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INDICE AO BLOG NSG E À BIBLIOTECA VIRTUAL LACHESISBRASIL BASEADO EM BUSCAS ESPECÍFICAS

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domingo, 29 de julho de 2012

"Você fala com cobra ?"



Melhor seria perguntar: "cobra fala ?"

A resposta é sim, e abordaremos aqui um pouco da linguagem corporal ("fala") em Lachesis.

Começo por onde o problema é certo (clique sobre a imagem): o animal abaixo é da Paraíba, e foi fotogrado pelo Wilianilson Pessoa, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

O que a cobra fala aqui é: "SAI FORA, AGORA, NEM UM MILIMETRO MAIS PERTO"


Batimentos de língua lentos, muito lentos, 30 ou menos por minuto, significam eminencia de bote. Com a língua, o animal está captando partículas no ar e levando-as ao órgão de Jacobson no céu da boca, uma via direta para o cérebro do animal, onde ocorrerá o processando dos odores. Juntamente com a fosseta loreal, sensível a variações de temperatura de até 0,04 °C, temos aqui dois equipamentos que permitem à surucucu caçar ratinhos, à noite, no solo alagado da Mata Atlântica, ou desfazer este duplo S em fração de segundos naquele que invade seu espaço de conforto. Quem é do mato sabe: 'surucucu não erra nem desperdiça bote'  


The Atlantic Bushmaster in Serra Grande, in ethical confinement. The animal is considered 'Vulnerable', by the International Union for  the Conservation of Nature, in Rio de Janeiro and Minas Gerais states it might be already extinct
O comportamento na foto inicial pode seguir-se desta demonstração acima, quando o animal, numa tentativa final (antes do bote) de afastar o perigo, aciona o 'efeito gular', que é inflar o papo com respiração ruidosa, como se dissesse: "DAQUI PARA FRENTE FECHOU O TEMPO"

Esta imagem pode vir a ser a sequencia das duas primeiras (foto minha, Itacaré, BA), só que com o animal já se levantado do solo, em 40, 60, 80 cm. É daqui que surgiu o mito popular que 'surucucu fica em pé na ponta do rabo'. É o pior cenário para quem encurralar este animal. Surucucu em Tupi Guarani significa 'aquela que dá botes sucessivos', o que de fato pode vir a ocorrer, se a fonte térmica mante-se além no perímetro de conforto do animal. Assim, o que a cobra fala aqui é: "VOU TE AFASTAR AGORA, CUSTE O QUE CUSTAR" (1,2, 3 botes em sequencia rápida).  



Na sequencia das 'falas' de Lachesis, uma que realmente chega aos ouvidos. Há uma escama adaptada na ponta da cauda de Lachesis, que quando vibrada contra o folhiço da Mata, emite o ruidoso alerta, em alto e bom tom: "Estou aqui, não me pise....".

 Daí as primeiras nomenclaturas de Lachesis... o Crotalus mutus de Linnaeus. Confira abaixo...



                                video



 Resta apenas agora aquele momento em que a cobra não está 'falando', mas 'pensando': "DEIXA EU FICAR QUIETA AQUI QUE QUEM SABE ESTE BICHO GRANDE NÃO ME VÊ... " É a imobilidade confiando na camuflagem, confira abaixo.


video


É assim portanto que um réptil, ao contrario dos humanos, expressa claramente seus sentimentos, e os movimentos por vir.




domingo, 22 de julho de 2012

A incrível historia da primeira Lachesis descrita para o Rio Grande do Norte, e de gente que faz sua própria lei ou, colocando a Herpetologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte com a faca e o queijo na mão....


10/08/2008: "Consegui umas Lachesis novas, Lachesis acrochorda a mais rara das Lachesis, e a primeira Lachesis muta que se tem noticia do RN, o animal foi coletado na cidade de Bahia Formosa no litoral sul do Rio Grande do Norte, bicho bem diferente cabeça negra sem nenhuma mancha parece uma melanocephala só que avermelhada como qualquer muta da Mata Atlântica


Localização de Baía Formosa

Local do maior remanescente de Mata Atlântica do estado, a Mata da Estrela com mais de 2000 hectares, e divisa com a Paraíba, onde Lachesis é descrita, Bahia Formosa é um porto natural, unica baia do Rio Grande do Norte, lugar encantador.

Baía Formosa, RN.jpg


O animal em questão é fruto do trafico ilegal de animais silvestres no Brasil.

O autor do texto que abre esta postagem é um advogado do Rio de Janeiro, um colecionador, autoridade informal reconhecido em alguns meios da Herpetologia acadêmica, e que me escreveu sob pseudônimo.

Em 31/05/2006 ele se apresenta assim: "... não sou da área não sou Biólogo, sou formado em Direito pela UFRJ e me dedico desde os 8 anos de idade a manutenção desses animais como hobbie, já obtive sucesso na reprodução de diversas Bothrops nativas do Brasil e agora estou tentando reproduzir Lachesis, possuo 4 animais saudáveis que se alimentam muito bem em cativeiro, como não tenho o espaço que o senhor possui para manter esses animais em um local que se assemelhe ao ambiente natural, acabei tendo que lançar mão da tecnologia que já é muito usada nos EUA, por herpetocultores, para manter com relativo sucesso tais indivíduos e os resultados estão vindo em minha criação amadorista in door. Sei que sou um criminoso"

É texto de quase duas laudas. Fiquei muito impressionado com a quantidade de 'inside information' desta pessoa, sobre bastidores e medalhões dos grandes institutos de produção de soro brasileiros. Fazendo cruzamento de dados que esta pessoa me passava, com dados que eu já tinha levantado com gente de dentro destes institutos, pude perceber que ele sabia o que estava falando: muita farsa na manutenção e reprodução de Lachesis, muita vaidade, e acima de tudo uma grande vontade de destruir nosso trabalho no Sul da Bahia.

Em 04/06/2006 o tal advogado escreve:

"Eu sei que o senhor não conhece esse submundo onde eu e outros colecionadores estamos mas a coisa é realmente como eu lhe disse, muitos Gringos  acham que podem chegar aqui e ir levando nossos animais, eu tenho larga experiência em coleta, e sei que as coisas não são fáceis..."

Submundo ou não, pude rapidamente perceber que não lidava com um amador nas questões de lida, sistematica, taxonomia. Para minha grande surpresa, a mais completa coleção de Bothrops do Brasil estava na mão de um criador clandestino, bem como inigualáveis resultados na reprodução em cativeiro daquele gênero.




Cópula de Bothrops venezuelensis, nascimentos de Phortidium, extinta na natureza no Equador. Imagens que provavam a competência que eu intuía no tal sujeito. Mas restava o enigma da reprodução de Lachesis em cativeiro, e do alto da sua experiencia reproduzindo tudo o que lhe caia em mãos, o tal advogado me lança um desafio construtivo, não acreditando - como ninguém acreditava - em meus métodos arcaicos:
"Eu sou um mero colecionador Dr. Rodrigo, um dos grandes mas não passo de
mero colecionador, tenho 5 Lachesis e essas 5 jamais irão salvar uma população,
mesmo reproduzindo todo ano, não há amplitude genética para isso, mas foi como eu 
lhe falei e até irei lançar um desafio a você: Você continua com seu método, 
eu seguirei com o meu, e vamos ver quem terá a primeira ninhada de Lachesis 
muta rhombeata, esse é um desafio saudável para nós 2, quem conseguir 
primeiro, publica um artigo com dados, fotos e etc.. em PDF e lança para o 
meio cientifico o primeiro caso realmente documentado de acasalamento, 
gestação, postura, incubação e nascimento de Lachesis muta rhombeata do 
mundo.

Tentar reproduzir é uma coisa Dr. Rodrigo, reproduzir verdadeiramente é 
outra, e você ainda não conseguiu reproduzir nada. Você vai chegar ao Topo quando 
reproduzir e documentar todos os estágios, passar para um PDF e lançar na 
cara da comunidade cientifica. Aí sim você vai humilhar TODA a elite de
Merda da Herpetologia desse país,criando como você cria, eles ainda se sentem por
cima e ainda tem a audácia em tentar tomar seus animais, por que você esta no mesmo
patamar deles, não reproduziu nada ainda.

O Desafio esta lançado, vamos ver quem reproduz isso primeiro, eu estou na 
desvantagem, tenho apenas 5 animais, mas acho que ganho mais essa, como 
também ganhei com Porthidium arcosae. A única diferença é que se eu ganho 
não tem valor algum, mas se você ganha, há um real valor e inestimável para 
a espécie. Você é o único que pode salvar uma população endêmica da nossa 
Mata Atlântica, e isso é um FATO INCONTESTÁVEL"
Em 01/03/2007 comunico que 'venci a aposta' com fotos de nascimentos de muitos
filhotes, e recebo a resposta:
"Congratulações e mais congratulações por esses filhotes, agora sim, prepare 
uma bela descrição que eu faço isso rodar o mundo, para que todos saibam, 
para que todos os herpetólogos respeitados conheçam e respeitem o seu 
CRIATÓRIO por que agora sim vocês tem um criatório, antes desses filhotes 
você tinha apenas um aglomerado de Lachesis e nada alem disso, você 
conseguiu posturas e mais ... conseguiu eclodir os ovos, agora é a recria, o 
que não é difícil, ainda mais pela qualidade desse filhote que aparece bem 
na fotografia, o animal esta em ótimo estado físico com certeza irá vingar, 
mas essa já é outra etapa, a inicial você já ultrapassou, conseguiu uma 
postura, e nascimento de filhotes com ótima qualidade, é isso que você 
precisa esfregar na cara do ****, é isso que você precisa esfregar na cara 
dos biólogos por ai que querem detonar com seu CRIATORIO, papo furado, 
brigas via email, provocações e acusações mesmo que verídicas não estavam 
contribuindo muito. Mais uma vez parabéns". Confira as imagens abaixo....

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/01/carl-gustav-jung-e-o-clube-da-surucucu.html
Pasmo, continuava recebendo correspondências que revelavam um absoluto destemor, pela vida de clandestino e pela lida com animais especialmente difíceis. Quando apelei para a atenção à segurança, recebi a resposta abaixo das imagens....





"Não há como adquirir soro ilegalmente, como adquiro qualquer espécie que seja, o soro é complexo, não sai dos países sem autorização lá e cá, então conto com as medidas de segurança absoluta, não dou oportunidade para que os acidentes ocorram. Najas são complexas realmente, no momento tenho 13 animais de 6 espécies diferentes, e tenho o maior cuidado com todas elas, as cuspideiras são complexas no manejo, mas as do Norte do Africa são as mais rapidas. Aqui onde estou tenho só 3 fotos, e vou lhe mandar ... uma de Naja kaouthia albina femea, ainda bem jovem, outra de uma jovem fêmea Naja legionis que ficará totalmente negra quando adulta e a ultima uma Cerastes cerastes, bichinho dos mais interessantes. Hoje minha coleção é a maior da America do sul e central, com maior numero de gêneros e espécies peçonhentas ... isso claro, depois de 2 importações que somaram 108 animais importados, fora as espécies brasileiras e algumas da exóticas que eu ja mantinha. Tenho um esquema infalivel para importar o que quer que seja, é um pouco caro mais vale a pena. O meu esquema é 100% seguro mas também 100% ilegal ... consegui stenophrys e o mesmo cara me garante um casal de melanocephala, mas até agora, não achou filhotes a venda para comprar por la e me mandar, alem disso, com certeza ele esta procurando um preço bom"
Mas de repente o cara sumiu de vez, espero sinceramente que os bichinhos acima nada tenham a ver com isso. E é essa a incrível historia da primeira Lachesis do Rio Grande do Norte, e de um sujeito sem medo, sem limites, mas para mim - bandido ou não - de grande credibilidade se o tema é herpetologia.
O Reptile Database já sinaliza para a ampliação da distribuição geográfica da surucucu da Mata Atlântica

http://reptile-database.reptarium.cz/species?genus=Lachesis&species=muta


sexta-feira, 20 de julho de 2012

Athayde, Diego e a Floresta de Chocolate na Bahia: sobre a ultima chance, das ultimas surucucus da Mata Atlântica


Para quem não sabe, o cacau cultivado de forma orgânica produz o melhor chocolate, sendo que o cultivo orgânico é basicamente manter o cacaueiro em ambiente de alta biodiversidade, a Mata Atlântica preservada, território natural de Lachesis.


A surucucu está acabando por falta de habitat, veja fotos de satélite da região Ilhéus-Itabuna - http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2012/07/vanzolini-revisitado.html - e o boom do chocolate orgânico exige preservação de biodiversidade em níveis máximos. Atente aqui que não nos referimos ao chocolate tradicional, mas ao chamado chocolate gourmet, feito à partir dos grãos e com certificação ambiental, algo novo no Brasil (2010). O rato paca (foto) - abundante na Mata Atlântica preservada, aquela do cacau orgânico, que não usa 'defensivos agrícolas' - é um animal que se reproduz muito e que adora a amêndoa do cacau. Se não controlado, inviabiliza o negocio. A surucucu, maior cobra venenosa das Américas e segunda do mundo, só chega a esse porte comendo muito rato, e é o principal agente deste controle populacional de roedores no cacaual. Assim, pode-se dizer que preservação de Lachesis é também investimento, e neste contexto, o da preservação de habitat como necessidade básica para a produção de chocolates de excepcional qualidade, reside para mim sua ultima chance antes da extinção na natureza. 

Que eu saiba, foi Dener Giovanini do RENCTAS quem primeiro atribuiu às surucucus  o status de "Guardiãs do Chocolate" http://www.youtube.com/watch?v=YTitbs5Gw4Y&feature=plcp

Desde sempre gente como Eduardo Athayde apontava para o caminho da conservação através dos negócios. Confira:

Date: Sat, 19 Nov 2011 09:02:50 -0200
Subject: Associação Comercial da Bahia - ACB firma convênio com a Califórnia para promover a BTS e o Chocolate da Bahia
From: rotarybts@gmail.com
To: RotaryBTS@googlegroups.com

Associação Comercial da Bahia - ACB firma convênio com a Califórnia

Em concorrido evento na Federação das Indústrias do Estado da Bahia - FIEB, o presidente da Associação Comercial da Bahia, Marcos de Meirelles Fonseca e Sean Randolph, presidente Instituto de Desenvolvimento Econômico da Califórnia, firmaram convênio de cooperação entre as duas instituições.

Para o presidente da ACB “esta é mais uma iniciativa da Associação, preocupada com o desenvolvimento sustentável e apoiadora de projetos que consolidem a região da Baía de Todos os Santos no cenário turístico mundial”. Sean Randolph, que também é presidente da Agência de Desenvolvimento da Baía de São Francisco, veio à Bahia a convite da ACB, do Governo do Estado e do Rotary Baia de Todos os Santos, para estreitar os laços entre os estados e preparar a visita de investidores californianos à Bahia.

Uma das áreas em foco é a Baía de Todos os Santos - BTS, que, a partir do acordo firmado, receberá a apoio da Agência da Baía de São Francisco para a criação da Agência de Gestão da BTS. "Empresários californianos têm interesse em investir no desenvolvimento turístico da área, desde que encontrem as mesmas regras de preservação que têm em São Francisco, e garantem o desenvolvimento econômico local", afirmou o advogado Geoffrey Gibbs, membro da comitiva californiana que visitou a Bahia.

Floresta de Chocolate

A outra área de interesse dos californianos para desenvolvimento turístico é a região cacaueira da Mata Atlântica - batizada no relatório do WWI-Worldwatch Institute como Floresta de Chocolate da Bahia - único lugar do mundo onde o cacau é produzido em alta biodiversidade. Interessados na BTS, nas energias eólica e solar, no chocolate, na biodiversidade, no turismo e no acolhimento do povo da Bahia, organizam visita de investidores no início de 2012.

Os californianos viram o documentário “Saga do Cacau”, exibido pela Rede Globo Bahia e produzido com apoio do WWI-Worldwatch Institute, filmado em países europeus, mostrando chocolateiros italianos e suíços importando cacau da Bahia e produzindo chocolate de alta qualidade. Se é possível fazer chocolate de alta qualidade na Europa com o cacau da Bahia, é possível fazer o mesmo nas biodiversas “Fazendas de Chocolate” daqui, se forem preparadas para receber bem os turistas com banhos, cremes e produção personalizada de chocolate. Este é um exemplo de "Economia Verde", foco da Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável da ONU [Rio+20] que trará presidentes de corporações, investidores e a mídia internacional para o Brasil em junho de 2012.

O diretor da ACB, Eduardo Athayde, que recepcionou os californianos, mostrou que o Chocolate da Bahia, produzido no ambiente biodiverso da Mata Atlântica, batizado de Floresta de Chocolate, já está sendo degustado na Califórnia. Amêndoas secas de cacau fino da Mata Atlântica, com terroir (sabor característico do local da roça que está plantado) especificado, saídas das barcaças vão direto para este seleto grupo formador de opinião no formato de “chocolate-nibs” ou “cocoa-granola” ao preço de 20,62 dólares por 12 onças (34 gramas). 97% do conteúdo dessas embalagens que exibem mensagens sobre o poder nutritivo do cacau, são amêndoa de cacau in natura. Cada quilo de amêndoa de cacau in natura é vendido lá a 60 dólares, o que dá à saca de cacau fino o valor de 3.600 dólares, cerca de 6.400 reais.

Exemplo de cultivo orgânico, ilustrando a busca pela excelência na produção do chocolate, é a parceria AMMA/DAGOBA, do Diego Badaró.

Conheci o sujeito a alguns anos, no Villas de São José do amigo comum, Clebinho. Fala mansa, foco, know-how, me chamaram a atenção. Fora o fato de ter passado dias com uma surucucu no carro, à minha procura. O bicho estava em sua linha de produção, não poderia ser abatido, nem permanecer onde estava. Somos poetas práticos, e esse é sem duvida o caminho:

http://www.youtube.com/watch?v=KNI4ZlLSc5g&feature=related


LEIA TAMBÉM: http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2012/08/nana-lachesis-e-o-chocolate.html

domingo, 15 de julho de 2012

Vanzolini revisitado







A tentativa de ilustrar objetivamente o conceito de 'pressão antrópica' sobre Lachesis, levou-me ao site 'Acorda minha gente'. Com sua licença, Paulo Paiva.

Nas fotografias aéreas abaixo, vegetação ao norte e oeste de Ilhéus e Itabuna. Como já relatado, o gênero é dependente da Mata Atlântica preservada e seu alto gradiente de umidade relativa do ar, fora do qual ovos se ressecam, e não há nascimentos.

Mais sobre os ovos de Lachesis: http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/07/sobre-os-ovos.html 

O bioma fragmentado em 'ilhas verdes' promove consanguinidade. A quebra da permuta genética apropriada é inevitável caminho de extinção das espécies.

Aprofundando o declínio populacional, a invasão do bioma promove o explosivo encontro homem x surucucu, ocasião em que o abate é tido como a única alternativa viável.

Confira: http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/02/eco-biologia-do-generobaseada-no.html

Isto posto, voltemos a Vanzolini: "A meu ver é urgente proteger essa especie porque é um predador de grande porte confinado a uma área restrita (a Mata Atlântica, do Rio para o Norte) e sob duríssima pressão antrópica. É um bicho precioso e emblemático"


A colcha de retalhos fala por si.


Da aproximação a Ilhéus, abaixo....






Passando pelas cabrucas de Ibicuí, abaixo....






a partir de Floresta Azul, abaixo, não há mais Mata Atlântica, somente cenários de extinção e baixa produtividade ...












Aproximação de Buerarema, Ibicaraí e Itabuna, abaixo. 30.000 hectares de solo degradado, ausência de mata ciliar no Rio Cachoeira.....






O QUE ESPERAR DO FUTURO DE LACHESIS NA NATUREZA, NUM HORIZONTE DE 50 ANOS ?

E QUAL O FUTURO DOS 7% RESIDUAIS DA PRÓPRIA MATA ATLÂNTICA ?


Mais sobre o Professor:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/01/os-essenciais-7-paulo-emilio-vanzolini.html







domingo, 8 de julho de 2012

Sem prevenir, não há como remediar


Outro leitor pergunta sobre a questão da vermifugação rotineira, ilustrada aqui:
http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/06/pergunta-preto-resposta-azul.html

É isso mesmo: estes vermes, os porocephalus, são bem grandes, só removíveis com endoscopia, e se você vermifuga um animal pesadamente parasitado, ele morre por pneumonite - reação de corpo estranho no trato respiratório, onde as carcaças dos vermes entram em autólise - ou asfixia mecânica, quando estas 'rolhas moveis' - vide porocephalus na traquéia na foto maior - tentam abandonar o animal em massa, fugindo do vermifugo, como ratos abandonando o navio que afunda.

Daí a importância da rotina, da vermifugação preventiva, para que não ocorram tragedias como esta abaixo compartilhada pelo amigo e herpetólogo Guilherme Galassi: animal (jararacuçu) pesadamente parasitado, indo a óbito pós vermifugação...






Concluo com uma homenagem ao Guilherme Galassi, ilustrando na foto abaixo sua competência em manejo, seu amor pelos répteis, e seu permanente esforço na educação ambiental. Essa é sem duvida a mais linda, mais bem cuidada Urutu (Bothrops alternatus) que vi na minha vida, e foram muitas...





Dores do parto


Leitor indaga sobre possibilidade de problemas durante postura de ovos, e minha resposta é sim, pode ocorrer de tudo nesta etapa critica - como em todo parto - inclusive morte da fêmea. Em hipótese alguma o animal deve ser manipulado quando em postura, a não ser para medidas drásticas como cesáreas ou esvaziamento do conteúdo de um ovo especifico, como nos casos abaixo, do NSG.







No mundo ideal, casos como este são tratados com radiologia e exames de sangue, à priori. Só enfrentei este problema em período de postura, mas massas podem surgir do nada, em constipações e canceres por exemplo. Se é período pre postural, o sinal amarelo se acende quando vemos uma fêmea inquieta, em movimentação excessiva como que massageando a área da obstrução contra acidentes do relevo do viveiro. Imersão em banho morno da área afetada, acompanhada de gentil tentativa de alinhamento do ovo 'encroado' (essa manobra chama-se 'versão externa'), pode provocar imediata resolução do problema. Em um dos nossos casos, KY gel introduzido sob pressão na cloaca, via sonda uretral humana conectada a seringa de 20 cc, resolveu o problema com rapida eliminação de ovo atrésico e deformado. Em outra oportunidade, com gelco 18 em seringa de 60 cc aspiramos conteúdo de outro ovo atrésico, e a postura seguiu sem intercorrências.

Mas pode ser pior. Nas radiografias abaixo (cortesia Guilherme Galassi), um agrupamento de ovos atrésicos compactou-se numa Bothrops jararacussu, aderindo-se a estruturas adjacentes (coluna inclusive), levando a obstrução intestinal sem possibilidade de correção cirúrgica, e óbito do animal.





Há um excelente livro que ensina como lidar com estes sérios problemas: "Ball phyton book" de Dave and Tracy Baker, disponível on line. É um livro sobre pitons, mas o approach a problemas como este é universal.


sábado, 7 de julho de 2012

Surucucu, cachaça e maconha



No post anterior falo de uma exigência de Dr. Alfredo Palau, Ibama / RAN quando da vistoria de 2005: um gigantesco muro cercando a área das cobras no Núcleo Serra Grande, com o objetivo de 1) servir como barreira para fugas de Lachesis, para 2) evitar tentativas de entrada de predadores no biotério, para 3) evitar fuga de ratos de laboratório para a Mata Atlântica, para 4) proteger as cobras contra fogo vindo do vizinho, e 5) para impedir vandalismo.

Recebi uma mensagem na qual se fala de "arbitrariedade" nesta exigência milionária, e se ela não seria uma maneira indireta de me forçar a desistir. Sinceramente não pensei em questionar Dr. Alfredo Palau, entendi sua preocupação e procurei - com sucesso - mobilizar forças para fazer acontecer.

Mas confesso que pensei na hora: "vandalismo ? esse povo é apavorado com surucucu, quem poderia se meter com elas aqui dentro do NSG ? "

Mas não deu outra. 2006, obras em curso, muro não concluído. Num domingo, cinco homens resolvem fazer uma festinha entre os viveiros. Muita cachaça, maconha e covardia. Achavam que não havia vigilância, que não havia gente olhando naqueles confins de mata.

O olheiro sentiu medo e não interviu. Disse que os sujeitos estavam 'brabos', e assim observou de longe a ação.

Na segunda feira, encontrei um grande macho já agonizando com quatro perfurações pelo corpo, e recebi o relato detalhado da festinha. Ao lado de um viveiro uma vara tipo taco de sinuca - veja-a na ultimas das fotos abaixo - feita para transfixar de longe, através da tela, um animal indefeso.

Com contatos e algum serviço de inteligencia, em 48 hs caçamos e prendemos os cinco.

Fotos não falam, mas as expressões destas pessoas, no momento em que lhes esfrego a cobra morta na cara, mostram como a chapa estava quente.

Um vizinho do NSG, senhor idoso, agricultor pobre, mais tarde diria: 'É doutor, a noticia correu por aqui, pararam até de roubar meus cocos...'











quinta-feira, 5 de julho de 2012

"Quando tudo era ausência, esperei"



6:45 da manhã. Manobrava o carro para levar meu filho para a escola. Escutei o soluço. Luquinha chorava silenciosamente.

Tinha escutado a palavra 'divórcio' numa conversa entre Ana e eu, na noite anterior.

É que num oficio de maio de 2011, o Ibama, ou parte dele, sugeria à Policia Federal que além de fechar o criatório, eu deveria ser multado em hum milhão de reais, pelo crime de reproduzir Lachesis em cativeiro.

Antecipei-me à convocações, procurei a PF, prestei esclarecimentos, protocolei documentos.

Comprei sacos de farinha, lavei bem lavado, estava pronto para ensacar as surucucus e entregá-las à morte certa. Assim, fugiria da autuação. Hum milhão de reais é valor que coloca meus netos em divida. Mas não tive o estomago para seguir em frente com tamanha covardia.




E assim, na noite citada, discutia com Ana o divórcio, para que ela não se ferrasse comigo, em função no nosso casamento em comunhão de bens.

E Luca então se viu sem família, por aí como tantos coleguinhas e suas mães tão católicas, com suas missas e sinais da cruz e evocações de deus, mas incapazes de discutir guarda compartilhada.

Explicamos ao meu filho o que de fato ocorria, e entendendo, tranquilizou-se.

Espada de Dámocles


                   

PS: "Hey you bastards, I'm still here" http://www.youtube.com/watch?v=4XGWXmxmaoE