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sábado, 20 de agosto de 2011

Leitor do blog comenta e pergunta sobre os "Sete Picos"



A postagem sobre o Inficcionado tem sido a mais lida dos últimos 30 dias, para minha grande surpresa. Este é um blog sobre cobras e coisas da vida, e pela primeira vez, as coisas da vida atraíram mais atenção que as cobras em sí. Mal postei hoje pela manhã o relato sobre o Pico do Canjerana, e já recebi um retorno interessante do Haroldo, que conhece o Caraça, e que comento a seguir.

Caro Haroldo, a subida destes picos não é excursão de CVC. Meus filhos sempre tem coleguinhas em suas atividades, mas nestas escaladas estes amiguinhos não são cogitados, pois há riscos concretos aos quais não posso expor filhos de terceiros. A beleza do que encontramos e vivenciamos gera leveza aos posts sobre os picos, mas não tenha ilusões, teve lágrima tanto no Inficcionado quanto no Canjerana.

A região dos Sete Picos na Serra do Espinhaço Caracence é território de cascavel, de onça, de possível queda livre de centenas de metros, de hipotermia, fraturas, torções, insolação, ataque de abelhas, colapso psicológico etc. Há vários casos de triste lembrança que prefiro não comentar. É OBRIGAÇÃO de quem planeja um incursão destas, PROTEGER sua família ou grupo, com TODOS os recursos possíveis para que a aventura seja realmente um passeio inesquecível, como foi este meu Dia dos Pais de 14/08/2011, dia da escalada do Canjerana: ninguém sequer se lembrou, literalmente, do ritual comercial jeca dos presentes e shoppings, dos votos disso e daquilo, do abraço forçado. Meu presente inesquecível foi ver raça e superação nos dois filhos pequenos, de de 8 e 11 anos, num programa tão duro.

Grande parte desta proteção a que me refiro vem do estudo da meteorologia local. Até fim de Outubro pretendemos fazer outros dois picos. De novembro em diante, pausa. Época de chuva, raio, escorregões de consequência imprevisível. Há um site hol andes que fornece dados precisos sobre o sistema barométrico sobre o Caraça, mas acima de qualquer ciência está a sabedoria de gente como João Júlio e Neneco. Se eles falam que a época tal não é boa, esqueça o programa. Se sentirem alguém do grupo como não apto (fisicamente) ao programa, adie ou mude a rota.

João Júlio é o Guia mais antigo no Caraça, com 43 anos de experiencia, Neneco vem logo na rabeira. São irmãos de fé e oficio. São amigos. Estão sempre se checando no rádio durante as incursões. Um é capaz de largar tudo para subir um penhasco levando uma bota nova para membro da equipe do outro. E sem esperar dinheiro por isso. Em caso de acidente grave então, mobilizam-se como feras, não largando da vitima e protegendo-a da desidratação e hipotermia, até que um helicóptero ou Bombeiros façam o resgate.

E assim pergunto-lhe caro Haroldo, no caso de uma perna quebrada, ou de uma picada de cascavel, com problemas de comunicação por celular ou radio (muito comum nas montanhas) você estaria apto a remover aquele do seu grupo que em tese estaria sob sua proteção ? Eu me considero experiente nas coisas da mata, da montanha e do mar, poderia remover sim qualquer um da minha família na base da força física, mas se fosse eu o acidentado, estaríamos ferrados. Não escalarei sem João Julio ou Neneco, e ponto final. Não só porque esta é a LEI naquela propriedade particular, mas porque fui convencido, na pratica, que meu ego-de-merda poderia complicar a minha vida, e pior, a de terceiros, caso a Lei de Murphy entre em ação.

Avalie se não há em voce, como havia em mim, um certo orgulho e também preconceito contra a figura do Guia. Orgulho naquele sentido de que "sou capaz de fazer sozinho sem babá". E preconceito por achar que Guia é sempre aquele sujeito insuportável, verborrágico, sem noção, que tira a intimidade e atrapalha na privacidade.

O grande segredo da estratégia do 'Sete Picos' com minha família, um grupo de força física limitada, é evitar correria. Um grupo forte pode sair 3-4 hs da madrugada, subir o Inficcionado e estar de volta ao escurecer. Não é nosso caso. Além de correria já ser o que vivenciamos na cidade, as limitações naturais do grupo exigem o pernoite. Na noite no Inficcionado nem ví João Julio, dormiu na caverninha, onde Bibo e Luca se encontram abaixo:






Na noite do Canjerana ficamos trocando idéias até as 20 hs e depois cada um foi para sua toca. Tenho um apito muito forte que aciono se houver um grande problema em curso, e temos os rádios, nem sempre confiáveis. Não há embolação, interferência na experiencia familiar, nos desejados silêncios. Tanto João Julio quanto Neneco tem classe e percepção. E assim, o preconceito do Guia inconveniente está eliminado da minha cabeça. João tornou-se um amigo e uma fonte inesgotável de sabedoria de campo, que anseio para escutar de novo.

RESUMINDO Haroldo, os riscos calculados aos quais exponho minha família sozinho na região do Caraça, resumem-se aos passeios noturnos (vários), que ninguém faz, diga-se de passagem. A suçuarana foi recente e lindamente fotografada nos Campos de Fora. Em função das onças, o maior conhecedor da Reserva e maior Naturalista em atividade do Caraça, Padre. Lauro Palú, não anda mais sozinho de dia, nem nas proximidades do Santuário. Já vi cascavel e jararacas nas trilhas, já estive muito perto dos lobos, sei o que estou fazendo nessas incursões noturnas e me garanto, sozinho ou em família, mas 'Sete Picos sozinho', não.

Confira:  http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/01/caminhadas-noturnas-suzuki-e-o-curral.html




Luquinha e Bibo com Bothrops neuwiied, no Tanque, Caraça. Abaixo, duas grandes cascavéis cruzando no segundo plateau do Inficcionado, num registro do amigo Leonardo.








Concluo com dois telefones que podem salvar sua vida: JOÃO JULIO celular 031 96798965 e casa 031 32321889, NENECO celular 031 99699607. Não importa seu talento, pensando no grupo, antecipe-se (com aliados) à cascata de problemas que podem facilmente nos sobrepujar.


LEIA TAMBÉM:


http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/11/os-sete-picos-do-caraca.html





Pico do Canjerana, Brasil



Descemos do cume junto com o por do Sol. Chegamos ao acampamento ao nascer da Lua.




A noite cai rapido no Canjerana


O planejamento baseou-se na meteorologia. Neste mesmo pico o Guia Neneco resgatou um grupo inteiro em hipotermia, pegos de surpresa por uma tempestade elétrica, sem material para pernoite e abrigo.

Abaixo, à título de advertência, registros do próprio Neneco espaçados por poucos minutos, ilustrando a dinâmica dos ventos no Canjerana.










Raio é tudo o que não se quer por perto nos Picos. Cicatrizes de impactos diretos estão lá no cume para nos lembrar deles.


Rocha bruta estilhaçada como isopor sobre area de vegetação intacta. Dispersão centrifuga de forças, maior profundidade no centro da area de dispersão de fragmentos: raio


Em Agosto, mês de vento mas historicamente não tão frio em Minas Gerais, observamos a temperatura cair de 20° C às 16 hs, para 10°C às 18 hs, e às 20 hs, quando ainda não havia vento e entrei na barraca, liamos 4°C.

O vento entrou forte e gelado, a uns 30 km por hora, às 4 da manhã. Dentro da barraca, só paz. Imagem ruim abaixo, mas que com som alto aí no seu computador, ilustra bem os elementos em ação no Canjerana...


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Na manhã fria da escalada, para os meninos, a unica preocupação: comida no papinho e pé no caminho



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O Pico do Canjerana com seus 1.890 mts, foi o segundo dos 'Sete Picos' que faremos sob a orientação do Guia João Júlio. São 13 km até o cume, 4 dos quais em trabalho vertical.

Optamos por abordagem diferente daquela do Inficcionado. Montar acampamento e sair para ao cume com Sol mais baixo e sem peso nas costas, poupando os meninos. Doeu, mas deu certo.





























Acima meus heróis após uma puxada de  quase 7 km, em terreno acidentado. Este é um ponto de abastecimento de água e descanso para a dura etapa seguinte. Observe o Canjerana ao fundo. À esquerda do Luquinha minha North Face com mais de 30 Kg de equipamento, nossa garantia. Sou o sherpa do grupo.

Do ponto da foto acima, onde chegamos seguindo rumo Sul-Norte à partir do Santuário, quebra-se para leste com a visão abaixo, rumo à base do pico...



Logo à entrada do território, um cartão de visitas da suçuarana...



















Cocô de onça:  maior volume e diametro de tubo intestinal em relação a lôbo-guará por exemplo. Muito osso misturado. Achamos até dentes de um carnivoro médio, raposa talvez, nesta amostra especifica



Acampamento montado e noite segura garantida na base, fizemos ao cume. A oeste a área preservada do parque, só beleza e inspiração. Ao leste a ação das mineradoras. Meus filhos não são hipócritas, sabem que nosso carro, geladeira e fogão vem desta atividade, por outro lado, sabem também que é necessário colocar freio e parâmetros nessa gente, que foi recentemente impedida pelo Ministério Público de minerar DENTRO da RPPN do Caraça.






Num determinado momento da escalada Luquinha perguntou "porque é mesmo que estamos fazendo os 'Sete Picos', papai ?". Não soube responder na hora, mas secretamente intuo que é só para estarmos numa barraquinha, em lugares e circunstancias em que a vida parece valer mais a pena.




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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Cuidado parental em Lachesis




Herpetologista mirim Vinicius pergunta: "Mas como ela pode chocar ovos se os repteis tem a mesma temperatura do ambiente ?"

O termo chocar, como fazem as galinhas, não é adequado ao caso da surucucu. A fêmea coloca seus ovos e fica sobre eles sem possibilidade de mudar a temperatura ambiente (termorregulação), mas com alguma possibilidade de atuar na umidade sobre os ovos (higrorregulação), formando uma cúpula que retém em parte a dispersão de evaporação natural do solo. Vou checar a opinião de dois especialistas, Drs. Somma e Harry Greene, e retorno à sua pergunta.

Quando você vê uma Lachesis sobre os ovos é impossível não associar ao ato de chocar, você tem razão. O que ocorre para mim, é que ela esta fisicamente protegendo ovos do pisoteio do destrambelhado tatu ou da arisca paca, ou de algum teiú faminto. A surucucu, para fugir de alagamentos e dos perigos da Mata Tropical, bota seus ovos no final destes tuneis escuros (inseto não voa para a escuridão), e convive com seus proprietários originais (paca e tatu). Se os ovos forem pisados e girados em seu eixo pelos donos da casa, uma bolha de ar interna fará com que o embrião seja perdido, como se descolássemos uma placenta do útero dos mamíferos. Creio ser este o principal motivo, proteção mecânica, de Lachesis não desgrudar dos ovos.

Mando-lhe abaixo uma foto raríssima, do amigo Earl Turner, que ilustra bem como esta proteção sobre os ovos ocorre, e que dá sim esta sua sensação da cobra esta 'chocando'. O animal da foto é uma Lachesis stenophrys, da America Central. Com a surucucu da Mata Atlantica, Lachesis muta rhombeata, por 03 vezes distintas, flagrei macho e fêmea guardando os ovos, e não só a fêmea.






                                Dr. Somma responde alguns dias depois....


Caro Vinicius, Dr. Somma me respondeu dizendo que não há uma evidencia direta de que ocorra alteração dos níveis de umidade pela presença física do animal genitor junto aos ovos. O cuidado dos pais com ovos e prole em repteis é alvo de seus estudos, e envio-lhe  um deles, verdadeiramente espetacular, em especial nas referencias a autores pioneiros....









E Dr. Harry Greene nos responde alguns dias depois.....


Caro Vinicius, Dr. Harry Greene é um dos maiores na herpetologia mundial, e me responde com a classe e a autoridade de sempre. Ele acha que a 'agregação' (ficar juntos) retarda a perda de liquido nos recém nascidos, e portanto, traria algum nível de higrorregulação num dado grupo, superior à de um individuo sozinho. Mas este cuidado dos pais com filhotes em Viperidae tem complexidade muito maior que esta de manter umidade. Tudo indica que há comportamentos transmitidos, por incrível que isso pareça, e a necessidade de estudos sobre o tema é enorme. Abaixo o resumo de um trabalho de Dr. Green sobre o tema:



PARENTAL BEHAVlOR IN VIPERS
(HARRY GREENE E COLS.)



"Field studies, laboratory experiments and phylogenic analyses show that parental behavior by vipers is more interesting than previously realized. Telemetered Crotalus remain with eggs during incubation, those of 19 species in four genera remain with their young for several days after birth. And thus pits, defensive caudal sound production, and attendance of neonatcs arc hisrorically correlated. Alternatively, parental behavior appeared earlier in the evolution of snakes or even anguimorphs and later was elaborated or lost in many lineages. Pitvipers probably protect their eggs and/or offspring from predators, and aggregation might enhance thermoregulation and retard water loss by neonates. Tongue-flicking among littennates and liiothers might facilitate chemically-medialed social mechanisms. Physiological control mechanisms. Ecological consequences, variable timing of neonatal ecdysis and individual, population, and taxononomic variation in parental behavior by snakes warrant further studies"





Bom Vinicius, vimos que Somma e Greene tem visões diferentes. É tema com questões abertas, e mais duvidas que certezas, mesmo por parte dos REALMENTE grandes na herpetologia mundial. Continue pensando, e ajude-nos a compreender um tema dificil como este.

Meu artigo favorito em reprodução de Lachesis: uma homenagem a Boyer e equipe, Dallas Zoo



Todos os que reproduzem Lachesis de forma consistente no planeta, um clube de talvez cinco membros, tiveram um dia que beber da fonte da Herpetologia do Dallas Zoo.

Fica aqui a homenagem, a gratidão e a admiração pelo esforço pioneiro daquela instituição, e à Ruston Hartdegen, atual Curador para Repteis, meu obrigado pelos originais e pelo apoio de sempre ao Núcleo Serra Grande.

Com vocês meu artigo favorito no tema reprodução de Lachesis:
















































































































Acidente laquético complicado: pouco soro, e tarde demais. E fica a advertencia: acidente em trilha larga, bote a mais de 1 metro de distancia, a nivel de joelho












































































































































"Como evitar o acidente laquetico ?", desta vez pergunta da Espanha

Sr. Rodrigo Souza,

Temos uma casa na floresta amazônica, no Km 36 da margem esquerda do rio Manacapuru, a uns 100 Km de Manaus.

Recentemente foram vistas em repetidas oportunidades surucucú pico de jaca nos arredores da casa.

Esta casa é uma base na qual pretendemos desenvolver atividades de turismo sustentável, fotografia, etc.

Temos uma plantação de cupuaçu (Theobroma sp) e castanha do Pará (Bertholetia excelsa) que pretendemos utilizar para manter a estrutura, ja que nosso fluxo de visitantes é bem baixo.

No mes de setembro vou lá ( moro na Espanha) com uma pequena equipe de TV para gravar um programa de aventura e cozinha amazônica e estou inquieto com a informação da presença das Lachesis na área.

Gostaria de solicitar  alguma informação de como atuar no caso ocorra algum acidente, a casa está a 2 horas da cidade de Manacapuru ( que não sei se tem soro para este tipo de acidente) e a 3 1/2 horas de Manaus). Imagino que existe algum protocolo de atuação e gostaria, se for possível, pedir indicações para conseguir os mais acertados a este respeito.

Muito obrigado.

Atenciosamente,


Daniel G*



Caro Daniel, toda a Amazonia é territorio de Lachesis, não há garantia de 'como evitar'. Aqui um PDF bem comlpleto para que compreenda o que fazer para minimizar as chances,  e como proceder caso o acidente ocorra: http://www.lachesisbrasil.com.br/download/rmna.doc.pdf


Ou se preferir, no link a seguir uma versão resumida deste texto, em inglês: http://www.lachesisbrasil.com.br/download/BulChicagoHerpSoc_Vol42Num7pp105-115%282007%29.pdf


O mais importante é a possibilidade de deslocamento rápido para Manacapuru e Manaus. Antecipe as ações a serem tomadas, tenha tudo em mente, desde a garantia de bons motores de popa (e gasolina suficiente) com pilotos locais, até contato prévio com o hospital municipal, no seu caso de Manacapurú, para avaliar se vale a pena parar lá ou seguir para Manaus.

Dicas básicas, sempre negligenciadas: evitar acumulo de lixo ou estoque de alimentos que atraiam ratos para perto da casa; ter aves ornamentais como as 'galinhas d'angola' ou 'cocá' criadas nos arredores da casa; ter trilhas sempre largas (1 mt) para deslocamentos; evitar a mata à noite; olhar bem o que pega no chão, jamais introduzir mão em buracos de tatu, 
manter os arredores da casa ou acampamento iluminados, e se avistar uma Lachesis - um animal pacifico - não tentar matá-la ou capturá-la, pois as reações podem surpreender. Puro bom senso.

Tirando soro nenhum, a pior combinação possivel em caso de acidente é pouco soro, administrado tardiamente. O cenario ideal são de 15 a 20 ampolas disponiveis na primeira hora da picada. Segue no link um relato que envolveu a combinação de pouco soro e administração tardia, e que e resultou em 3 meses de hospital, com amputação da perna no quadril (desarticulação). Outro caso onde não houve antecipação, não contavam com a possibilidade deste acidente ocorrer:


http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/08/sobre-combinacao-de-pouco-soro-e.html


ABAIXO UM OUTRO ACIDENTE, OCORRIDO COM UMA DINAMARQUESA EM TRINIDAD EM 2007. Esta Sra. foi vitima de um acidente muito grave, que a colocou em hipotensão rapidamente, e foi salva pela competencia do resort que a encaminhou rapidamente ao socorro medico, onde recebeu soroterapia especifica em tempo hábil e quantidade suficiente. CONTUDO, veja no seu texto que ela nem sonhava que cobras como Lachesis pudessem ocorrer na região, E BEM PROXIMAS AO HOTEL.


EM COMUM AOS DOIS CASOS A POTENCIA DE LACHESIS: BOTES ALTOS E DESFERIDOS DE BOA DISTANCIA. BOM MESMO É OLHAR ONDE SE PISA, NÃO CONFIANDO NA PROTEÇÃO DE BOTAS ALTAS EM TERRITÓRIO DE LACHESIS. MUITAS VEZES PODE-SE OUVIR O ANIMAL - QUE REAGE Á VIBRAÇÃO DE SUA PISADA - ANTES MESMO DE VÊ-LA, CONHEÇA AQUI O SOM DA SURUCUCU, E FAÇA DO SILENCIO UM ALIADO NAS TRILHAS:

http://www.youtube.com/watch?v=-QXgxB81yAA


Fique abaixo com o relato de Helle Hansen, que nem sonhava ('didnt give it a thought') com a possibilidade do acidente. DE NOVO A QUESTÃO DA ANTECIPAÇÃO....










































































sábado, 6 de agosto de 2011

'Confinamento ético'



Anônimo pergunta o que entendo por 'confinamento ético'.

Respondo que no mundo ideal, a própria palavra 'confinamento' de fauna já seria anti-ética, contudo, numa área com supressão de 93% de habitat, ao se oferecer aos indivíduos em programa de reprodução em cativeiro o método NSG - meu conceito pessoal de confinamento ético - chegou-se a resultados (nascimentos) nunca alcançados no Brasil, o que indica, no mínimo, que os animais custodiados sentem-se bem onde estão.






Abaixo o 'tuppeware' da herpetologia moderna,  só usamos confinamento em espaço tão restrito por no máximo 48 horas, para soltar 'mudas encroadas' (trocas de pele aderidas). Repare na bromélia no interior da caixa, parcialmente submersa: esta planta apresenta aqui duas funções, servir de apoio ao animal, por questão de conforto, e também atua como uma especie de lamina, arrancando pele de mudas incompletas (agora soltas, porque úmidas) enquanto o animal se desloca pela caixa.



Beware of dry sheds. NSG techniques, with results after 6 hours of imersion. Bromeliad as head rest



Confinamento ético seria então tentar criar a condição onde o cativo não sabe que está preso, ou não se ressente desta condição, algo mensurável:  se o animal não tem aquele focinho arranhado e ferido, é porque não está procurando rota de fuga, e sente-se bem onde está.

Abaixo dois animais em 40 metros quadrados de viveiro de tela, dentro da Mata Atlântica.

Confira: http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2013/02/ferias.html






Além dos focinhos ilesos, ritmo alimentar forte, tônus, baixa irritabilidade e acasalamentos, beleza também atesta como o animal se sente. Melhor mostrar do que falar....






Warrel de novo, bom lembrar: em 50% das picadas não há inoculação



Antes de creditarmos qualquer beneficio a esse ou aquele tratamento empÍrico, é sempre bom ter Warrell em mente, que comentando picadas de cobras venenosas em "Snakebites in five continents" afirma:

"FIFTY PER CENT OF ALL BITES ARE DRY BITES"



"50 % das picadas não tem inoculação".



Esse paciente acima chegou até a mim em Itacaré contando que ao introduzir uma vareta num buraco de tatú para forçar sua saida, foi surpreendido pela rapida investida de uma "Apaga-Fogo" vinda do fundo da toca, mal tendo tempo de recuar, e sendo atigido no polegar da mão direita, acima. Garroteou o dedo (veja marcas do garrote da base do dedo), bebeu 'sumo de graviola' e procurou o hospital. A ausencia de dôr local, sem outras avaliações, me fez concluir por retardar qualquer medida mais agressiva. Para conforto psicologico do paciente, muito abalado e certo da morte, foi ligado soro glicosado 5% em uma veia periferica e o mesmo permaneceu em observação sem intercorrencias por 24 hs, recebendo alta hospitalar findo este periodo, com dados vitais estaveis.


Mantenha distancia de buracos de tatú em territorio de Lachesis

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Os essenciais 10: Kuki Gallmann e David Warrel



Duas vidas dedicadas à ciência e à conservação da natureza. Nem sabia que eram amigos. Estudando ofidismo com Dr. David Warrel, recebi dele esta foto com Kuki:




Sobre Dr.Warrel, de Oxford, pouco a dizer: trata-se da maior autoridade em ofidismo no planeta. Conhece todos os envenenamentos causados por serpentes, publicou sobre todos os gêneros. Seu "Snakebites in five continents" é antológico, e demonstra com simplicidade uma vida de trabalho em campo, nos lugares mais esquecidos, ensinando, tratando e aliviando dor, encaminhando recursos técnicos e materiais aos mais necessitados.

Com humildade e paciência, troca correspondência comigo. O assunto de hoje foi a morte de Emanuelle Gallmann. Li o relato de Kuki dos momentos que se seguiram à picada que matou seu filho: não sangrava no local da inoculação, não sangrava no corte que fizeram a faca sobre a marca das presas para sugar o veneno. O menino entrou em estado de choque muito rápido, talvez em menos de 15 minutos. Avaliei que Emanuelle entrara na temida Coagulação Intravascular Disseminada, com sangue solido nas veias.

Dr.Warrel discorda. Amigo da família, tinha 'inside informations' que eu desconhecia por completo. Emanuelle já havia sido picado outras duas vezes por puff adders, em acidentes de baixa inoculação. Estava portanto 'sensibilizado', e assim segundo meu Professor, Emanuelle morreu tão rápido frente a uma ANAFILAXIA, uma reação alérgica com queda de pressão aterial e dificuldade respiratória gravíssimas.

Nas palavras de Dr.Warrel:

Dear Rodrigo,

...Thanks. I know a lot about the tragic case of Emanuelle Gallmann, as featured in “I dreamed of Africa” by Kuki Gallmann his mother who is a friend of mine (see attached). He died of anaphylaxis, resulting from hypersensitisation to Bitis arietans venom, resulting from previous bites by this species. There have been several other cases of such rapid anaphylactic deaths in habitual snake handlers including, perhaps, the recent death of Luke Yeomans in UK...

... Anaphylaxis is an over whelming ALLERGIC REACTION causing shock, urticarial skin eruption, asthma and swelling of the throat (angioedema). Apart from fall in blood pressure, these effects are quite different from envenoming. Anaphylaxis can be triggered by a tiny dose of venom in someone who is hypersensitised....


Outras brainstorms memoráveis com o Professor foram sobre a ilusão da 'dessensibilização' pré soroterapia preconizada inclusive por nosso Ministério da Saúde, e das enormes expectativas quase nunca correspondidas pelas fasciotomias:

http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/03/nao-existe-eficacia-na-medicacao-pre.html


Concluindo e voltando a Kuki, no momento da agonia de seu filho ela lhe dirigiu duas perguntas:

"Corto sua mão ?" "Corto seu braço ?"...

Sim, estamos falando de uma mãe checando (sem resposta) se seria o caso de amputar a seco o braço do filho, para salvar-lhe a vida. Eu não tenho dúvida de que ela garrotearia, e deceparia a facão o membro acometido. Isso mostra um pouco mais de que mulher estamos aqui chamando de Essencial.

LEIA TAMBÉM:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/08/em-memoria-de-emanuele-gallmann.html

http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/07/uma-mulher-sem-adjetivos.html






Em memória de Emanuele Gallmann



Em 07 de janeiro de 1966, nascia em Veneza Emanuelle Gallmann, um menino que se desenvolveria quieto, sério, solitário, sempre aparentando uma sabedoria maior que sua idade permitiria.

Apaixonado por animais, répteis em especial, aos seis anos de idade já havia acumulado um razoável conhecimento auto-didata em Zoologia. Ao mudar-se para a Africa (Quênia) em 1972, o primeiríssimo animal que avistou ao natural foi uma Naja nigricollis.

Em pouco tempo passou a ser figura conhecida no Departamento de Herpetologia do Museu de Nairóbi, em cuja coleção ainda há diversos tombamentos realizados por ele.

À partir de março de 1980, numa época e numa região em que dizia-se que 'a melhor cobra é cobra morta', passou a remover para sua coleção os exemplares avistados, num esforço conservacionista pioneiro.

Na vida pessoal, Emanuelle impressionava talvez mais até que na Herpetologia. Seu segundo pai, Paolo, certa feita escreveu que o menino 'tinha a capacidade peculiar de se dar com as pessoas sem representar'. Nativos o chamavam de 'Muenda', ou 'aquele que cuida dos outros'.




O acidente que o vitimou, rapidamente fatal em função de anafilaxia por exposição prévia (David Warrel, amigo da família, comunicação pessoal), ocorreu em 11 de abril de 1983 com uma Bitis arietans, a 'puff adder', cobra que causava na época 75% dos acidentes graves na Africa.

Emanuelle gostava de explicar aos incautos que muitas destas estrelas que vemos brilhando no céu não mais existem, senão na viagem da sua luz. Parece ser este seu caso especifico.


LEIA TAMBÉM:


http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/07/uma-mulher-sem-adjetivos.html

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2015/04/tres-anos-sem-luke.html

http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/08/os-essenciais-12-kuki-gallmann-e-david.html