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sábado, 28 de maio de 2011

Acidente laquético, na prática



Há quase sempre muita dificuldade em se definir, sem a tecnologia de testes como ELISA, o agente exato causador de acidentes ofídicos.

Acidentes laquéticos podem apresentar algumas peculiaridades ao exame físico, que auxiliarão no diagnóstico etiológico do acidente.

Lembrar já de inicio que se trata de bicho poderoso, segunda maior cobra venenosa do planeta, uma HIGH STRIKER ('bote alto'). Abaixo dois indivíduos ultrapassando os 2,80 metros, da região de Itacaré, Bahia. 




Picadas acima da linha do joelho, e com espaçamento entre presas incomum, são a norma.



 
Espaçamento de 4 cm entre presas, em picada na cabeça, acima, e de 6 cm na face posterior do joelho (setas pretas), 6 cm em antebraço, abaixo...





A título de curiosidade, espaço entre presas de 3,5 cm em picada de cascavel indica animal raro e gigantesco, acima dos 1,60 metros.

Hemorragia profusa no local da picada de surucucu é comum e indica caso grave ...



No acidente laquético a dor local após inoculação é intensa e é grande parâmetro medico: se está doendo muito, repercussão cardiovascular na forma de hipotensão e bradicardia estão a caminho.

Socorristas devem se preparar antes de tudo para evitar queda da pressão (e estado de choque), ou bradicardia excessiva (e parada cardíaca), com infusão precoce de soro fisiológico e uso de atropina. Presenciei pressão arterial de 60 x 40 mm Hg em 20 minutos de evolução da picada, com frequência cardíaca de 50 bpm, e caindo.

Característica do acidente laquético grave no Brasil é a chamada 'tríade vagal': 1) hipotensão e bradicardia 2) vômitos e dor abdominal  3) diarreia. Contudo, estes sinais e sintomas podem estar ausentes e ainda assim o caso evoluir mal.

Pacientes também falam que 'não conseguem engolir', logo aos primeiros 10 minutos da picada, sendo esta possivelmente uma expressão de neuro-toxicidade direta, com bloqueio da musculatura laríngea. Incapacidade de engolir é portanto sinal de alerta para os socorristas: houve inoculação e o efeito do veneno está em curso no organismo.

Edema (inchaço) não é extremo no acidente laquético no Brasil, mas vai ocorrer, e em tratamentos tardios, comuns nas vastidões amazônicas, pode ser devastador. Vide imagem abaixo, evolução de 24 hs, soro na primeira hora do acidente.


Acidente com uma unica presa, e relativamente baixa inoculação, ainda assim com efeitos sistemicos rapidos e devastadores: a gravidade do acidente laquetico (pelo menos em humanos) parece não ser dose-dependente

Atenção para complicações tardias, como trombose mesentérica (abdome agudo) ou alterações na marcha, com vômito e cefaleia persistente, e progressivo rebaixamento do sensório (confusão mental), sintomas que podem indicar AVE (o 'derrame') em curso, como os das tomografias abaixo, atendidos pelo Neuro-Cirurgião Eric Jennings, em Santarém

AVE em acidente laquetico, 24 hs de evolução, fatal


AVE em acidente laquético, quinto da de evolução, operado com sucesso




Picadas em áreas de alta adiposidade, como abdome a nádegas  podem ser especialmente enganadoras com sinais e sintomas surgindo tardiamente.

A gravidade do acidente laquético não é dose-dependente. Ao contrário do acidente botrópico, onde acidente com animal maior é igual à mais inoculação e acidentes mais graves, em relação às surucucus, acidentes com baixa inoculação, envolvendo filhotes, ou inoculação com uma só presa, ou 'raspadas' como a da foto abaixo podem, ainda assim, evoluir mal muito rapidamente.





PARA SABER MAIS, acompanhando um acidente laquético minuto a minuto, favor acessar:

http://www.lachesisbrasil.com.br/download/BulChicagoHerpSoc_Vol42Num7pp105-115%282007%29.pdf

http://www.lachesisbrasil.com.br/download/rmna.doc.pdf


Caso quase fatal de Dean Ripa:

http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/10/os-primeiros-10-minutos.html

Um caso envolvendo criança, com choque em 30 minutos, e morte em 90 minutos:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/01/sobre-o-tamanho-verdadeiro-de-lachesis.html


Acidentados que sobreviveram para contar, os casos Rosenvaldo e Tureba:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2013/03/a-surucucu-e-super-
companheira-eu-e-meu.html

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2013/05/matrix-sincronicidade-e-sorte-na-vida.html





quinta-feira, 26 de maio de 2011

Neurotoxicidade na peçonha laquetica




Resumindo, o que posso dizer sobre a neurotoxicidade em Lachesis é o seguinte:


As enzimas giroxina (Gx) e fosfolipase A2 (PLA2), ambas presentes na peçonha laquetica, induzem a efeitos neurologicos em modelos experimentais, como bloqueio neuromuscular irreversivel (PLA2, em experimento com veneno bruto) e 'rotação em barril' em cobaias inoculadas (Gx, em experimento purificado). Como nenhuma destas enzimas atravessa diretamente a barreira hemato-encefalica, busca-se no presente momento compreender qual subproduto desta atividade enzimatica estaria atuando sobre qual substrato endogeno inativo, eventualmente causando alguns dos sinais e sintomas observados nos acidentados, como a incapacidade de deglutir por exemplo.

 

Um fio da meada: entender porque os acidentados não conseguem engolir logo nos primeiros minutos da picada. Teríamos aqui indicio da verdadeira neurotoxicidade - paralisias - no acidente laquético ?

Confira abaixo o acidente quase fatal de TUREBA, em suas próprias palavras: 

https://www.youtube.com/watch?v=sw6PtYMUpXM&list=UUQiylqUbRXfrNGO3bm3mOXA


É tanto sintoma mais exuberante: dôr, vomito, hipotensão, que a disfagia passou despercebida. Paralisia de decimo par de nervo craniano, responsável pela deglutição, o Vago ? E tantos outros sintomas com potencial neurótoxico: ataxia (marcha prejudicada, 'andar de bêbado'), cegueira, alterações visuais e auditivas. 

Confira abaixo o acidente quase fatal de ROSENVALDO, em suas próprias palavras:

https://www.youtube.com/watch?v=KCxdpowxwLQ&list=UUQiylqUbRXfrNGO3bm3mOXA


Considerar como contraponto à hipotese neurotoxica, que até as fosfolipases miotóxicas da peçonha de Bothrops, sabidamente não neurotóxica, podem causar bloqueios neuromusculares como o observado por Daniela Damico em trabalhos recentes, que apontam para ação neurotóxica em experimentos in vitro, com veneno bruto de Lachesis.

Uma boa pergunta inicial para um trabalho sobre neurotoxicidade na peçonha de Lachesis muta rhombeata seria: Lachesis é mais próxima filogeneticamente falando, de Bothrops ou Crotalus ?

Brattstrom em 1964 sugeriu que Agkistrodon, Lachesis, Crotalus e Sistrurus pertenceriam a um mesmo ramo evolutivo.

Vital Brasil em 1909 relatou que o veneno de Lachesis se afastava do botrópico e se aproximava do crotálico, baseado em observações de inoculações endovenosas de peçonha laquética, que pouco congestionavam órgãos internos.

A busca de relações evolutivas com base na bioquímica profunda do veneno levou da Silva et al, em 1989, a buscar crotoxina no veneno de Lachesis, não encontrando, mas chegando a toxina análoga, a giroxina.

Já nas arvores mais recentes, como a de Castoe em Journal of Biogeography (J. Biogeogr.) (2009) 36, 88-103, Lachesis aparece mais próxima de Ophryacus e Bothriechis, sendo portanto, filogeneticamente mais próxima a Bothrops.

Um trabalho importante para quem quiser aprofundar, abaixo:


CONTRIBUTION TO THE STUDY OF GYROXINS (THROMBIN-LIKE ENZYMES)
FROM BRAZILIAN SNAKES VENOMS OF LACHESIS MUTA MUTA AND
CROTALUS DURISSUS TERRIFICUS VENOMS

Maria Aparecida P. Camillo

ABSTRACT

The study of animal toxins has brought important contribution to the Biosciences. The use of different and selective toxins in biological systems has increased the knowledge on physiological processes, keeping the interest in those researches.

The gyroxin, a thrombin-like enzyme, is one of the most important toxin from
Lachesis muta muta venom, which is also found in Crotaius duhssus terrificus venom.

The gyroxin has enzymatic activities, such as amidase, sterasic and fibronogenolitic, capable of inducing  the "barrel rotation syndrome", characterized by the progressive hypoactivity, followed by a loss of the righting reflex and rotation around the long axis of the body.

This study has been carried out with the purpose of better understanding of gyroxin, including the possible neurotoxical action, the toxicokinetics and the elimination pathways.

Both gyroxins, of Lachesis and Crotaius were obtained through the venoms fractionation using gel filtration and affinity chromatographies. During the enzimatic and in vivo assays, the gyroxins resulted active. In the neurotoxicity test (method of release tritiated neurotransmitter in vitro) there was no change in the control release profile for [^H]dopamine and [^H]acetylcholine and no evidence was shown for crossing the blood-brain barrier, strengthening the hypothesis of an indirect action on the central nervous system.

In order to obtain the toxicokinetics analysis, ^^^1 radioiodinated toxins were used. The toxins presented fast distribution adjusted by the two-compartimental model and elimination through urine.

CONCLUSÕES

Da análise dos resultados que obtivemos, nas condições e pelas metodologias
utilizadas podemos concluir que:


- as giroxinas dos venenos de Lachesis muta muta e de Crotaius durissus
terrifícus foram obtidas com rendimento e pureza adequados para os ensaios de
neurotoxicidade e toxicocinética, via de eliminação e passagem pela barreira
hematoencefálica e com suas propriedades físico-químicas e biológicas.

- o método de liberação in vitro de f H]acetilcolina ou f H]dopamina respondeu
à presença e ausência de cálcio e os resultados foram compatíveis com os
mecanismos de ação de fármacos, o que permite concluir que processos
neurofisiológicos podem ser acessados neste ensaio,

- o método de liberação in vitro de [^H]acetilcolina ou [^H]dopamina mostrou
sensibilidade a toxinas conhecidas, com diferentes estruturas químicas e pesos
moleculares, portanto, podendo ser utilizado para estudos com neurotoxinas.

- as giroxinas laquética e crotálica não agiram sobre as liberações, basal ou
estimulada, de acetilcolina ou dopamina do estriato de ratos,

- a giroxina crotálica na forma radioiodada foi obtida com bom rendimento e
95% de pureza, tendo suas atividades enzimáticas e biológica preservadas,

- a giroxina crotálica foi rapidamente distribuída, segundo um modelo
bicompartimental, eliminada pela via urinária e forneceu evidências de não atravessar a barreira hematoencefálica.

Atenção a uma observação da pg 53:

Embora o rolamento em barril e todos os sintomas neurotóxicos envolvidos
tenham sido descritos em 1961 por BARRIO, quando descobriu a giroxina no veneno de Crotaius duríssus terríficus, apenas em 1975, COHN & COHN o introduziram nas neurociências, após observação deste efeito por administração intracerebroventrincular de altas doses de somatostatina. Foi classificado como um efeito motor não usual, severo, associado á ação intracerebral de neuropeptídeos.

KRUSE et al.(1977) observaram o mesmo efeito com a administração intra cérebro ventricular de arginina-vasopressina, o que motivou os autores a realizarem alguns estudos para entender melhor este quadro patológico e tentar definir seu local e mecanismo de ação. No entanto, embora muitas das características tenham sido descritas, o objetivo finai ainda não foi alcançado pois todo o processo desta síndrome não está totalmente elucidado.


A rotação em barril tem sido descrita como um aumento repentino e assimétrico
no tônus do músculo esquelético, acompanhado por opistótono, distorções
espasmódicas e rotação ao longo do eixo do corpo (KRUSE et al.,1977), no
sentido horário e anti-horário, sendo que o mesmo rato gira para o mesmo lado com 3% de exceções (WURPEL et al.,1986).

Os rolamentos se alternam com períodos de prostração, e estímulos por ruídos ou por pinçar a cauda, aumentam o comportamento rotacional (COHN & COHN, 1975).

Alguns ratos morrem, em geral por dificuldades respiratórias, enquanto outros ficam completamente assintomáticos em aproximadamente 1 hora.

Muitos ratos que não desenvolveram a rotação em barril apresentam um ou mais sintomas, tais como imobilidade, alguns graus de ataxia, extensão dos membros posteriores e limpeza.

Outras características importantes do rolamento em barril são:

- é um fenômeno tudo ou nada, não apresentando relação dose x resposta
(WURPEL et al., 1986a)

- sofre sensibilização - uma segunda injeção de arginina-vasopressina intra cérebro-ventricular, induziu o rolamento em barril em um número maior de ratos e causou uma diminuição do tempo de latência em relação ao primeiro dia (WURPEL et al.,1986b; WILLCOX et al.,1992).

- ocorre degeneração do sistema nervoso: análises histológicas do hipocampo
de ratos após injeções locais de giroxina crotálica foram caracterizadas pelo
aparecimento de danos neuronais presentes tanto no local da injeção quanto em áreas distantes do sítio de aplicação (MOREIRA, 1993). Efeitos tóxicos semelhantes foram observados após injeção intracerebroventricular de somatostatina (BALABAN et al.,1988); e endotelina-3, que produziu alterações necróticas por constrição das arteríolas cerebrais (KANNAN et al.,1994). As injeções de arginina-vasopressina não produzem estas alterações patológicas no tecido (BALABAN et al.,1988).

Tomando como premissa que o rolamento em barril está associado à ação intracerebral de neuropeptídeos e que as giroxinas não tem uma ação direta sobre o tecido nervoso, duas hipóteses para o mecanismo de ação destas toxinas podem ser avaliadas. A primeira supõe que ocorra a liberação de formas ativas como produtos da atividade enzimática da giroxina sobre substratos endógenos inativos e a segunda, que haja ativação de processos fisiológicos com liberação de vasopressina.





quarta-feira, 25 de maio de 2011

Sobre a sucurí que matou duas meninas no Brasil, no início deste mês


As táticas de caça das sucuris são bem conhecidas. Pensava-se que elas sempre caçavam de emboscada, com a cauda presa a alguma galhada, imersa até o focinho, e abocanhando com este apoio um animal que viesse beber água. Alphonse Hoge (1912-1982), renomado herpetólogo do Butantan, observou que isso não era verdade: numa grande piscina naquele instituto onde eram mantidas sucuris, coelhos eram abocanhados na superfície da água, com a cobra sem apoio. À seguir ocorria a manobra de 'rosca infinita', que é quando a laçada inicial corre ao longo do corpo da cobra no sentido caudal, levando a presa para o fundo. Todos os Boídeos primeiro mordem, depois se enroscam na presa, e procedem com a constrição. No corpo das meninas durante a necrópsia não havia sinal de mordida, ou de constrição. Mais uma vez as cobras levam um crédito indevido. Não houve "ataque de sucuri", mas mais um afogamento por imprudência. A cabeça que aparece antes da gritaria é de lontra ou ariranha, e é irrelevante na tragédia.

http://www.youtube.com/watch?v=jLWNKSjZe_8

LEIA TAMBÉM:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2012/06/sucuri-come-gente.html

http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/04/os-essenciais-8-dr-vidal-haddad-ou-de.html


domingo, 22 de maio de 2011

A mais longa encubação de um ovo de Lachesis de que tenho noticia



Em  Serra Grande, bebês no segundo dia de nascimento, após 87 de encubação. O ultimo ovo (abaixo) eclodiu em 91 dias, algo inédito.

Temperatura média na mata no período 24° C. Completados 80 dias sem nascimento algum, cheguei a dar estes ovos como perdidos, mas o bom aspecto impediu o descarte.

Fica fácil assim entender a situação trágica do gênero na Mata Atlântica: como se não bastassem a destruição do habitat - com queda da umidade e desidratação de ovos - além da politica atávica do abate, estes ovos tem que sobreviver por até 3 meses num ambiente duro, sujeito a pisoteio (pacas e tatus), a alagamentos, insetos, lagartos e fungos, dentre outros riscos, um milagre.






Abaixo o artigo no Chicago Herpetological Journal, onde esta encubação recorde foi comunicada:

http://www.lachesisbrasil.com.br/download/BulChicagoHerpSoc_Vol44Num6pp85-86%282009%29.pdf