOMATION BY Lachesis muta rhombeata


Caroline M. Cremonez¹; Flávia P. Leite¹; Luisa H. D. Costa³; Zita M. O. Gregório³; Rodrigo C.G. de Souza²; Ana Maria de Souza³, Eliane C. Arantes¹.

¹Depto. Física e Química, Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto-SP, Brazil. ²Fundação Hospitalar Itacaré, Itacaré – BA, Brazil.³ Depto. Análises Clínicas, Toxicológicas e Bromatológicas, Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto-SP, Brazil.

E-mail: carolmc@fcfrp.usp.br


Lachesis muta rhombeata is found in the rainforests of Brazil's Atlantic region. Human accidents with these animals are severe. The pathological effects of L. muta rhombeata venom (Lmrv) result from its proteolytic, hemolytic, hemorrhagic, myotoxic, coagulant, fibrinolytic, inflammatory and neurotoxic activities. While the antivenon will remain as the main tool in the treatment of the accidents, adjunct methods to minimize the damages of the delayed treatments are welcome. The search for alternative methods that can minimize, alter or delay the action of the venom is constant. In the North and Northeast of Brazil, Lachesis bites are treated with the aid of folk knowledge such as the oral intake of a juice or aqueous extract of leaves of A. muricata. The aim of this study was to analyze if treatments with leaves extract or juice of soursop are able to inhibit alterations induced by Lmrv. Changes in blood pressure as well as biochemical, hematological and haemostatic parameters were analyzed in blood of rats (200g) injected (+ control) or not (- control) with Lmrv (3mg/rat, i.m.) and submitted to oral treatment (test) with juice or leaves extract of soursop (3 gavages of 0.5 mL at -1h, 15min and 1h) The treatment was beneficial in: (1) recovery of renal function, as evidenced by reduced concentration of urea in groups treated with soursop leaf extract; (2) glycemic control; (3) coagulation disorders (the treatment with juice maintained the partial thromboplasmin time close to the control group when compared with untreated group); (4) protect against the myotoxicity of venom (creatine kinase concentration in the groups treated with juice and leaves extract was lower than in untreated group). However, treatments with juice and leaves extract seem to worsen (1) the hemolytic action of Lmrv (decreased hematocrit, hemoglobin and the number of red blood cells), (2) the reduction of albumin and total protein – negative acute phase proteins; and (3) increased serum glutamic oxalic transaminase. These assays should be conducted with a larger number of rats to confirm these data.

Support: CNPq, FAPESP

Key-words: Lachesis muta rhombeata, Annona muricata, envenomation, anti-venom action. 


Abaixo outro trabalho nosso financiado pela FAPESP, desta vez com Daniela Damico, da UNICAMP: http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/09/surucucu-e-anti-coagulantes.html


Esse sujeito único - que nos deixou em 28/04/2013 - me lembrou de que 'é mais importante reconhecer a queda que dar a volta por cima'

Saudades ...  http://www.youtube.com/watch?v=8GQLpjf7GyA 






sábado, 15 de janeiro de 2011

Surucucu e os Villas Boas, moral e mistérios




Nas pesquisas sobre a questão da neurotoxidade em Lachesis, encontrei ontem mais um trabalho (acadêmico) citando a "agressividade" do gênero, algo que não confirmo após 10 anos de lida, avaliando o bicho como tranquilo.

Contudo, tem gente que não posso questionar, Orlando, Leonardo e Claudio Villas Boas como exemplo. Assim, se eles dizem em "Marcha para Oeste" que a surucucu é a "unica cobra venenosa brasileira que avança (ataca)", devo considerar que Lachesis tem o potencial de partir para cima de um ser humano.

Só se consegue o que os irmãos Villas Boas conseguiram na epopéia da Expedição Roncador-Xingú sendo justos, e tendo moral e credibilidade ...



Da esquerda para a direita, em campo, Orlando, Leonardo e Claudio Villas Boas



Imagine-se no mato liderando, dando ordens, a um grupo de homens armados, recrutados sem "Folha de Antecedentes" entre garimpeiros, assassinos foragidos, sertanejos rudes. Confira o clima:

http://www.youtube.com/watch?v=SK5vr7hkzac&feature=related

Você que me lê teria moral para controlar um grupo destes ? Eu não. Tive restaurante e não controlei nem minha própria cozinha. Mas "Os Irmãos" extraíram o melhor de cada um destes brasileiros calejados - força e resistência física, sabedoria inata e lealdade - marchando a pé pelo mato no rumo Oeste brasileiro, terras que nas décadas de 30 e 40 eram tão desconhecidas e inóspitas quanto o coração da Africa..

Chegavam à beira de um ribeirão mais grosso, e então paravam, armavam acampamento, derrubavam arvores, limpavam o tronco a machado, serravam tabuas no serrote, construíam o batelão (barco), e seguiam.

Comida ? Estoques limitadíssimos, caça e pesca ... "aos Domingos".

Achou pesado ? Então sinta que na sequencia dos trabalhos, este mesmo grupo de homens chegava a um terreno mais ou menos plano, naquela área de transição entre amazônia e cerrado, com a missão de construir um campo de pouso de aviões.

Cortar as arvores altas, tirá-las do caminho, cortar e limpar o mato menos grosso, 'destocar' tudo, que é remover as raízes profundas, limpar de novo, desenterrar e remover todos os formigueiros (terra fofa, armadilha para pouso e decolagem), "pilar" tudo, que é a compactação e terraplanagem do solo. Isso na decada de 40, na mão. Extensão destas pistas: de 400 a 1000 metros de comprimento, por cerca de 60 de largura. Foram várias, na mão.

A vanguarda da expedição "Roncador-Xingú" era mais ou menos abastecida quando os campos de pouso eram inaugurados, e os aviões traziam as encomendas feitas por rádio, quando o radio funcionava.

Entendo aqui porque pilotos brasileiros fizeram bonito na Itália, na Segunda Guerra Mundial. Gente do Correio Aéreo Nacional, acostumados a enfrentar pistas como essas, navegando no olho, pousando e decolando com trens de pouso raspando nas copas.

Passaram fome muitas vezes vitimados pela burocracia. Comeram onça, tomaram "chá-de-quaqué-fôia": na falta de tudo, arranco um mato qualquer, fervo e bebo.

Mas ainda assim, liderados por principalmente por Claudio e Orlando - Leonardo abandonou precocemente a expedição - estes homens trabalharam duro de uma forma que não nos é realmente dado a conhecer - só estando lá - e perfilaram-se para o hasteamento da Bandeira todos os dias. Alguns enlouqueceram, uns poucos transgrediram na disciplina e foram sumariamente 'despachados de volta' no primeiro avião.

Mas não se sabe de índio morto por gente da expedição, ou de indiazinha estuprada. Facas foram puxadas. Ânimos se exaltaram ao limite, mas havia um núcleo de comando com moral para que se evitasse o pior.

Esse controle psicológico que os irmão Villas Boas construíram sobre o grupo foi vital, porque o mais difícil era o porvir: fazer contatos com tribos arredias, valentes, guerreiras. Memórias recentes 'do sumiço' do famoso americano, Coronel Fawcett, pelos Kalapalo.

A questão ali não era de poder bélico, de valentia do branco, mas de estratégia na aproximação e controle total sobre os homens armados.

A vida estava no limite o tempo todo quando entraram em terras de tribos ameaçadas:

http://www.youtube.com/watch?v=MWdaXLycm-s&feature=related

Mas perseveraram e construíram o Parque do Xingú, com criticas - sem propostas alternativas - por terem juntado etnias. Com olhos de hoje, sabe-se que não teria sobrado um só índio se não fosse por eles, exemplos mundo afora às duzias.

Implantado o parque (do tamanho da Bélgica), não estava pronta a empreitada: negociar a paz entre inimigos históricos agora vivendo lado a lado, internamente, e proteção de entorno (agropecuária, garimpo, grilagem), eram só dois dos desafios imediatos.

O garimpeiro, o assassino foragido, o sertanejo rude, eram todos afinal seres humanos iguais a nós, com mais ou menos os mesmos valores, e certamente menos oportunidades. Mas o índio não. Sua psicologia é própria. Para falar com guerreiros sobre guerra e paz, vida e morte, só sendo tão guerreiro quanto os interlocutores  Grandes chefes como Izararí, ouviam os irmãos Villas Boas e assim, a mais delicada das questões de primeiro momento, a convivência entre as etnias, foi aos poucos se dissolvendo, "na moral". Mas não foi fácil:

http://www.youtube.com/user/nvillas

Então, se Orlando e Claudio falam que surucucu avança. Ela avança. Vou ficar mais esperto. Já vivi de tudo em resgates de Lachesis, menos uma sequencia dirigida de 3 botes ou mais, esticando todo o corpo à cada bote, ativamente rumando em minha direção, como vários antigos moradores do Sul Baiano relataram-me ter vivenciado, e que os Villas Boas ensinam-me que pode vir a ocorrer*.

Trata-se do tal 'SÚ Ú Ú' dos Tupi Guaranis, ou "bote bote bote", com o verbete "surucucu" significando 'aquele que dá botes sucessivos' (Silveira Bueno, 'Dicionario Tupi-Guarani / Português').

* nota minha: quando escrevi essa postagem ainda não tinha vivido essa experiencia, dos botes em sequencia em minha direção, que acabou sim ocorrendo, confira relato no link abaixo

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2013/08/mea-culpa.html


A vida dos Villas-Boas é terreno onde sempre cabe o mistério. Orlando estava no mato com um dos irmãos e um índio, chovia muito forte, frio e vendaval. Raios e arvores caindo 'como palitos'. "Vou morrer" pensou, foi quando surgiu um grande oco numa arvore caída. Entraram os três para dentro. Tremendo de frio, risco de hipotermia, dormiram. Ainda escuro ao acordarem, notaram dentro do oco, em sua entrada e deitado com eles, um grande cervo. O bicho enorme havia aquecido o grupo durante o momento critico. Então o animal se levantou, e calmamente seguiu seu rumo. O "Espirito da Floresta" segundo o Xavante. Seja lá o que tenha sido isso, bom sinal, talvez a 'Lei do Retorno' atuando, com os Villas Boas sendo abençoados por seus próprios atos.

Abaixo uma imagem daqueles tempos em que se deu a Expedição Roncador-Xingú, em que as surucucus ainda tinham tempo de vida e habitat para chegar e ultrapassar os 3 metros.
































Mas assim como veio Fordlandia, Balbina e seu 'Laranjal do Jarí', a Bamin no pé da Serra Grande, onde trabalho com Lachesis, a Anglo Gold cercando o Caraça e etc, virão mais levas e hordas de devastação, e nestes tempos difíceis, em que a surucucu da Mata Atlântica já enfrenta noventa e três por cento de destruição de habitat, é sempre bom lembrar destas coisas antigas, como a temperança e a honra que regeram a vida dos Villas Boas, e que podem 'abençoar a vida' dos detentores da caneta, como intui meu filósofo Luquinha, retratado abaixo com o irmão Gabriel e uma Bothrops neuwiied, em aula pratica de campo, minutos antes de sua soltura. Outros meninos, outros tempos, outro contexto, mas o mesmo rumo à terra devastada.































Uma ultima pincelada no legado dos Irmãos Villas Boas: uma escola de Indigenistas que divergia daquela de Rondon, que buscava contato com os índios para trazê-los para o 'beneficio' do mundo branco. Sidney Possuelo, na mesma linha dos Villas-Boas, acredita que só há uma salvação para as tribos isoladas, que é permanecerem isoladas. Na experiencia de Possuelo, após o contato inicial, em questão de um ano estava quebrada a altivez, a independência, a auto suficiência e a saúde do índio, e não raro, 30- 50% da população do grupo perecia.

Sidney liderou sete primeiros contatos - inevitáveis - com tribos isoladas.

























Sidney com os Korubos, foto: Erling Söderström



Para que a tribo isolada permaneça 'isolada', é necessário que sua terra ampla seja demarcada e protegida. Criar fronteiras para proteger, limitar acesso externo e isolar, foi o conceito do Xingú dos Villas Boas. Nessa trilha, a de cavar espaço territorial para os índios, Sidney foi demitido da FUNAI por contestar publicamente o presidente Mércio Pereira Gomes, em sua afirmação de que "no Brasil tem terra de mais para índio de menos"

Em épocas de revisão do Código Florestal brasileiro, o conhecimento de que há pelos menos 40 tribos (2001) isoladas na região norte, torna-se essencial que a visão de Sidney seja levada em conta, por representar justiça para com os verdadeiros donos da terra.

Os irmãos Villas Boas, Apoena Meireles, Francisco Meireles, Claudio Romero, Francisco Bezerra, Sidney Possuelo e alguns pouquíssimos outros, formam parte das raras boas novas da nação brasileira, a nata dos 'Sertanistas': gente duríssima, forte, corajosa, abnegada, devotada de corpo e alma à questão do índio, recebendo salários medíocres, correndo risco de vida o tempo todo, sofrendo podas politicas o tempo todo, e seguindo adiante, insubstituíveis em sua experiencia prática.

O bem maior que estes homens nos deixam foi sua inequívoca tomada de posição ética, em épocas em que as Nações Indígenas eram tidas como meros transtornos à marcha desenvolvimentista. Hoje é fácil estar 'ao lado do índio'. Ou como diria Ferreira Gullar: "Fui esquerdista quando dava cadeia, hoje dá emprego"...


Fica aqui também uma justa e necessária homenagem, junto a triste constatação: aquele que talvez tenha sido o maior etnólogo 'brasileiro' de todos os tempos é um total desconhecido, e nasceu na Alemanha, em 1883. Seu nome Curt Unkel.







Desembarcou no Brasil em 1906, MARCHOU PARA OESTE, encontrou os guaranis-apinacauás, foi adotado pela tribo e mudou de nome, virou Curt Nimuendajú, um sobrenome que em tupi-guarani pode ser traduzido por 'aquele que fez seu próprio lar'.

Durante 40 anos viveu entre pelo menos outras nove tribos, deixou 50 livros, morreu em 1945 às margens do Amazonas, sem jamais ter retornado ao convívio com os brancos. Foi enterrado como o índio que de fato havia se tornado.


Abaixo e concluindo, Orlando em 1940 no rumo oeste, em imagem do arquivo de seu filho Noel, fundador do Instituto Orlando Villas Boas, SP.







"Marcha para Oeste: A Epopéia da Expedição Roncador-Xingu" (Editora Globo), é imperdível, e está também nos cinemas:

https://www.youtube.com/watch?v=7V5nIIkCYpQ

Entenda a evolução histórica da 'Marcha para Oeste':

http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/03/marchando-para-oeste.html







sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Os essenciais 6 - Antonio Argôlo, Aníbal Melgarejo, Marcelo Duarte e Wilson Fernandes



Tenho enumerado como essenciais aqueles que de alguma forma contribuíram para que o NSG se transformasse no projeto minimamente sólido que é hoje, "uma questão estratégica para o País", nas palavras da Diretoria de Imunobiológicos da Fundação Ezequiel Dias de Belo Horizonte.

Confira: http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/03/fundacao-ezequiel-dias-de-belo.html 

Aqui comento os essenciais ao avesso, gente que sempre procurou nos destruir, mas que ao final, foram grandes motivadores. É que cresço na adversidade.

Procurei Antonio Jorge Suzarte Argôlo na Universidade Estadual de Santa Cruz, em 2003, reverencialmente, como que chegando ao Papa. Atitude humilde frente ao homem das ciências e pompas, que mais tarde ele consideraria fragilidade minha. Pensava que me tinha na mão, como veremos adiante.

Eu pedia ajuda para deter o massacre da unica cobra brasileira que em 1988, na lista oficial do Ibama, constava como "em extinção": Lachesis muta rhombeata. Morando em Itacaré, medico do SUS com acesso á zona rural, havia me colocado como alternativa ao abate e as remoções de bicho vivo tomavam porte inesperado. Fui com Argôlo ao escritório regional do Ibama de Ilhéus fazer uma auto-denuncia ao Dr. Sergio Ramos. Saí de lá como "Fiel Depositário" do plantel inicial do NSG.

População, policias Militar e Civil, todos aderiram ao não abate. Assistir minhas remoções era divertido para o publico sempre numeroso, meio que coliseu romano. Um senhor que me viu embolado com uma grande surucucu na Pituba comentou preocupado "o doutor sabe que bicho é esse ?" Ja a sucuri foi removida do centro de Itacaré, com mais de 500 expectadores uivando em volta, numa sexta à noite de Carnaval. Descera o Rio de Contas num galho, encalhou na praia. Ibama não respondeu, Bombeiros idem, CRA idem.

2 da manhã sirene na minha janela.  PM. Avelino: "é Doutor, essa é meio grande, mas veja o que dá para fazer, nem Ibama nem Bombeiros vão vir..." se não vamos ter que matar". Sobrou para mim. Foi um marco no trabalho. Virei referencia para resgate informal de fauna. Parceria espontânea 'poder publico - um civil - sociedade' pró-fauna, num ambiente tradicional e atavicamente pró-abate: 'cobra boa é cobra morta'.


A magnifica Eunectes murinos daquela noite. Houve uma segunda deste porte no Villas de São José, e dezenas de filhotes na reversa de mare da Cabana Luzitania. Nenhum animal abatido. Todos realocados em área seguras, abaixo do Rio Tijuípe.



















Certo dia recebo em minha casa um telefonema de Argôlo. Queria que eu mandasse "umas três" Lachesis vivas para o Butantã. Arrematou dizendo que "teria outras formas de fazer valer sua solicitação" mas que inicialmente estava fazendo um pedido, em nome do amigo poderoso, o Wilson Fernandes. Fui então claramente ameaçado: "haviam outras formas" de se conseguir retirar animais de Serra Grande, "ação politica de bastidores", pensei, mas sob ameaça, eu travo.

Pedi então ao autor da solicitação que o fizesse por escrito. Pouco tempo depois recebo a carta de WF. Respondi dizendo que o veneno que eles quisessem estava na mão, se o Ibama autorizasse as extrações. Mas bicho vivo não. Minha condição de "Fiel Depositário"  impedia as remessas, mas no fundo o que eu temia era o péssimo histórico do centenário Butantã na manutenção em cativeiro do gênero. Cento e dez anos de existência, recebimentos e resgates aos milhares, nenhum bicho vivo, nenhuma reprodução em cativeiro.

Não aprenderam que Lachesis é delicada até hoje. Não se sentem na necessidade de aprender com Mané: medico, nordestino, outsider na herpetologia.

Aqui http://www.lachesisbrasil.com.br/documentario.html  a brutalidade na manipulação num alemão, e que explica, em parte, plantel zerados para o gênero.

Iniciou-se neste ponto, 'do nada', uma nova linha de ação: calúnia associando-me a venda ilegal de veneno, numa tentativa clara de levar-me ao descrédito  Em 26 de abril de de 2006 enviei o seguinte Email a WF:

"Sr. Wilson Fernandes,

Duas fontes distintas nesta ultima semana, um Biólogo e uma Jornalista,me disseram que o Sr. se referiu à minha pessoa como alguém que "VENDE VENENO".

Isto posto,gostaria de saber se o Sr. confirma esta declaração e em confirmando,se o Sr. pode prová-la e se a confirmaria em Juízo.*

*Cópia para Dr. Francisco Carrera e Advogados Associados.

Do Núcleo Serra Grande de Reprodução em Cativeiro de Lachesis muta rhombeata jamais saiu uma gota de veneno, ou qualquer outra forma de comércio envolvendo Lachesis, e você está desafiado a provar o contrário, ou então termine com essa campanha difamatória irresponsável.

Paradoxalmente, Marcio Maruyama do Instituto San Maru, diz que já comprou veneno de Lachesis do Sr., mas que agora a coisa "anda escassa".

Seria esta escassez o motivo deste súbito interesse por reprodução em cativeiro de Lachesis ? Vocês tiveram mais de CEM ANOS para tentá-lo, só de Tucuruí vieram algo entre 130 e 180 animais, como se explica que hoje vocês não tenham um único animal ?

Um dos motivos para esse fracasso absoluto pode ser perfeitamente avaliado no vídeo da TV alemã, DocTv (tenho cópia), do qual faço parte. A sua manipulação das duas Lachesis recém chegadas de Rondônia, nos 15 minutos iniciais do vídeo, é totalmente inadequada.

Apesar de julgar-se no topo do conhecimento (acadêmico), vocês não tem a menor noção da anatomia / fragilidade do Gênero, tratando-o como se tivesse a rusticidade de Bothrops. Não se usa laço em Lachesis, não pode haver contensão prolongada, não se pode simplesmente jogar o animal no meio de um monte de outras cobras ao termino do procedimento.

Quem realmente lida com o bicho costuma dizer que trata-se de "uma flor mortal, mas uma flor", mas o pior disso tudo é que vocês não se julgam em posição de aprender, ainda mais de um João Ninguém como eu. Mas o fracasso vai se perpetuar enquanto vocês continuarem vendo o animal como uma fonte de veneno e só.

Acompanho de perto sua movimentação traiçoeira, endossada pelo Marcelo Duarte, no sentido de fazer uma partilha de animais do Núcleo Serra Grande. Movimentação politica de bastidores. Sei que as duas surucucus de Rondônia morreram em menos de 2 meses em suas mãos, que de Tucuruí não sobrou nada, e estes bichos que removo de enfrentamentos com o povo, com enorme risco pessoal não terão este mesmo fim.

Hoje é mais fácil o Sr me ver preso como infiel depositário que enviando-lhe / cedendo-lhe animais. Há paixão e compaixão no que faço. Não sou nem de longe o inescrupuloso que você quer pintar em contatos como o com a Jornalista e o Biólogo.

Gostaria de lembrá-lo que há na Instituição Federal CEPLAC de Ilhéus, nesse momento, umas 13 Lachesis, algumas bem jovens. Estão lá em caixas de vidro individuais, sem toca, com colegiais o dia todo batendo no vidro para "ver bote", sem abrigo da luz do dia.

As caixas são de 60 cm de largura por 1 mt de altura por 60-80 de fundo. Como vocês nunca se preocuparam com reprodução em cativeiro, nunca colocaram os bichos aos pares. É confinamento absolutamente anti-ético e inadequado à espécie. Qual o sentido disso ?

Canalizem sua "força politica" para esse plantel, e não para um trabalho que está ganhando dimensão mundial, como posso provar.

É profundamente lamentável que as coisas tenham chegado a esse nível de deterioração, calúnia e injúria, mas já me haviam alertado que o meio não era de "anjos".

Como médico e cidadão estarei sempre aberto à ceder o material necessário para a produção de soro, mas não na ingenuidade de antigamente, quando ofereci a você veneno de graça, se o Ibama autorizasse. Só há espaço agora para um relacionamento comercial, caso necessitem de algum aporte do NSG para suas atividades.

Termino como comecei, pedindo que se atenha aos fatos, e que não nos force a interpelá-lo judicialmente"


Não ouvi mais comentários, e ficou por isso mesmo.

Marcelo Duarte também do Butantã, aqui esteve pouco antes deste "pedido" do Argôlo / WF. Foi recebido de braços abertos no NSG (vide mesmo vídeo citado acima). Era só sorrisos. Voltou para SP detonando nosso trabalho, e animadíssimo com a futura 'partilha do plantel'. Amigos que trabalham no Butantã me informaram. Um que não trabalha lá, mas que é da área, num Email de 2006 relata:

"Dr. Rodrigo, eu tenho um amigo la dentro do Butantan e todos sabem que eles querem dividir seus animais, me desculpe escrever aqui uma risada: hehehehehe mas a briga já é entre Vital e Butantan, o Wilson quer seus animais, o Aníbal quer também e afirma ser o único realmente capaz para estar mantendo esses animais em cativeiro, eles brigam entre si para ver quem vai ficar com os animais do seu criatório"

Marcelo Duarte confiava, corretamente, na grande força politica do maior produtor de soros e vacinas da America Latina. 'Corda arrebenta para o mais fraco' pensei, e corri para Dr. Francisco Carrera, renomado Advogado Ambiental do Rio de Janeiro e ingressamos com ação na Justiça Federal de Ilhéus, tornando-me "Fiel Depositário" do plantel do NSG, desta feita, também na Justiça Federal. Agora a luta estaria mais igual.

Pouco depois da minha negativa ao WF, Argôlo partiu para o revide, denunciando-me ao Ibama por uma evolução de plantel informada a ele por mim mesmo. Dr. Carrera novamente acionado. Mais gasto.

O próprio Chefe do Escritório do Ibama de Ilhéus à época, Dr. Sergio Ramos, considerou aquela autuação, em suas palavras, como uma "grande falha de comunicação", visto que há períodos certos no ano para atualização dos números de plantel, a chamada "renovação de CTF", normalmente de janeiro a março de cada ano. Lamentou não ter tido tempo para evitar o ocorrido, pois uma vez lavrada a papelada, 'já foi'. Não Dr. Sergio, agradeço, mas não foi 'falha de comunicação', foi vingança mesmo. Pegou mal com o 'Chefe' WF eu não mandar bicho. Achou que me tinha na mão, não tinha. E deu o troco.

E vingança logo dele, que há 10 anos espalhava baldes de formol na região cacaueira pagando a peãozada para encher o balde com tudo o que rastejasse, e dando o azar de ter entre suas 'equipes de coleta', alunos que mais tarde ingressariam no Ibama. Testemunhas oculares. Milhares e milhares  de cobras mortas podem ser vistas em sua "coleção cientifica" numa sala no térreo da UESC, que por sinal visitei e fotografei. Tonéis plásticos de cor cinza de tampa preta, destes que os produtores rurais usam para estocar leite, com capacidade de uns 50 litros de formol ou mais, e abarrotados de surucucu, vi uns seis.

Saiu da CEPLAC pela porta dos fundos, acusado de "desvio de animais vivos e mortos de Coleção Federal", para a sua, particular, supra citada. Funcionários do então RAN, em visita ao NSG e de passagem pela Ceplac, em 2005, colheram um testemunho interessantíssimo, sobre o misterioso destino das Bothrops pirajai da Ceplac. Há um vídeo recente, do segundo semestre do ano passado eu creio, feito do celular de uma importante autoridade da Ceplac, aparentemente demonstrando que a pratica ainda existe, com aliciamento de funcionários, antigos colaboradores.

Certo dia um amigo me enviou uma interceptação acidental de messenger, ou MSN, entre Argôlo e Aníbal Melgarejo (IVB), em que Argôlo lamenta uma matéria do "Fantástico" feita por Dener Giovanini, do RENCTAS, no NSG. Na conversa, refere-se a mim como "a surucucu mineira que invadiu SEU território, modestamente chamando o Baixo Sul baiano de um feudo seu.

Voltando ao tal MSN, nele, Argôlo queixava-se de que a matéria do Fantástico não contemplava a coleção Ceplac: cobras de 2 mts, em caixas de vidro de 1 x 1 mt, sem toca, num prédio quente, tolerando colegiais o dia todo batendo no vidro, 'para ver bote', e vivas graças e tão somente à competência e paixão do Meu Mestre, José Abade:

Conheça o Mestre: http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2010/12/os-essenciais-2-jose-abade-da-ceplac.html

... e voltemos à plebe, e ao tal MSN interceptado, abaixo:



AntônioJorge:

Olá Anibal. Preciso lhe atualizar sobre uma certa surucucu "mineira" que
invadiu a minha região
. Uma hora dessas apareça no msn, ok? Abração!!



26 Fev




Antônio Jorge:

Anibal, necessitamos que leia o meu email sobre o "caso" surucucu e se
pronuncie
. Abraços.



1 Fev




Antônio Jorge:

Anibal, não deixe de responder ao email que lhe passei hoje. Estarei no
Butantan
até o dia 10 de fevereiro
. 29 Jan



Antônio  Jorge:

Anibal, caríssimo amigo. Como viu, infelizmente eu estava certo em minhas apreensões. Que coisa mais decepcionante, frustrante e lamentável aquela matéria. Como sabe, escrevi um livro apenas sobre serpentes em cacauais. Depois publiquei um artigo mostrando porque existem tão poucos acidentes pela nossa pico-de-jaca*. Ambas as publicações foram absolutamente negligenciadas. A própria Ceplac, empresa que cuida dos interesses da lavoura cacaueira e que tem um serpentário com o maior plantel institucional de Lachesis, sequer foi mostrada. Que gafe jornalística mais grosseira*. Não sei o que dizer ... apenas lamentar que, pelo menos por um bom tempo, o que foi veiculado na matéria do "Fantástico" continuará sendo a verdade para boa parte da população brasileira. Abraços. 23 Jan


*Comento: o tal 'artigo' é uma revisão de prontuários médicos de um pronto socorro de Ilhéus onde eu fui Cirurgião de Trauma, substituindo Dr. Rabat. Resumindo é mais ou menos isso: em cerca de 600 casos de ofidismo, uns 2 por surucucu. É trabalho irrelevante. O fato de que não há Crotalus na região, e assim só se distribua no Baixo Sul o soro anti botrópico-laquético, faz com que o socorrista não se atenha á anamnese como deveria, pois há um bilhão de pacientes por atender nas Emergências cronicamente super lotadas do SUS, e independentemente da cobra o soro será o mesmo. Raciocínio infeliz mas é o que acontece: o soro pode ser o mesmo, mas o tratamento não é.  Volta e meia alguém paga pela negligencia: um paciente recebeu alta no segundo dia do acidente, e morreu em casa no terceiro, no povoado de João Alfredo BA, por AVE.  No ano de 2009 somente, até outubro, os dois casos de ofidismo que chegaram á Fundação Hospitalar de Itacaré foram por Lachesis, o primeiro envolvendo gravida. No segundo, Dr. Teobaldo apareceu na minha casa de noite em busca do soro que sempre mantenho por segurança, cortesia FUNED. Ambos escaparam. Médicos e pacientes se enganam FREQUENTEMENTE na classificação das cobras, nosso trabalho deste momento redigindo o Manual do Ministério da Saúde para animais peçonhentos visa isso também  facilitar a distinção entre os acidentes botrópico e laquético, basicamente pela clinica.

Quem tiver interesse em conhecer o acidente laquético minuto a minuto, favor acessar o link abaixo:

http://www.lachesisbrasil.com.br/download/BulChicagoHerpSoc_Vol42Num7pp105-115%282007%29.pdf


QUANTO Á 'GAFE JORNALISTICA' NÃO SERÁ UM VAIDOSO ENCIUMADO A JULGAR O TRABALHO DE DENER GIOVANINI, MAS O PRÓPRIO PÚBLICO, COISA QUE CONVIDO-OS A FAZER AGORA NO LINK ABAIXO, QUE CONDUZ À TAL MATÉRIA DO 'FANTÁSTICO'. APROVEITEM PARA VER MAIS RELATOS DE VITIMAS DE LACHESIS, 'INEXISTENTES' NOS PRONTUÁRIOS.  PARA OS QUE TEM DUVIDAS DA AGRESSIVIDADE DO VENENO EM HUMANOS, ATENÇÃO ESPECIAL À FALA DE 'TUREBA', EM 5 MINUTOS UM TOURO DE HOMEM CAÍDO - HIPOTENSÃO - VOMITANDO SANGUE, E INCAPAZ DE ENGOLIR, COM SUA 'GARGANTA TRAVADA', PEDINDO PARA TIRÁ-LO DALI  PARA SUA MULHER E FILHOS PEQUENOS NÃO O VISSEM MORTO ... 

https://www.youtube.com/watch?v=YTitbs5Gw4Y

Sobre a questão da 'DL 50', ou quantificação da potencia de um determinado veneno, no laboratório, confira:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2013/09/a-mais.html


E finalmente, quanto ao livro das serpentes nos cacauais do dono do Baixo Sul da Bahia, uma tese acadêmica de 2004, pessoalmente acho um tédio, e a baixa vendagem (uma edição, 2004-2011) indica que não estou sozinho na percepção. Qualquer um que quiser referencia rigorosamente correta, ágil  ilustrada sobre serpentes brasileiras e do nordeste em especial, no formato 'manual de campo', deverá buscar os trabalhos do Dr. Marco Antonio de Freitas, na Editora USEB, ou diretamente com ele via Email: philodryas@hotmail.com  Tenho todo os seus livros, uso e recomendo. Os capítulos de Lachesis tem contribuições minhas.

Concluindo sobre este MSN tão revelador, chamo especial atenção aos leitores da singeleza que é Argôlo escrevendo do Butantã (Wilson e Marcelo) para Aníbal, isso sim é um 'alinhamento de forças'.


Mas retomando o texto, Dr. Dener Giovanini me disse que até tentou, mas achou os animais da Ceplac tão letárgicos e o confinamento tão anti-ético, que não conseguiu filmar aquilo lá para "O Brasil é o Bicho"

O Ibama fechou aquele circo em 2010. Acabou visitação. Numa reunião anterior com a Direção Ceplac, Dr. Djalma Ferreira colocou clara a disposição do Ibama em acabar também com a farra de extrações de veneno ilegais que ocorriam a rodo por lá. E a grande tragedia: Abade não mais cuida das cobras. O que vi lá recentemente após a saída do Abade me fez / faz pleitear junto ao Ibama e a Ceplac, o envio daqueles animais ao NSG para recuperação: mudas de pele 'encroadas' (aderidas), parasitismo, falta de vermifugação, emagrecimento e mortes. Não sobrará uma unica se não atuarmos rápido.

Quer mais ?

O site "O Eco", respeitadíssimo, certa vez fez uma matéria sobre Lachesis intitulada "Prontas para Adoção", na qual apontava a diferença de resultados entre o Núcleo Serra Grande, e 'a penúria dos grandes institutos', com relação à manutenção de surucucus em cativeiro.

Confira a matéria: http://www.oeco.com.br/reportagens/1590-oeco16673

O Sr. Aníbal, do MSN supra citado, sentiu-se ofendido pela matéria, e em seu 'direito de resposta' inicia o texto chamando-me de 'criador ilegal' e insinuando relações minhas com trafico internacional de animais.

Eu, "Fiel Depositário"  tanto do Ibama quanto da Justiça Federal, tapando buraco de uma omissão do Estado em resgate de fauna, acusado desta maneira, e de forma gratuita.

Respondi à altura, mas uma questão ainda me intriga: Argolo comandava o serpentário Ceplac, autorizava Aníbal a fazer extrações em 12-16 Lachesis adultas (de 20 a 40 ml ou mais de veneno bruto), que eram em parte vendidas ao Instituto San Marú, de SP. Só para dar-lhes uma ideia destes números, a Fundação Ezequiel Dias de Belo Horizonte, segunda maior produtora nacional de soros e vacinas gasta, em hum ano, de uma a duas gramas de veneno de Lachesis para seus trabalhos: de 2 a 4 ml (dois a quatro ml/ano) de veneno bruto. O que credenciava estes Senhores a posar de tal forma como paladinos da moralidade ? Certeza da impunidade pelos seus PhD ? Será que conhecem o fenômeno psicológico da "projeção", que é ver no outro aquilo que se traz internamente, no caso especifico, a fraude ?

Sei que a farra das extrações na Ceplac continuava até o ano passado. Muito veneno seguiu para SP e Ribeirão Preto, sem o devido tramite de autorizações do Ibama. Sei também que agora o Núcleo de Fauna do Ibama de Salvador entrou nisso, e também na fiscalização de 'coleções cientificas', ou seja, na mira das Dras. Aline, Simone e Samanta, muito dificilmente picareta vai ousar.

Concluindo, este é o florido mundo da instalação do NSG. Vaidades, gastos, perda de tempo, dinheiro, energia, risco de vida permanente.

INCAPACIDADE DE AÇÃO AFIRMATIVA, CONJUNTA, EM PROL DO OBJETIVO MAIOR, DETER A EXTINÇÃO DA SURUCUCU DA MATA ATLÂNTICA:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2014/05/mantra-para-lachesis.html 

Aqui http://www.lachesisbrasil.com.br/NSG/nsg.html  entenda onde reside a importância dos núcleos de reprodução em cativeiro ...


Concluindo, nos idos da década de 20, havia um 'posto avançado do Butantã' em Maraú, Bahia, onde o Dr. Pirajai coletava e remetia espécimes de interesse medico para SP. Outros tempos, outros homens, outra mentalidade. Certa feita, o medico enviou a SP uma grande fêmea de Lachesis, e ao abrirem a caixa, depararam-se com ela morta, junto a vários ovos maiores que os de galinha. Amaral, aparentemente desconhecendo Mole, de Trinidad, 1910, publicou então "On the oviparity of Lachesis", surpreso com a possibilidade de um viperídeo botar ovos.

Isso ilustra bem quão recente é a historia do gênero  Desconhecido a 90 anos passados. Não há de fato especialistas aqui. São todos iniciantes. Essa é a consciência que deveria ter regido a todos os envolvidos, levando a uma soma de cooperações.

Mas falhamos.

PS: abaixo uma pequena amostra do que enfrentamos aqui na região, a dita "pressão antrópica", que levou ao surgimento do Núcleo Serra Grande:











quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Os essenciais 5 - Dean Ripa





Dean Ripa, sempre remando contra a maré, em foto recente






Todo punheteiro dos anos 60 lia Carlos Zéfiro escondido. Me parece que toda 'a nata' da herpetologia lê Dean Ripa escondido, pelo menos ao Sul do Equador. Há uma  uma especie de espirito de corpo pró-academia, até mesmo nas prateleiras e citações. Como todo auto-didata, Dean é um outsider.

Uma destas divindades acadêmicas certa vez implorou sussurrante que eu solicitasse a Ripa uma cópia de um artigo seu sobre Bothrops leucurus, "o melhor" que este Ph. D. já tinha lido. Importante mencionar que este sujeito passou a vida em território de leucurus, e coleciona centenas delas em seus baldes de formol.

Dean Ripa é então o Carlos Zéfiro "da nata" dos herpetólogos tupiniquins.




A HISTORIA DE ANGELA

Confira: http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/07/classicos.html
                                                     

Se o assunto é Lachesis a coisa vira covardia. Ufanismos à parte, os americanos fizeram barba, cabelo e bigode em cima da gente: desde Boyle e cols., do Dallas Zoo na década de 80 com muta muta, à Dean nos dias de hoje com muta muta, stenophrys e melanocephala, eles apresentam consistência na difícil reprodução em cativeiro de Lachesis. Seguindo as pegadas de Boyle, o Núcleo Serra Grande foi o primeiro centro no planeta a reproduzir em cativeiro, varias vezes, a surucucu da Mata Atlântica.

A qualificação para conseguir-se consistência na reprodução em cativeiro do gênero, acabou por formar um clube pequeno e fechado com não mais que cinco sócios no planeta. Nenhum grande instituto brasileiro atingiu resultados sequer próximos dos nossos. Mais sobre 'o clube', abaixo:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/01/carl-gustav-jung-e-o-clube-da-surucucu.html

Também em nosso quintal (vales Inter-Andinos da Colômbia), Dean promoveu a ressurreição de Lachesis acrochorda em 2003, primeiramente descrita por Garcia em 1896, e esquecida no tempo na vala comum com muta muta.



Lachesis acrochorda (Garcia, 1896 - Ripa, 2003)


Acontece que entre os que se acham grandes há eventualmente gente realmente grande, com pouco tempo para vaidade. Entre eles Zamudio e Greene. Num trabalho histórico que pode ser visto em links e downloads na pagina do NSG, estes cientistas analizam o DNA mitocondrial de Lachesis, para concluir pelo nível especifico para stenophrys e melanocephala, separadas desde sempre pela Cordilheira de Talamanca na America Central,  e deixando muta muta e muta rhombeata para aqueles que vêem aqui alguma utilidade taxonõmica (e não biomolecular) na distinção sub especifica para as Lachesis da da America do Sul. Saiba porque esse trabalho consagra Dean Ripa, lendo seu Abstract, abaixo:

BUSHMASTER SYSTEMATICS K. R. Zamudio and H. W. Greene [1997, Biol. J. Linnean Soc. 62:421-442] used mitochondrial gene sequences to reconstruct phylogenetic relationships among subspecies of the bushmaster, Lachesis muta. These large vipers are widely distributed in lowland tropical forests in Central and South America, where three of four allopatric subspecies are separated by montane barriers. Their phylogeny indicates that the four subspecies belong to two clades, the Central American and South American lineages. They used published molecular studies of other taxa to estimate a “reptilian mtDNA rate” and thus temporal boundaries for major lineage divergences in Lachesis. The authors estimate that the Central and South American forms diverged 18– 6 million years ago (Mya), perhaps due to the uplifting of the Andes, whereas the two Central American subspecies may have diverged 11– 4 Mya with the uprising of the Cordillera de Talamanca that separates them today. South American bushmasters from the Amazon Basin and the Atlantic Forest are not strongly differentiated, perhaps due to episodic gene flow during the Pleistocene, when suitable habitat for this species was at times more continuous. These results agree with previous evidence that genetic divergence among some Neotropical vertebrates predated Pleistocene forest fragmentation cycles and the appearance of the Panamanian Isthmus. Based on morphological, behavioral, and molecular evidence, the authors recognize three species of Lachesis. In addition to L. muta, the widespread South American form, the Central American forms are treated as distinct species (L. melanocephala and L. stenophrys), each deserving of special conservation status due to restricted distribution and habitat destruction. This study confirms ideas put forth earlier by Dean Ripa [1994. Reproduction of the Central American bushmaster (Lachesis muta stenophrys) and the black-headed bushmaster (Lachesis muta melanocephala) for the first time in captivity. Bull. Chicago Herp. Soc. 29(8):165-183].

Para avaliar este trabalho histórico, na integra, acesse:

http://www.lachesisbrasil.com.br/download/Lachesis%28Zamudio-Greene%29.pdf


Ou seja: sem tecnologia, baseado em observação, perspicácia e paixão, Dean Ripa chegou bem antes às conclusões de Zamudio e Greene, abrindo o caminho, 'carrying the torch', como reconhecem estes dois grandes autores.


Também em links o downloads da pagina do NSG, é importante ler o primeiro capitulo da ultima edição do livro de Ripa sobre Lachesis: "Bushmasters - Morphology in Evolution and Behavior", para entender-se entre outras coisas, o porque dele ser contrario à sinonimia muta muta x muta rhombeata, em muta. Dean propõe nova 'range distribution' para rhombeata, para além no norte no Mato Grosso. Confira na integra: 

http://www.lachesisbrasil.com.br/download/DeanRipa-GeographicalDistribution.pdf

Outra briga de cachorro grande.

Dean esteve aqui no NSG em 2005, em épocas em que eu era tratado como um marginal pela mesma academia que finge ignorá-lo. Não tenho como agradecer por tanta ajuda desde então, contribuições decisivas para o sucesso reprodutivo dos dias de hoje.

Dean arrombou a festa. Forçou-se a ser ouvido à despeito da falta de títulos acadêmicos e afiliações. Conquistou credibilidade com uma vida de dedicação ao Gênero. Uma vida e várias quase-mortes: foi picado cinco vezes por surucucu.



Na ultima picada, agonizando em North Carolina, mas sobreviveu e mais uma vez comtribue no aftermatch para entendermos melhor esta gravissima intoxicaçao




Tenho para mim que ele é mais um escritor que mexe com cobras, que um criador de cobras que escreva. Herança dos Beats, Burroughs e Kerouac, amigos pessoais. Daí seu texto ser único, recheado de literatura e historia, ironia, agilidade e ineditismo hands on. Imperdivel e essencial.


Leia tambem:


http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/03/vanzolini-garcia-ripa-e-acrochorda.html

http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/10/os-primeiros-10-minutos.html



domingo, 9 de janeiro de 2011

Os essenciais 4 - Paulo de Tarso Hilário ( in memorian )









Acreditar na gente é uma coisa, acreditar na gente e botar a mão no bolso é outra. Paulo fez as duas coisas, acreditou e investiu no sonho do Nucleo Serra Grande. Acreditou em mim.

Paulo de Tarso Hilario via as cobras como viventes essenciais, mas seu foco maior era o homem. Assim, com ele e através dele, pudemos construir uma escola - Escola Bosque da Passagem - que abraçou com bolsas de estudo os mais carentes do Bairro da Passagem, em Itacaré, Bahia. O criterio tecnico de distribuição destas bolsas era o nivel de desnutrição infantil.

Fabricamos paralelamente a multi-mistura da Pastoral da Criança, um nutriente simples e eficiente, que foi  distribuído gratuitamente para as famílias destes alunos com risco nutricional, para aumentar suas chances tanto na vida quanto na escola. Na mesma linha, através de doações canalizadas por Paulo, pudemos medicar doentes da Fundação Hospitalar Itacaré, vitimados pelo SUS deficitário  e pudemos também trabalhar com os detentos da cadeia de Itacaré, retirando alguns deles da cela para o ringue de boxe e para uma nova vida. Poderia me estender ad infinitum enumerando ações, mas não é o caso neste momento.

A maior homenagem a esta pessoa que pensou tão pouco em seu próprio conforto, é apoiar quem o sucede na missão de sua ong, a Yonic, que é preservar o patrimonio natural investindo no ser humano, confira o video abaixo para entender objetivamente o foco das ações planejadas por Paulo.

Contatos com a ong podem ser feitos diretamente com Geraldine Beaumont: geraldine@yonic.org



video


E CONFIRA:

http://www.lachesisbrasil.com.br/NSG/nsg.html



domingo, 2 de janeiro de 2011

Sobre o tamanho (verdadeiro) de Lachesis



Recebo um email de leitor do blog perguntando sobre a questão do comprimento das maiores surucucus.

Na nossa experiencia, e falando do animal das 'Matas Atlânticas' (Ab'Saber), qualquer animal ultrapassando 2,90 metros é raridade.

A algum tempo atrás eu ajudava o autor em herpetologia, Dr. Marco Antonio de Freitas, nesta tentativa de determinação estimada do maior comprimento total para o gênero Lachesis na Mata Atlãntica, chegando a desenterrar a carcaça de um animal abatido em Taboquinhas, BA, e que diziam chegar aos 3 metros.

O estado adiantado da decomposição deste animal impediu correta avaliação, e assim, falo pelo que tenho em mãos. Num levantamento dos últimos 10 anos, o maior animal que já pudemos medir tinha 2,87 mts (vide foto) e já estava gravemente ferido quando chegamos para o resgate. Para efeito de comparação, meu auxiliar Claudio, na foto, tem 1,76 metros de altura.

Assim, desconheço de onde vem a comprovação da afirmação em posteres do Butantã de que o gênero atinge '4, 50 metros'. Sei que Ditmars identificou uma Lachesis stenophrys com 3,62 metros, isso no inicio do seculo passado, e esse para mim permanece com o maior animal já medido.



Fêmeas pagam um enorme preço reprodutivo. Nunca identifiquei uma superando os 2 mts. Ambos os animais da foto,  2,83 e 2,87 mts eram machos, e chegaram em condições criticas ao NSG.


O tamanho do bicho a coloca no hall das 'high strikers', com botes superando o metro em altura. Tenho 1,82 e já fui alcançado (no macacão, e sem inoculação) na altura do umbigo: um bote com 1,14 metros de altura.

Vejam o relato dramático de uma picada fatal na linha divisória entre o abdome/tórax de uma criança. Choque em 30 minutos. Morte em menos de 90 minutos. Fato ocorrido em Cotriguaçu, Mato Grosso, e testemunhado pelo amigo e colaborador, Enfermeiro Matheus Morais.

Em suas próprias palavras:

"Por meados de março de 2005, na cidade de Cotriguaçú (Noroeste de Mato Grosso), numa localidade chamada Nova União, onde eu trabalhava como enf. de PSF, ao final da tarde, fui solicitado apos horário de atendimento na unidade de saudê. Um homem com uma criança de aproximadamente 5 anos nos braços, com referencia a picada de cobra. A avaliação primaria a criança apresentava-se pálida, hiporresponsiva e evidente orifício duplo na altura do abdome que apresentava discreto sangramento. SIC do padrasto q acompanhava a criança, a mesma fazia companhia a este enquanto aparava a grama de um campo de futebol. Talvez em razão do barulho do aparador de grama, o padrasto viu a criança já ao solo e a cobra próxima. Juntamente a populares a cobra fora morta. Cronologicamente, penso que o tempo decorrido entre a picada e o primeiro atendimento não foi superior a 30 min. Ja na unidade de saúde a criança fora atendida por mim e pelo medico que se encontrava na localidade apresentando sinais óbvios de choque (pele fria, sudorese, taquicardia, obnubilação). Providenciado AV calibroso e infusão de SF em grande volume. Durante os preparativos para remoção do paciente (máximo 30 min) o mesmo evoluía mal (aumento da FR, FC e sudorese), sendo observado aumento do sangramento no local da picada e epistaxe. Logo nos primeiros kms rumo ao hospital mais próximo (Colniza-MT) a vitima já não apresentava sinais vitais. Ja de volta a unidade de saúde o corpo sem vida da criança mostrou perda de fluidos sanguinolentos através de anus, nariz , boca e local da picada. A cobra morta trazida a unidade de saúde tratava-se com certeza de uma Pico de Jaca. Por mera curiosidade, medi o exemplar (2,3 m). Penso q entre a picada da cobra e o óbito desta criança transcorreu-se no máximo 1h e 30 min."


Em território de Lachesis  mais valem olhos e ouvidos atentos, do que propriamente a botinha com perneira tradicional. Bote acima do joelho é quase norma. Ouvido atento em território de Lachesis nos remete a Lineu (Linnaeus), e seu 'Crotalus mutus' ('chocalhador mudo', o chocalhador sem um chocalho como o das cascavéis), que foi como ele primeiro nomeou as surucucus.

Mesmo sem o aparato das cascavéis, Lachesis faz muito barulho vibrando a cauda contra o folhiço do solo da floresta, como se nos dissesse: 'não pise em mim, não se aproxime mais'.

Aumente o som e confira: http://www.youtube.com/watch?v=-QXgxB81yAA

CONHECER E MEMORIZAR ESTE SOM PODE SALVAR SUA VIDA

Aprofundamento no acidente laquético  pode ser visto aqui: http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/05/acidente-laquetico-na-pratica.html

E sobre como as grandes Bothrops já rivalizam em tamanho com Lachesis, confira: http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/07/supremacia-lachesis-em-cheque.html