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domingo, 22 de fevereiro de 2015

Cachorro Louco, Toninho, Ju Thai, e a Hora de Parar


                                     




Leitora atenta e carinhosa avalia estatísticas australianas que publicamos sobre acidentes com herpetologistas e comenta:

'Vocês estão comemorando treze anos aí em Serra Grande, e se as estatísticas mostram que herpetologistas experientes sofrem uma picada potencialmente fatal a cada 10 anos, não é o caso de preparar uma sucessão, ou mesmo de parar com isso ? O Sr. fala que seu amigo não levava a morte a sério, o Sr. leva ?'

Levo, e muito. Trabalho com a morte. Passei os últimos 25 anos dentro de emergências do SUS, em meio à sucessos e derrotas diárias. A velha da foice à espreita, sempre aguardando por uma desatenção minha.

Refiro-me acima à desatenção para com o paciente: essa não ocorre. Quanto à desatenção para comigo mesmo, infelizmente ocorre sim, mesmo que de forma minimizada pela paternidade, que como já disse, anula nosso direito ao suicídio. Acho que a morte em si não seria problema, duro mesmo é a saudade ... mas respondendo à leitora, objetivamente existem situações em que de fato se chegaria à tal 'hora de parar':

1) Perder o amor pelo que se faz.

2) Para quem lida com Lachesis, perder vigor físico, explosão muscular.

3) Esgotamento financeiro.

Sobre o item 1: não seria a possibilidade de morrer picado por uma surucucu que me faria recuar nessa altura do jogo. Se eu pudesse, estaria com meus filhos em Serra Grande nesse momento. Se tivesse um patrocinador, nunca mais colocaria os pés num hospital, já paguei meus pecados. Seria dedicação integral à preservação das ultimas surucucus da Mata Atlântica. Isso passa por contrariar interesses poderosos na especulação imobiliária no sul da Bahia, algo mais perigoso que a lida com Lachesis em si.

Sobre o item 2: quanto ao vigor físico não há maquiagem possível. Para trabalhar com surucucu, no volume e nos métodos de Serra Grande (não anestesiamos bicho, não fazemos contenções exageradas ou uso de laço, trabalhamos em ladeiras íngremes, onde a chuva lava viveiros por gravidade) é necessário estar com os reflexos em dia e capacidade muscular de reagir rapidamente, e isso envolve manutenção continua. Essa manutenção é treino doloroso e envolve metas. Quanto mais se avança na idade pior fica. Estou com 53. Como medico lamento informar aos colegas jurássicos que essa estorinha de ficar andando em círculos conversando fiado com amigos, ou elevando braços e apertando as mãozinhas de forma ritmada, é a mais pura enganação. Para deter minimamente o tempo, a perda de massa muscular, a deterioração física natural, o exercício físico tem que ter impacto. Tem que doer, desanimar, dar vontade de desistir. Ponto.

Dizia o Tao Te King da importância de se 'ser como a água, que a tudo se adapta, porque a tudo se submete'. Vou me moldando, e para arrancar algo distrativo para a dor dos treinos, passei a coletar hieróglifos urbanos nos trajetos de corrida, atividade insuportável e essencial.




Não me interesso por pichação, ou por grafiti institucional, aquele onde o proprietário autoriza que um muro branco vire tela. O que me comove são as pequenas intervenções, com medo do rapa, que alguém faz para si mesmo, com ou sem 'mensagem' ...


AGRADEÇO ao maconheiro que me presenteou com a genialidade de seu 'manifesto' ...




e ao ativista do direito individual que me fez gargalhar com sua perfeita colocação ...




e ao surrealista delicado em questões inadiáveis e que não querem calar ...




e ao singelo astrofísico da lixeira do Mc Donalds ....




e também a quem me aponta o amor onde menos se espera encontrá-lo ...




e aos milhões de Cézannes da tinta spray, das ruas e madrugadas ...




AGRADEÇO POR ME ALIVIAREM daquele joelho que não é 100%, ou da coluna lesionada, permitindo submissão pacífica à dor, adaptando-me - com a água no Tao Te King - para poder tocar projetos que necessariamente passam pela resistência física.

Mas ao longo do tempo ficou claro que eu me enganava. Coletar os hieroglifos urbanos era uma forma de dar uma paradinha (para a foto).

Rui Rocha disse certa vez que eu 'radicalizava com facilidade', apontando-me um defeito. E novamente assim foi. Ao me flagrar 'roubando', radicalizei. Em 2014, Dennis Kimetto cravou recorde mundial de 2 horas, 2 minutos e 57 segundos na Maratona (42.195 metros). Toninho, o mais humilde dos viventes, já cravou 2 horas e 19 minutos na mesma prova. Foi a ele a quem recorri.




Em pouco tempo descobri com Toninho que corro mal por deficiências outras, não relacionadas ao sistema cardiovascular. E novamente radicalizei.

Foi numa terça, 14:30. Subi os lances de escada rumo à sala do Fisioterapeuta. Uma mulher diferente relaxava ao fundo. Luto e gosto de lutas, e não tive dificuldade em reconhecê-la: Juliana Lima - a Ju Thai - mineira de Belo Horizonte, 33 anos, 1,67 de altura e 52 kg de raça pura em bela moldura. Lutadora do UFC, cartel 7-2. Pensei: 'se uma atleta deste nível treina aqui, estou ferrado'. Estava mesmo, mas persevero, por enquanto.
















Em sendo o foco aqui a 'Hora de Parar' e os questionamentos da leitora, sigo para o item 3 da lista em negrito que abre a postagem -  o esgotamento financeiro - o maior temor e a maior ameaça à continuação do trabalho do Núcleo Serra Grande. Agarro-me a Mateus 6 seguindo - todo quebrado - para outro plantão, trabalhando para que cada dia cuide de si mesmo.

Concluindo, recebi de Fred, companheiro de luvas, o apelido de 'Cachorro Louco', numa honrosa alusão a Vanderlei Silva que poderia ser traduzida como 'mais coração do que técnica', no ringue e na vida. Olhando retrospectivamente para esses treze anos de esforços em Serra Grande, sinto que me cai bem a gozação.












sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Os Feras e eu




Um dia (24 horas) de trinta corpos no IML de Belo Horizonte, a maioria jovens, e a certeza de que começou essa merda de novo, a tirania da 'alegria'.






Me sinto tão peixe fora d'agua nesse ambiente festivo quanto num 'Premio Nacional de Biodiversidade' do MMA, onde fui inscrito por uma leitora do blog. O carrasco propondo abraço ao enforcado. Se há uma palavra para classificar o Ibama nestes 12 anos de esforços em Serra Grande, essa palavra seria 'HOSTIL'.

Olho para a capa do Eddie acima e me lembro de uma outra, e de um outro. O outro é a 'alma sebosa' travestida de respeitável cientista, que conspirou pelos animais de Serra Grande, e que vendeu veneno de surucucu misturado com Tang - aquele suco artificial em pó também amarelinho - ao Sr. Marcio Maruyama do extinto instituto San Marú, maculando sua reputação entre os compradores alemães quando a eletroforese detectou 'glicose' (em doses risíveis) na peçonha. A outra (capa do Eddie) que esse outro (bandido) me lembra, é essa abaixo, 'O Fera'.






Pra quem não conhece o glorioso Eddie (Olinda, Pernambuco, Brasil) aí vai a amostra grátis, mas antes aumente o som:




Com a realidade da sequencia brutal de plantões em todo o carnaval pela frente, e sabendo o que vou ver estes dias, empreendo fuga e como certas drogas que provocam alheamento, as cobras vem e me salvam de novo, num teletransporte para outro mundo, mais claro.

O mundo em si já é pequeno demais para elas e para todos os outros viventes que não nós, os inteligentes. É o que leio na elegantíssima revista da FAPESP, gentilmente enviada por Carlos Fioravanti, autor de matéria em que sou citado e que retrata um trabalho de campo de quatro décadas, cujo fechamento é coordenado por Cristiano Nogueira (MZ-USP) e de onde se conclui: 'se não agirmos agora, em 20 anos não haverá mais o que preservar' ...










E tome-lhe mais teletransporte ... Polly Matzinger me manda email (hoje 12/02) perguntando:

'when the snake strikes, its venom does not get injected IV,  it's probably sub Q or I.M.  so what happens if you inject a tiny amount that way, repeatedly?'

(o que acontece num organismo quando pequenas quantidades de veneno de cobra são injetadas no subcutâneo ?)

Meu impulso é responder: 'te preparam para um choque anafilático no caso de acidente verdadeiro', sempre lembrando-me do Emanuelle Gallman, e tantos outros ..



Mas aí vem as incertezas que a idade nos trás, e lembro-me de outro leitor do blog, um canadense que me escreveu do Japão, e que fez em si 47 inoculações de veneno diluído (de uma cobra japonesa, Gloydius blomhoffi) ao longo de um ano, buscando a construção de uma imunidade que tornaria inofensiva, sem efeito, uma picada verdadeira (inoculação real, volumosa e sem diluição) dessa mesma cobra. Abaixo seu email:

Hello Mr.Souza!

My name is Edwin Snell, I am a Canadian living in Japan.

I love conservation and nature.  I never got the eduction for that type of work, but I always wanted to do it.  I should have tried harder!

Now I just make my money teaching English (and conservation ideas!!) and donate money to nature organizations.

In Japan we have gloydius blomhoffi, the Japanese mamushi.  I keep several actually, because many people here put them into alcohol (the way they do it is horrifying actually)

I actually do self immunization with mamushi venom.  If I am bitten, there are no serious effects, only local swelling (gone within a few days)

Do you have a facebook account?  I would love to keep in contact with you!!

Sincerely,

Edwin


Respondi alarmado que carregasse consigo adrenalina ('Epi-Pen', ou caneta de epinefrina), sugestão acatada mas o experimento continuou, e quando ele permitiu a picada verdadeira, sintomas mínimos aconteceram.

Em Davos, na Suiça, um brilhante casal de cientistas turcos, Cezmi e Mubacel Akdis, acompanha (como imunologistas) o manejo de abelhas, e já detectou que no começo da estação os criadores reagem fortemente às picadas, ao contrario do que se verifica no final da estação, onde o veneno dessas abelhas parece nem mais fazer efeito. 

E o que dizer de Tim Fried, que alega auto imunização (100 doses) com veneno de mamba, e posterior exposição voluntaria a uma picada verdadeira (de mamba, cuja DL 50 indica que mataria elefantes), com efeitos mínimos ...

'FREAKS', o antagonista assopra em minha orelha, 'NOT QUITE', assopra a outra metade do individuo sem certezas, que ao contrário daqueles jovens do IML teve a oportunidade de emplacar 52, ou seriam 53 anos ?

Tudo isso para chegar a uma questão: se o corpo cria, e sustenta níveis altos de anticorpos capazes de fazer frente a uma quantidade brutal de antígenos como aqueles dos venenos de cobra, haverá um dia vacina contra estas picadas ? Contra essa 'questão negligenciada de terceiro mundo' ? :  http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/01/preto-no-branco.html


E sigo pelo fascínio da imunologia. Escrevi há alguns dias que Denise Tambourgy, na esteira de Marco Stephano, identificou a proteína que responde pela ação imunossupressora no veneno da surucucu. Não se fala no assunto no Brasil até que haja a publicação do trabalho e a patente dessa proteína, com efeitos tais comparados por uma fonte à ciclosporina. Entendo o sigilo, há décadas de esforços e muito dinheiro aplicado e com retorno potencial em jogo, mas não entendo o porque da maioria dos especialistas brazucas não darem a minima para o baixo clero ao qual pertenço.



Sobre o tema acima, efeito imunossupressor no veneno da surucucu, enviei algumas perguntas aos quatro únicos cientistas tupiniquins que poderiam responde-las:

1) qual seria o sentido evolutivo de um componente desses na peçonha ? em se pensando peçonha como forma de dominação de presa, que utilidade teria um efeito imunossupressor (lento) no episódio agudo do envenenamento ?

2) como se quantificou, que testes foram usados, para a detecção da ausência de resposta imunológica de alguns dos cavalos inoculados ?

3) é correto pensar que a apoptose advinda dessa inoculação, mesmo em dose baixa, traria resposta imunológica voltada não só à toxina em si, mas também contra os tecidos minimamente destruídos, o que geraria algum pico, por exemplo, de anticorpos anti-DNA, ou anticorpos contra outros componentes intracelulares ?

4) nessa linha acima (3), não seria de se esperar que a quantidade de antígeno liberado pelas células mortas seja muito maior que pela toxina ?  o sistema imunológico foi iludido ? ou responde a outra agressão ?


Não obtive resposta, de nenhum dos quatro, nem mesmo aquelas monossilábicas de sempre.


Dean Ripa, incrédulo quanto a alguma ação imunossupressora no veneno da surucucu questionou minha postagem, dizendo: 'como nada disso foi verificado nos cavalos do Instituto Clodomiro Picado ?' (Costa Rica)

Não sei se os cavalos da Costa Rica reagiram de forma diferente. O que sei é que o time 'nata da nata' de Dr. José Maria Gutiérrez também trabalha em cima desse efeito do veneno da surucucu, como ele mesmo me disse ontem, e foi além, transformando minhas quatro perguntas em uma, e me conduzindo ao entendimento com a clareza e humildade (sim, ele perde tempo comigo) dos verdadeiros Mestres:


Hi Rodrigo:

There are proteins in snake venoms which induce some effects that do not play a role in envenoming. It is like a coincidental phenomenon not necessarily selected through evolution. In this case, I would bet that this imunosupressant protein has another role in envenming and exerts this effect on the immune system. There are several examples in venoms of this situation. For instance, it might well be a protein that interacts with receptors in cell mebranes and elicits intracellular effects which, in the case of lymphocytes, inhibits their activation. I am curious to see what kind of protein is this and what is its mechanism of action. Marco Stephano showed that the venom of Lachesis reduces the imune response against various antigens, for instance red blood cells. The reason why it would work in some species and not in others may have to do with specificity against receptors of some species. But all of this is mere speculation until the information is published or disclosed.

Best regards,

José María


Ou destrinchando:

1) existem proteínas nos venenos que não tem função ('play a role') nos eventos do envenenamento em si

2) nem todos os fenômenos evolvem ('are selected through') da evolução

3) 'eu apostaria que esse proteína teria outras funções que não as relacionadas ao sistema imunológico'


E assim pude seguir adiante, com outras novas perguntas em mim, e respeitando mais ainda aqueles viventes complexos da Serra Grande, para onde sigo de volta no dia 28 próximo, atendendo a uma reunião caída do céu recentemente e que pode garantir o futuro do Núcleo, para além da inercia dos burocratas. É Mateus 6 de novo em minha vida de homem sem fé:


25 Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário?
26 Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?
27 E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?
28 E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;
29 E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.
30 Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?
31 Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos?
32 (Porque todas estas coisas os gentios procuram). De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas;
33 Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
34 Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.