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terça-feira, 15 de outubro de 2013

Proposta de padronização



Em gente e em animais, a hemorragia digestiva alta e baixa tem sido prevalente nos acidentes laquéticos no Sul da Bahia.

Considere o envenenamento clássico (no Sul da Bahia):

O paciente já está hipotenso pelas ações do tipo cininogenase e dos peptídeos potenciadores da bradicinina, induzidas pela peçonha laquética.

Há lesão vascular direta pelas hemorraginas, e perda para o terceiro espaço.

Há diarreia e vomito, reduzindo o volume liquido circulante.

Hemorragia digestiva, muitas vezes ultrapassando 1 litro de perda sanguínea por episódio de hematêmese (vômito sanguinolento), pode vir a ser 'a pá de cal' que lançará o paciente no choque hipovolêmico (PAM < 60 mmHg), baixa perfusão, insuficiência renal e toda a série de complicações que a acompanham.




Assim sendo, melhor não dar chance à intercorrências, sendo prudente o uso de omeprazol e ranitidina venosos na prevenção de complicações decorrentes de hemorragia digestiva alta e baixa no acidente laquético no Sul da Bahia, e muito possivelmente em todo o sul do rio Amazonas.

Para adultos com hemorragia volumosa já vigente, eu prescreveria:

1) Omeprazol 40 mg, 02 frascos (80 mg), em 50 ml de SF 0,9%, EV, 12/12 hs.
2) Ranitidina 50 mg, 02 ampolas (100 mg), em 20 ml de ABD, EV, 8/8 hs.

Para adultos com hemorragia moderada, ou como forma de prevenção, eu prescreveria:

1) Omeprazol 40 mg, 01 frasco, diluir em 20 ml de ABD e fazer EV, 12/12 hs.
2) Ranitidina 50 mg, 01 ampola, diluir em 20 ml de ABD e fazer EV, 8/8 hs

A foto acima ilustra um episódio moderado de hematêmese (< 200 ml, em coágulos), que atendi á poucos minutos (15/10, 16 hs).

Quanto à doses pediátricas, não gosto nem de pensar. Vejo morte em 15 minutos, como ocorreu com o pequeno Jacques do Amor Divino, no entorno de Itacaré, BA. Quando entrevistei os familiares, a mãe me disse: "não deu tempo de tomar nem um comprimido Doutor". Foi um acidente laquético com múltiplas picadas, quando a criança saiu de casa à noite para urinar, pisando numa surucucu. Na hipótese deste paciente chegar à unidade hospitalar, a prevenção e tratamento das hemorragias digestivas se daria da seguinte forma:

1) Ranitidina, 2 mg/Kg/dose, EV em ABD, 12/12 hs
2) Omeprazol, 0,7 mg por Kg de peso/dia, EV em ABD.

Manifestações de hemorragia digestiva baixa são mais tardias. Fezes em cor de 'borra de café', escurecidas, tecnicamente chamadas de 'melena', indicam sangue abaixo do estomago, extravasando e sendo digerido. Presenciei melena de cerca de 2 litros, na decima sexta hora de evolução de acidente laquético, com paciente em hipotensão severa.





sábado, 12 de outubro de 2013

Sobre o o extrativismo de colarinho branco, as 400 lachesis mortas, e outros causos medonhos



Sexta feira, 30/10/2009. Hotel Casablanca, Itabuna, Bahia. Na mesa do café da manhã, e ao lado da minha fonte insuspeita, dois figurões e uma figurona, do Instituto Butantã, discutem alegremente como conseguir guias de transporte animal falsas, para a esquentar a carga ilegal que rumava para São Paulo e que os aguardava no quarto: veneno de surucucu (extração não autorizada pelo Ibama / ICM Bio, realizada na antiga Mãe Joana, a CEPLAC*), sapos e girinos, talvez cobra viva. Extrativismo ilegal do colarinho branco.

*Dras Aline e Samanta, do Núcleo de Fauna do Ibama, Rio Vermelho, Salvador, e Dr. Djalma N. Ferreira (Ibama PNUD) botaram fim à farra.

Há outras formas de extrativismo na região, como o extrativismo de sobrevivência, legal e ilegal. Na ida para o trabalho em Serra Grande hoje, dei carona para Sinho. Pescador, forte, vinte e poucos anos. tem um irmão que parece seu gêmeo. "O senhor que gosta dessas coisas escute só ...". Sinho sabia de coisa que eu gosto de escutar (?), e prosseguiu (os parenteses com explicações são meus):

'Estávamos lá fora (pescando em alto mar com a jangada da Bahia, toras de madeira unidas, sem acabamento) quando ele (o irmão) deu de assoviar e eu disse: 'pare com isso'. Nessa época tem baleia e eu vi que estavam no pesqueiro. Assovio atrai elas. E ele não parava com aquilo. Só parou quando a primeira chegou junto. Aí ele parou e já chorando. E eu disse: 'não te falei, e agora ?' A jubarte vei chegando e eu ví o olhão desse tamanho assim, me encarando de lado. Depois passou por baixo e veio se coçar. Pensei: 'agora morro', mas piorou. Botou uma mão dentro da embarcação, que ficou de pé assim (explica que a jubarte repousou a beirada da nadadeira dianteira direita sobre a borda da jangada, elevando a outra extremidade, onde os irmãos estavam empoleirados, em quase 90° em relação à superfície do oceano). E aí foi só reza Doutor. Peguei com Deus e ela foi embora. Não sei se volto mais para o mar. Por mim nem ia, mas tem os meninos, o Senhor sabe ..."  Sinho acertou, isso é coisa que eu gosto de escutar, viajei.




Sinho e irmão representam o extrativismo legal de sobrevivência, duríssimo. Gilmar representa o extrativismo ilegal de sobrevivência. Voltava de Serra Grande hoje, quando o vi com essa Irara (Eira barbara) ou 'Papa-mel': uma fêmea amamentando. Pedi a foto, conversamos um pouco. 'Tem carne aqui' ele me disse feliz, rumando para casa. Eu, de barriga cheia, é que não vou fazer discurso. Mas posso empregá-lo se tudo der certo. Se Gilmar fosse pego nessa situação era cadeia. Se os figurões fossem interceptados no aeroporto, não tenho tanta certeza.




O extrativismo no NSG ainda não começou. Há a trilha da legalidade a percorrer. Por enquanto só aprendemos e ensinamos outros grupos a entender a surucucu, dentro e fora do Brasil, com frutos:

http://www.udea.edu.co/portal/page/portal/bibliotecaSedesDependencias/unidadesAcademicas/CorporacionPatologiasTropicales/actualidad/Nacimiento%20en%20cautiverio%20de%20viboreznos%20en%20el%20serpentario%20de%20la%20Universidad%20de%20Antioquia.


O link ilustra a que viemos: compartilhar know-how obtido a duríssimas penas, sobre manejo, manutenção e reprodução em cativeiro do gênero Lachesis.

Nosso trabalho tem ajudado outros serviços, no Pará, Costa Rica, Venezuela e Colômbia, e por questão de segurança, é norma uma reciclagem contínua nos princípios básicos da lida com Lachesis.

Hoje abordaremos imobilização manual de Lachesis, o básico do básico. Essa reciclagem fica à cargo de quem mais entende do tema, professor José Abade. Para os videos abaixo fui escutá-lo, na quinta feira última, foi quando ouvi das '400 (quatrocentas) lachesis' ...






A imobilização manual de Lachesis não é simples, e é necessária no manejo, laço jamais. Já fiz o procedimento às centenas mas vou ver e rever esses videos por muito tempo.



 



Lachesis não sobrevive ao manuseio amador do traficante médio, desabastecendo a ponta. Esse e um dos motivos da sofisticação do trafico de Lachesis no Brasil; tem traficante capaz de produzir filhotes.

Enquanto finalizava esse texto recebi algumas imagens do Marcelo, que finalmente consegue viver de mergulho, e de uns poucos peixes, como essa garoupa excepcional, arpoada a 40 metros, em apneia e igualdade de condições. Extrativismo legal em estado de arte.
























































segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Réquiem para mim mesmo



Meus filhos se sairão melhor na vida do que eu. Ontem foi aniversário de Luquinha, 11 anos, e foi ele quem me presenteou com seu pragmatismo precoce.




É que a BBC de Londres iniciou uma divulgação de nosso trabalho em Serra Grande. O programa de radio atinge 180 milhões de pessoas. O texto escrito não menos que 100 mil. E junto com o trabalho em Serra Grande, a BBC menciona a critica que faço ao projeto Porto Sul, o que levou tanto Luquinha quanto Gabriel à arrepios: "O que você ganha com isso papai ? Esses caras vão te fuder ..."

O texto da BBC está aqui: http://www.bbc.co.uk/news/magazine-24396013

Após ser eleita, Dilma Rousseff foi descansar na casa de meu amigo João Paiva, perto do Núcleo Serra Grande. É a casa mais bonita que conheço. Foi o ultimo trabalho de Claudio Bernardes, 'gênio sem diploma, psicólogo de seus clientes' http://www.bernardesarq.com.br/pt-br/escritorio A beleza maior da casa é o dialogo que ela faz com o ambiente. A chuva corre dentro da sala, com força. Os quartos são plataformas como que lançadas à copa da mata atlântica. O mar e o horizonte emolduram o conjunto de onde se avistam as jubartes.

Todo esse cenário desaparecerá - salvo veto superior - cedendo espaço para gigantes cinzas em manobras, vazando suas excrecências no entorno, como em todos os mega portos de que se tem noticia. Antes do porto em si os trilhos do trem numa área de proteção ambiental, 'Patrimônio da Humanidade' pela UNESCO. E bastaria um acordo com a Vale do Rio Doce, dona de trilhos prontos que seguem para Aratu, para que a região permanecesse pura para sua vocação original de encantar pelo que já é.

Falava a um grupo de umas 20 pessoas serenas, gente próxima dos 60 anos. Estávamos em volta de uma grande mesa dessas de reuniões empresariais, mas era uma mesa rústica. Eu expunha que meus laços de família eram meio à Clarisse Lispector. Uma mulher, representante do grupo, de pé e em postura respeitosa, avaliou em voz alta um diagrama que representava minhas atitudes internas, e sentenciou uma especie de absolvição: 'o que vale é sua alma'. Acordei nessa frase.

Esse sonho tão absurdamente nítido nas nuances, me lembrou de quando eu ainda era místico e comprei um baralho de Tarô, estudei o sistema e joguei cartas para mim mesmo. A carta 'do futuro' deu corretamente em 'O Louco'. Um sujeito de poucas posses, alegremente caminhando com um cachorrinho na beira de um abismo. Não sei de onde vem meu otimismo, talvez da esperança de que o que valha seja de fato a alma.

                                                 




quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Breno e o Inferno



"O verdadeiro local do nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos" (Marguerite Yourcernar, em "Memorias de Adriano")

Breno nasceu aos 18 anos de idade num CTI no Pará. Picada de coral verdadeira, insuficiência respiratória, ventilação mecânica, um calvário de complicações, dezesseis cirurgias para correção de problemas relacionados à entubação oro-traqueal e traqueostomia.

Foi tempo o suficiente para o menino repensar sua trajetória de precocidades e falta de limites internos, e lançar sobre si mesmo o tal olhar inteligente, renascendo. Confira aqui  http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0036-46652010000600009&script=sci_arttext o acidente em detalhes.




Conheci Breno através do blog. Escreveu comentado postagens sobre o efeito do veneno de Lachesis nos rins e coração. Biólogo, profissional de campo competente e dedicado, coordenador de difíceis resgates de fauna no Pará, foi também vitima de acidente laquético, e de fato desenvolveu problemas cardíacos e renais crônicos. Em suas palavras: ' ... tive um acidente com Lachesis ... (e posteriormente) o exame cardiológico mostrou batidas descompassadas e o próprio médico falou que não era normal ... e o endócrino falou que tenho os rins de um senhor de 50 a 60 anos ..."

Breno e sua mãe me confirmam a presença de sintomatologia claramente neurotóxica neste acidente: a total impossibilidade de deglutir (nem a própria saliva) já nos primeiros minutos do acidente, cegueira, 'cara de bêbado' (fascies neurotóxica'), além da clássica dor abdominal e sinais de hemorragia digestiva ('diarréia muito escura').

Aqui o acidente em detalhes http://scielo.iec.pa.gov.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-59072007000100007&lng=en novamente em trabalho de Pardal e colaboradores.

No link abaixo nossa posição sobre a neurotoxicidade em Lachesis:
http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/05/neurotoxicidade-em-lachesis.html

O braço picado voltou ao 'normal' em oito meses, 'não segurava nem 1 kg', até então. Aos socorristas, chamamos novamente a atenção para o espaçamento entre presas: 5 cm é bicho monstruoso, que nos leva a considerar o acidente laquético já ao primeiro contato com o paciente. Confira abaixo:




Escrevi recentemente sobre o orgulho de 'inspirar a moçada', referindo-me ao fato de que universitários do Brasil, America do Sul e Central nos procuram para estágios em Serra Grande. Aqui deu-se o contrário, 'a moçada', me inspirou.

'Deixai toda a esperança, ó vós que entrai', são os dizeres no portal do Inferno, de Dante (1265-1321). Não foi esse o caso de Breno, que em algum lugar de si guardou o desejo de retorno à luz, à sobriedade, e assim procedeu, guiado por uma pequena joia viva, cheia de anéis vermelhos e pretos.