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INDICE AO BLOG NSG E À BIBLIOTECA VIRTUAL LACHESISBRASIL BASEADO EM BUSCAS ESPECÍFICAS

OBSERVE POR FAVOR QUE A MAIORIA DOS LINKS SÃO AUTO EXPLICATIVOS, E CONTÉM INDICAÇÃO DE CONTEÚDO ANTES MESMO DE SUA ABERTURA: 1) SOBRE ...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Abade estava lá




Perdi meu Mestre, tem surucucu no céu. Buraco na rodovia federal, pneu furado, capotamento, Brasil. José Abade me ensinou o principal: o bicho é frágil. Morreu aos 54 sentindo-se 'sem reconhecimento', como me falou um dia.

Não aqui no blog:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2010/12/os-essenciais-2-jose-abade-da-ceplac.html

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2013/10/sobre-o-o-extrativismo-de-colarinho.html






Dylan Thomas - abaixo em tradução de Mauro Faustino - explica que quem escreve, o faz pelo coração do leitor.

Se em meu ofício, ou arte severa,/ Vou labutando, na quietude/ Da noite, enquanto, à luz cantante/ De encapelada lua jazem/ Tantos amantes que entre os braços/ As próprias dores vão estreitando —/ Não é por pão, nem por ambição,/ Nem para em palcos de marfim/ Pavonear-me, trocando encantos,/ Mas pelo simples salário pago/ Pelo secreto coração deles

Dia desses recebo a mensagem abaixo. Na integra, negrito da autora:

De antemão, peço desculpas pela extensão do email.

Bom, primeiro a apresentação: J, X anos, amante de répteis e outros animais e como a maioria das pessoas que te escrevem, admiro muito o seu trabalho com as Lachesis e não somente, como médico.

O motivo desse e-mail, o qual levei dias para terminar de escrever e mandar, é o seu último post no lachesisbrasil, "Nossos votos, em tempos de plantar, em tempos de correr", o qual tem me incomodado desde que li, provavelmente há mais de uma semana.

Sou leitora do seu blog há algum tempo, um ano ou mais, mas sempre fui uma daquelas fantasmas, que só lê, admira, concorda ou discorda e não comenta.

Nesse tempo, foram vários os posts que você esteve realmente muito puto com seja lá quem ou o que, desde homeopatia até acusações falsas. Porém, creio que nunca houve esse momento em que você disse 'ok, é o fim da linha, desisto'.

E eu me pergunto, porque diabos iria dar certo você desistir. Você falava em programas de estágios e ensinava um menino de 14 anos a extrair e liofilizar veneno há algumas postagens atrás. Não lembro quando, só lembro que houve uma época que pimpolhavam cartinhas de herpetólogos famosos te apoiando. Uns posts sobre cento e poucos países que visitam um blog de um 'médico fracassado' etc e tal. Em que lugar se tem um pesquisador assim? Que se dispôs a criar um plantel e uma linha de pesquisa maravilhosa com lachesis e fazer tudo certinho, em ordem, sem nunca ter usufruído de uma teta da CAPES/CNPq como a maioria dos pesquisadores faz? E vamos perder um guerreiro desses para a merda do IBAMA? É, me exaltei. Porque ao mesmo tempo que te dou toda a razão para desistir acho a maior besteira. Seus filhos têm um ótimo pai e você está certíssimo em pensar no futuro deles (É bem provável que eu te admire mais como pai desses dois meninos sortudos do que como pesquisador e médico). Eles têm a mesma diferença de idade que eu e minha irmã temos e eu sei o quão sofrido é e foi para a minha mãe nos criar, ainda mais nessa fase X - Y anos. Sei também o quanto eles vão te encher o saco para torrar teu dinheiro seja com coisas fúteis ou com o futuro. E essa grana investida no NSG vai fazer uma puta diferença. No entanto, o fim do NSG, também vai.

Eu não sei bem qual o objetivo desse email, na verdade. Porque não te conheço, entretanto, você me parece uma daquelas pessoas bem chatas que quando colocam uma coisa na cabeça é difícil tirar (veja bem, isso é um elogio). Eu trabalhei como voluntária dentro de um CETAS em XXXX e vi só a pontinha do iceberg que é a morosidade e incompetência do IBAMA. São já treze anos de desserviço com o NSG. Portanto, honestamente, não acredito no potencial de sair a liberação em um semestre. Se os caras querem te ferrar eles vão, ainda mais agora que você deu a corda para eles te enforcarem.

Só que se o NSG deixar de existir, porra, um trabalho único com as Lachesis vai deixar de existir. Só você sabe que ninguém no mundo (nem a mãe natureza) conseguiu manter lachesis tão gordas, bonitas, e saudáveis como o NSG. Você desenvolveu teus próprios métodos de contenção, de reprodução e cuidados extras. As várias publicações com o veneno da lachesis. Teu trabalho foi reconhecido por pesquisadores, especialistas, institutos de diversos lugares do mundo... Vital Brazil, Renctas, Funed, ad infinitum. Enfim, eu não preciso ficar falando as inúmeras conquistas do NSG porque elas são as tuas conquistas, porque quem fez acontecer foi você.

Sei lá, eu olho para tudo isso e vejo que antes de desistir dava para se tentar mais um pouco. Só para encher o saco do IBAMA, entende? Quem sabe montar um programa de estágio lá no NSG cobrando a estadia. Tem tanto louco querendo ir pra lá, aposto que pagariam para dormir em barraca e acordar com surucucu no pé. Ou quem sabe procurar uns patrocínios internacionais de redes filantrópicas, ou no mais desesperador final, vender umas camisetas com surucucu na frente (são 5000 acessos no blog por mês, não são?). Não sei, Rodrigo. Juro que se eu tivesse dinheiro, ou ganhasse na mega-sena, eu não hesitaria em ajudar o NSG

Enfim, você já leva 'Cançado' no nome, eu imagino o motivo, e só estou aqui te enchendo o saco pedindo para não desistir das últimas surucucus do Brasil só para sambar mais um pouco na cara do IBAMA.

Por último, de um post seu perdido:

"...E um dia uma sucuri enorme encalhou na praia, no centro da cidade, e eu a resgatei. E o povo viu e gostou e passou a contar comigo quando bichos perigosos assustavam. Fui a pessoa certa, na hora certa, sem planejamento. E da lacuna do Estado para resgate de fauna ameaçada cheguei às surucucus, e as compreendi como ninguém, e mergulhei na Lei e na burocracia para dar-lhes vida, e assim seguem-se 11 anos emplacando um dia de cada vez, em meio a tantos riscos e custos."

Se você chegou a ter tempo de ler esse email cheio de erros gramaticais e frases desconexas, obrigada por tê-lo feito. Sei que não tenho a autoridade ou importância das pessoas com quem você geralmente mantém contato, muito menos a idade da sabedoria, mas ainda assim resolvi mandá-lo por pura necessidade da consciência.

Se realmente chegar a desistir do NSG (ou não!) ainda assim, acho que como brasileira e admiradora das lachesis, posso e devo agradecer, do fundo do coração, por todo o seu trabalho e esforço realizado para salvar as últimas surucucus da Mata Atlântica.

Sinceramente,

J


Euclides da Cunha via metafisica e missão no escrever. Em uma carta a Alberto Rangel de 20/03/1905, dizia: '... tenho a crença largamente metafisica de que nossa vida é sempre garantida por um ideal, uma aspiração superior a realizar-se. E eu tenho tanto que escrever ainda ...'

Dylan Thomas e Euclides da Cunha embolados em mim. 'Missão' é algo que cheira à arrogância. Como se uma força superior tivesse algum/alguém como 'o escolhido' para algo. Entendo melhor acaso, oportunidade, vontade, trabalho e persistência no tempo. Quanto à 'metafisica', estranho e improvável que eu acabasse vivenciando o tal ÁGAPE, no retorno (preocupação) de uma leitora (acima) de um blog sobre a preservação de uma cobra especifica.


Passei 15 dias no mato, e só ao voltar soube da dimensão da 'crise' da água em Minas e Rio e não mais em São Paulo somente ... aquela mesma água e seus humores variáveis, que foi a grande graça destes dias.







Como está sendo ocultado um aumento de 226% no desmatamento amazônico (em 2014), e com isso a atmosfera tende a ficar cada vez menos úmida, triste pensar que é chegada a hora de dar adeus à fartura. Importante ressaltar contudo, que não é somente a desertificação do Norte brasileiro a responsável pelo baixo registro pluviométrico recente no Sudeste, zonas de alta pressão atmosférica no território brasileiro tem impedido a entrada de frentes frias, e para muitos este tem sido o fator determinante para a ausência de chuvas, confira:

http://epoca.globo.com/ideias/choque-de-realidade/noticia/2015/03/seca-bnao-vemb-da-amazonia.html





Entenda melhor a atual 'crise' hídrica, na verdade um evento previsto, com advertencias formais que remontam à 2003:

http://sustentabilidade.estadao.com.br/blogs/dener-giovanini/crise-hidrica-que-crise-nao-existe-nenhuma-crise-hidrica/ 

Saiba mais do porvir:

http://brasil.elpais.com/m/brasil/2014/08/14/sociedad/1408010925_555437.html
http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2014/09/caa-ete.html


Em Serra Grande tenho reproduzido os ensinamentos de Ernst Goetsh e me movo em sentido contrario à essa tendencia de suprimir a vegetação, pensando na preservação de nossa nascente. Objetivamente, e valendo-me de mudas a R$ 1,00 na região, construo no momento, do zero, uma floresta (experimento agroflorestal) de 1 hectare. em solo pedregoso. Do ponto de vista psicológico, isso me indica que pretendo persistir para além das minhas palavras.

A floresta que construo é 'catada a dedo', e vai mostrar seu rosto em 10 anos, cheia de celebridades. Jabuticabeira Sabará, 'dama-da-noite' (pelo perfume), cedro rosa australiano (que o homem extinguiu), meu cedrinho do Caraça (agora 'pego', e com dois anos), sessenta especies de arvores frutíferas (no estrato de sete metros). Estratos são niveis de altura das copas numa mesma floresta. Estrato superior: arvores 'de lei' de crescimento rápido (como o cedro rosa) e que chegam aos 30 metros de altura, estrato médio (o das frutíferas de até sete metros de altura), estrato inferior (frutíferas baixas, tipo pitanga, mangostão, café, e todo arvoredo nativo que surja espontaneamente), e a 'placenta', que é o solo em si, e que recebe aipim, feijão de corda, amendoim, raízes uteis, fixadoras de nitrogênio. Nada mais é queimado. Tudo o que é orgânico é deixado em decomposição, em transformação para terra vegetal. A pessoa de quem comprei os 4 hectares do NSG era carvoeiro, não precisa explicar muito o que comprei.

Aí a noite cai. E a noite é das surucucus, e tudo fica melhor em Serra Grande. Tem um aspecto de sonho em tudo isso.






Nasce o dia e observo que a mata respira .... Hora da lida.






Técnicos experientes (Ibama) que presenciaram meu manejo alarmaram-se ao ver o tamanho (e tipo) dos ganchos que uso para Lachesis: 'mas é com isso que o Sr. vai entrar aí ? (dentro do viveiro)' ...

Sempre esperam laços de 3 metros de comprimento, importados, mas nunca isso (abaixo) ... 70 - 80 cm de humildade tôsca ...





O pequeno artefato nos permite 'esgrimar' se for o caso. Certa vez tirei uma cobra a 30 centímetros do peito de um grande herpetologista - totalmente vendido no movimento rápido e inesperado da surucucu - graças à agilidade que essas varinhas permitem.

Blusão de couro, perneiras até virilha, o restante da indumentária lembra aquela dos vaqueiros da caatinga, meus filósofos favoritos em seus aboios... 'Meu cavalo morreu ontem, minha mulher no outro dia, do cavalo tive pena, da mulher tive alegria. Pôs cavalo bom é dificil e mulher ruim tem todo dia!!!'





Olhando para o 'octógono' (abaixo) depois do pau quebrar (vermifugar, ou enfiar à força um comprimido na goela de todas as cobras), uma sensação de acerto na singeleza do projeto. Espaço para fugir (eu). Mesa de manejo bruto. E o grande, essencial Bushamp ... 'você é burro papai, devia ter patenteado essa merda ... ' disse Luquinha.







Quem diria que minutos antes ocorria aqui aquele raro instante em nossas vidas, o do foco total, necessário para aplicação de rifampicina spray numa barriga sob ataque bacteriano ...






.. ou à pesagem de um brutamontes de 8,290 quilos, que não entrou espontaneamente nessa caixinha ...






E deu tudo certo mais uma vez, porque 'reconhecemos o risco', e porque Abade estava lá. E deu mais certo ainda porque temos algo novo sob o sol a apresentar, a colocar em discussão. Explico.

Ao me convidar para escrever o capitulo 'Acidente laquético' de seu livro, Dr. João Luis Cardoso pediu: 'não quero revisão de revisão, quero sua experiencia'. E dessa solicitação de risco de Dr. João, surgiu muita coisa nova na clinica dos envenenamentos. Enquanto isso, em 'revisões de revisões' (um autor escrevendo baseado em outro, sem acréscimos da experiencia prática), um chavão permanecia intocável: 'a fraca potencia do veneno é compensada pela grande quantidade injetada'.

Sobre a 'fraca potencia do veneno', já falei aqui: http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2013/09/a-mais.html

Sobre a 'grande quantidade injetada' falo agora: é mito. Mesmo dos maiores exemplares dificilmente alguém conseguirá extrair mais de 2,0 ml de veneno. Grandes Bothrops jararacuçu frequentemente liberam 5,5 ml numa extração, podendo chegar aos 6,7 ml. A media de veneno extraído de Lachesis adultas não ultrapassa a 1,0 (hum) ml por individuo.






Falar de veneno, de picada de surucucu, é falar em dor. Dor local violenta, equivalente a sucessivas 'batidas de porta' de um carro na sua mão (se a mão foi o local atingido pelo bote). Temos alimentado essas cobras com ratos vivos, para que elas cacem, se exercitem, e não percam a vitalidade em cativeiro. Fica a questão ética da dor que esses ratos sentem, e o encaminhamento das soluções.

Rato congelado por três meses tem carga parasitaria próxima de zero. Aos poucos estamos migrando para essa linha: abate indolor por câmara de CO2, vide abaixo ...




... e congelamento de indivíduos de 20 e 45 dias (foto) de vida por três meses, aquecimento em microondas e oferta às surucucus ...





Outra questão encaminhada no NSG foi a questão da segurança no manejo em túneis que oferecemos às cobras. Imitando a natureza, intuímos que falsos buracos de paca e tatu deixariam as surucucus mais confortáveis, isso a dez anos atrás. A intuição se confirmou e a primeira reprodução em cativeiro do mundo da surucucu da Mata Atlântica ocorreu em 2007, graças a esse artefato.

Confira: http://www.lachesisbrasil.com.br/download/BulChicagoHerpSoc_Vol42Num3pp41-43%282007%29.pdf


Abaixo o viveiro (hoje peça histórica do NSG) onde se deu essa reprodução. Observe entrada do túnel (foto à direita), e à esquerda a parte mais larga, onde a cobra colocou os ovos (seta amarela) em 2007 (simulados aqui por pedras pintadas). A foto do meio mostra trajeto entre entrada e parte larga.








Se a postura dos ovos ocorre no meio do caminho do túnel, há um problema. Desinfecção desse recinto, idem. Observação da rotina (comportamento) dos animais no interior dos tuneis, impossível.






Sabíamos que a surucucus não estavam nas tocas e galerias de paca e tatu só 'descansando'. Estavam ativas, desenrodilhadas, também caçando, ou digerindo, ou guardando ovos, ou só fazendo uma social entre seus pares, às vezes por dias e dias sem sair do buraco.

Dessa necessidade de observação nasceram os tuneis modernos, os atuais no NSG. Cansei dos riscos do carão no buraco ....





Uma falsa 'entrada natural' (entrada do túnel), leva ao túnel, que leva a uma barraca, no interior da qual há uma 'toca', com aparato de observação.

Na visão geral abaixo, observe na base à esquerda da foto um tronco com argila, cujo final apresenta um tubo, que penetra na barraca ...







O túnel de acesso está no fundo à esquerda dessa imagem abaixo, enterrado sob a maravalha (vide foto menor). No interior da barraca a parte larga da toca, com visor e luz delicada ...








... por onde se observa sem dificuldades a atividade 'fossorial' de lachesis ...






Concluo respondendo a um leitor, em questionamento de hoje, 29/01 sobre portar ou não adrenalina em trabalhos de campo prolongados, leitor esse que já foi picado por opistóglifas e tende a estar 'sensibilizado' e passível em tese a choque anafilático, no caso de nova exposição.

Aos 50 anos eu me achava no melhor do condicionamento físico. Vinha forte em atividades esportivas, continuava descendo próximo dos 20 metros no peito (mergulho em apneia), acabara de fazer 'Os Sete Picos do Caraça'* com meus filhos, como sherpa do grupo, e carregando 35 kg de equipamento à cada cume. Queria muito fazer o Aconcágua, a maior montanha do mundo fora da Asia, e busquei assessoria profissional, com Davi Marski. Gentilmente ele me freou, propondo um programa de condicionamento físico de dois anos a ser seguido à risca. Podia ter me levado a um acampamento base, aguardar que eu afinasse, e levar meu dinheiro. Mas não, salvou minha vida.

* http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/11/os-sete-picos-do-caraca.html

E logo ele que já se pendurou na principais paredes desse planeta, veio a morrer recentemente numa escalada em Minas Gerais, por choque anafilático num ataque de abelhas.

O sistema imunológico é traiçoeiro, nunca é totalmente previsível. Tenho e carrego comigo adrenalina em trabalho pesado de campo. Recomendo que gente exposta também o faça, SE, E SOMENTE SE souber usar, souber o que se está fazendo. Erre na mão e poderá provocar uma taquicardia fatal naquele que se pretende ajudar. Considere importar a 'EPI- PEN', caneta de epinefrina que despeja a dose certinha naquele que está próximo de uma asfixia (edema de glote, broncoespasmo), ou colapso cardiovascular (hipotensão, bradicardia), e que teria salvado mais esse meu amigo que se vai cedo, mas tendo visto a vida do alto.




Namastê Davi, e é isso, por enquanto...












terça-feira, 30 de dezembro de 2014

'Nada de novo sob o sol'




O Eclesiastes, um dos poucos livros que escaparam da fogueira da minha Santa Inquisição pessoal. Tenho edição antiga, que pertenceu a meu pai, repleta de frases sublinhadas e pontos de exclamação à lápis em trechos que lhe chamaram a atenção - e que também me tocam de forma especial - indicando que ao contrário do que supunha, foram provavelmente nossas semelhanças que nos afastaram em vida.

'Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga sob o sol ?' (1,3). Segundo o texto, em sendo viver intensamente o momento presente a verdadeira realização humana, e em sendo essa vida no 'aqui e agora' necessariamente bancada pelo próprio trabalho, em tempos de exploração quase escravista do homem pelo homem, ocorre que a vida passa sem proveito.

O Eclesiastes, talvez do século III A.C, é então atualíssima critica social a um sistema que rouba vidas. Ironiza e desconstrói dinheiro, poder, status, o próprio trabalho, a produção cientifica, como se tudo isso fosse fruto de roubo. No sistema, alguém sempre banca com sua vida a expansão do outro.

Assim, antes de pavonear-se, o 'bem sucedido' deveria estar ciente de que 'não há nada de novo sob o sol' e que tudo em volta não passa de 'vaidade', e que o juízo 'chegará a tudo o que seja encoberto, quer seja bom, quer seja mau' (12:13-14). Abaixo Salomão, improvável autor do texto.




Contrariando o Eclesiastes, encontrei 'algo de novo sob o sol': uma provável Nobel sem vaidades. Em 26 de janeiro de 2006 escrevi diretamente a Polly Matzinger - diziam para eu não fazê-lo, pelo tamanho acadêmico da pessoa - buscando ajuda para entender porque a necrose progride em alguns casos envolvendo animais peçonhentos, mesmo com soroterapia especifica adequada e na ausência de infecção.

Ela me respondeu rapidamente, dizendo que não era hora de procuramos por respostas, mas por uma boa pergunta para testar no laboratório. Me tratou como a um igual seu que não sou. A conversa durou anos e desaguou num convite para trabalhar a ideia nos Estados Unidos. Não fui, não sei viver longe de meus filhos, mas foi amor à primeira 'vista'.

Polly vem balançando o mundo da Imunologia dizendo que tudo aquilo que aprendemos na escola de medicina, sobre 'self e non-self ' deixa a desejar. Segundo ela, o sistema imunológico não se preocupa com aquilo que nos é ou não inato, mas com o que nos causa dano. A essa sua revolucionaria teoria dá-se o nome de Danger Model, e seu arcabouço teórico foi publicado na Science de 12 de abril de 2002, volume 296 n° 2255 paginas 301-305.

Talvez mais interessante que a vanguarda na ciência de ponta seja a trajetória pessoal dessa mulher, considerada na juventude 'fracasso certo na vida' pelo grupo mais próximo: interesses demais e nenhum interesse objetivo, abertura demais, falta de foco em demasia. Candidata a ser engolida pelo abismo das possibilidades. É o que pensavam.

Abandonou a universidade, dedicou-se ao jazz (piano) e ao treinamento de cães problemáticos, foi coelhinha da Playboy e optou por ser garçonete (1972) como forma de bancar com mais liberdade seus múltiplos interesses. Nesse seu oficio, atenta às conversas de um grupo de clientes habituais da Universidade da Califórnia (at Davis), dirigiu-lhes perguntas que não passaram desapercebidas ao experiente professor Robert Schwab, que a convenceu de que a ciência abrigaria sua inquietação, e assim, entre 74 e 79 a garçonete gostosa chegou ao Ph.D, e vem desde então fazendo o grand monde médico repensar suas certezas, sem desprezar brazucas confusos. Abaixo Polly nos dias de hoje, e entre amigos ...




Voltei a Polly recentemente, com mais 'algo de novo sob o sol': há no veneno da surucucu uma proteína (LMVp) com propriedades imunossupressoras.

Dra. Denise Tambourgi (Imunologia, Butantã) clonou essa proteína (em Lr23 e Lr100) e me disse hoje (30/12/2014) que ela 'não é toxica', mas impediu que alguns cavalos produtores dos anticorpos que fazem o soro que atende aos acidentados, reconhecessem o veneno de Lachesis em sua circulação como algo que lhes causaria dano (!!!), não formando anticorpos. É das mais traiçoeiras (e porque não sutis) ações de veneno de que tenho noticia.

O insight pioneiro dessa atividade deu-se em 2001, através do aluno de farmacologia da UNICAMP, Marco Antonio Stéfan.

Retorno ao tema, surgindo algo novo sob o sol.


 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O 15




“Lá se tinha ficado o Josias, na sua cova à beira da estrada, com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai. Ficou em paz. Não tinha mais que chorar de fome, estrada afora. Não tinha mais alguns anos de miséria à frente da vida, para cair depois no mesmo buraco, à sombra das mesma cruz”

('O Quinze', Raquel de Queiroz)

Lembro-me de voar baixo em meu carro conduzindo dois irmãos de uma cidadezinha do interior para a maior Emergência de Minas Gerais. Ambos haviam comido a 'mandioca-brava' que matou Josias. Um viveu, outro morreu. Olho para meus filhos e sei que nada nunca me faltou.




No meu Quinze (15/12/2014) inesquecível, os burocratas continuaram sem pressa, enquanto o cheque da pensão voltou sem fundos, o cartão foi clonado, e as chuvas derrubaram parte do muro do Núcleo Serra Grande, entre vários outros prejuízos.





Confira o dilúvio: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/12/1564856-fortes-chuvas-isolam-praias-do-sul-da-bahia-2000-estao-desalojados.shtml

Quem puder ajudar ... http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2014/09/vaquinha-sos-nsg-fund-raising-e-obrigado.html


Em 'Beleza Americana', Ricky Fitts divide com Jane o momento em que entendeu a 'força benévola' na vida ... (abaixo, legendado)




"Essa vida toda por traz das coisas ... essa força benevolente lembrando não haver razão para se ter medo ... nunca ... preciso me lembrar ..."






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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Sobre Mutantes




Manfredo do Carmo, 'doce príncipe alagoano' e mestre do IMPA, Instituto de Matemática Pura e Aplicada, no Rio de Janeiro, explicava que existiam sim aqueles alunos brilhantes, 'fora da curva', precocemente completos, mas que nessa 'nata da nata', muito raramente, também surgiam indivíduos que 'pensavam aos saltos' e sempre na fronteira do novo, 'os Mutantes', segundo o professor.




Rio de Janeiro hoje, numa feira dessas de rua, comercio de bichos à luz do sol e sob a mais descarada omissão da Policia Militar e Ibama. Há conluios insuspeitos nessa afronta à legislação, trata-se de um comercio que só movimenta menos dinheiro que os tráficos de drogas e de armas. Ao peitar este esquema de 1995 a 1999, nosso Mutante sofreu atentados e ameaças de morte, mas viveu para contar.

Contar por exemplo, sem meias palavras, que Marina Silva não era confiável e que iria trair, e isso quando ela tinha 52% das intenções de voto para presidente (2014). Oposto diametral do oportunismo, do alinhamento, da busca pela 'boquinha' na teta do Estado, essa norma nacional. 

Na longa carreira de jornalista, nenhum processo, a verdade como escudo. Mutante pelo destemor, pela integridade, pela autonomia.






De co-fundador do Partido Verde (Rio, 1986), aos 18 anos, à cobertura da Rio Eco 92, mesclou comunicação e politica pela causa ambiental e foi além, promovendo uma costura estratégica entre a Policia Federal, Ibama e sua ONG Mata Viva (1995), que deu vida em 1999 à Rede Nacional de Combate ao Trafico de Animais Silvestres.

Como João do Santo Cristo o Mutante não tinha medo e também foi para Brasilia (2000), de onde com um pouco mais de segurança pessoal, acirrou o bom combate e fez Historia.

Por um conjunto de ações em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, entre 2000 e 2003, recebe das mãos de Secretario Geral da ONU, Kofi Annan, o Premio Unep - Sasakawa, a mais importante condecoração ambiental do planeta, e após este reconhecimento internacional, recebe também a Medalha do Congresso Nacional, o Premio Verde das Américas e o Premio Visionaris da UBS.






Nosso Mutante é reconhecido internacionalmente como 'Empreendedor Social Notável' pelas três maiores organizações de empreendedorismo social do mundo: Ashoka, Fundación Avina e Schwab Foundation.

Suas estratégias também inspiraram um Case Study da Universidade de Harvard (2006): http://www.mitpressjournals.org/doi/pdf/10.1162/itgg.2006.1.2.25

Também em 2006, foi eleito como um dos 54 heróis ambientais do planeta pela revista COURRIER INTERNATIONAL.

Em 2007, foi eleito pelo jornal LE MONDE como um dos 100 mais importantes ambientalistas do mundo.

Em 2008 a revista NEWSWEEK o elegeu um dos 100 mais importantes 'Empreendedores Sociais do Planeta'.

Em 2009, foi eleito pela revista japonesa SOKOTOKO a 24ª pessoa mais influente do mundo na área ambiental, ficando à frente do presidente Barack Obama, 25º colocado. Nesse mesmo ano, foi convidado pelo presidente do FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL, Klaus Schwab, para ser membro do Conselho Global contra o Comércio Ilegal Mundial, mantido pelo G20 e a ONU.






Dener Giovanini (ao fundo na foto abaixo) esteve no Núcleo Serra Grande a uns bons anos atrás, quando eu estava no olho do furacão, acusações de trafico e muitos outros etc desabonadores. Trabalhou a região, entrevistou gente aqui e ali, olhou no meu olho, e num insight pioneiro entendeu e acreditou naquele movimento único e espontâneo pelas ultimas surucucus da Mata Atlântica. 





In the fear and alarm
You did not desert me
My brother in arms *






*Dire Straits, 'Brothers in arms' ... 'nos momentos de medo você não me abandonou, companheiro de batalha'


Confira também outra frente de ação do Mutante:








quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Serpentes urbanas



"Bichos escrotos saem dos esgotos"

Titãs



No evento bíblico a cobra deu a maçã a Eva, no paulistano (ontem), Eva deu uma porretada na cobra.




Serpentes urbanas trouxeram uma leitora aflita ao blog:

'Ola  moro em sp e fiquei muito assustada ao me deparar com essa cobrinha na minha cozinha as 2:30 da manha quando me levantei pra tomar água, na hora não tive outro pensamento a não ser mata-la e o pior é que o bairro esta cheio delas, já encontrei duas outras na rua, e uma já entrou na sala da minha vizinha, sabe dizer se elas são venenosas? Grata. Eva'







RESPONDO: Oi Eva, precisaria de melhores imagens (detalhes cabeça/desenhos do corpo) para uma classificação precisa quanto a gênero e especie, mas se o que te aflige é saber se ela é ou não venenosa, GARANTO que você pode ficar tranquila: não é. Essa conformação de corpo e o padrão dos desenhos NÃO CORRESPONDE a nenhuma das cobras venenosas brasileiras*. Uma dica é colocar telinhas nos ralos domésticos, e aquelas adaptações tipo 'rodo' que se instala na base das portas que dão acesso ao meio externo, eliminando frestas. Tenho uma dessas aqui em casa para segurar formigas lá fora.






E mando um link que pode ser do seu interesse:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2013/08/primeiros-socorros-aos-acidentados-por.html

com muitas imagens dos bichos que realmente causam estrago Brasil afora, e dicas de prevenção.

* aos exaltados de plantão, Micrurus albicinctus (que não é o caso) não incide em São Paulo



SUCURIS, como serpentes urbanas, tem chamado muito a atenção de leitores em contatos diretos e nas mensagens / comentários desta postagem. À pedidos, deixo aqui a imagem de uma resgatada no centro de Itacaré, BA, num sábado de Carnaval, centenas de testemunhas. Reparem meu filho Gabriel, no centro da fotografia, faquinha na mão, pronto para me salvar se necessário.




No link abaixo uma postagem minha sobre a 'periculosidade' das sucuris, ilustrado num caso famoso e recente: 

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/05/sobre-sucuri-que-matou-duas-meninas-no.html


E respondendo a um leitor, nos dias de hoje qualquer sucuri (ou mesmo pitons) ultrapassando 9 metros é raridade. Consta que o maior exemplar conhecido - mas com registro sem metodologia cientifica - foi abatido pela equipe de Rondon em 1910, às margens do Ribeirão Voadeiro na região norte, e mediu (o couro) 11,40 mts. Toda medição baseada em couro deve ser vista com ressalva, não raro é possível esticá-lo a mais de 1/5 do comprimento do exemplar original.



Recebi do Ministério da Saúde hoje, 19/12, votos que estendo aos leitores do blog:































A aranha da imagem é uma armadeira. Nos comentários dessa postagem recomendo leitora a JAMAIS manter os bercinhos de crianças encostados na parede. No linkabaixo há uma parte dedicada a aranhas. Confira em FONEUTRISMO (acidente com aranha armadeira) o porque dessa minha paranoia com o posicionamento dos berços ...

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2013/08/primeiros-socorros-aos-acidentados-por.html




Outra leitora aflita ... serpentes urbanas, em Maringá, Paraná, hoje (06/01/2015) ...

'Olá. Encontrei em um blog o endereço deste email para tirar dúvidas sobre cobras.

Apareceu morta na quadra da minha casa a cobra da imagem anexa. Pelo que pesquisei parece ser uma jararacuçu. Procede?

Se ela é uma das maiores jararacas, a que estava no bairro é filhote então (parecia ter uns 80 cm)?

Obrigado. Camila Ueno'





























RESPONDO:


Oi Camila, e que pena ... essa é a absolutamente inofensiva 'cainana' (Spilots pulatus). É um animal de 'temperamento forte' e que faz a maior cena: infla o 'papo' (display gular) para parecer perigosa e maior, dá botes, as grandes (chega a mais de 2 metros) tem a reputação de avançar alguns metros na direção de pessoas, mas não oferece perigo, e é bicho bom de ter por perto, pois controla ratos e morcegos. Proteja as próximas ... Aproveito para postar abaixo a foto de uma cainana que encontramos na Reserva do Caraça, MG, registro de Pe. Lauro Palú, e logo abaixo dela uma verdadeira jararacuçú, em registro de Marco Antonio de Freitas, em Barra do Choça, Bahia








Leitora mais curiosa que aflita questiona 'o achado' no jardim de Miguel e Cristina, na Bahia ... em 26/04/2015


'Hj pela manhã deram um rolé no jardim da Cristina e do Miguel lá no Morro de SP.
Será um casal ?
Amigos? 
Irmãos ? 
E de que especie?
Cobra d'Água ?
Cipó?
Perigosa ?'






RESPONDO:

Nenhum perigo, bichinhos bons de se ter por perto, para controle de ratos e morcegos. Em uma rara e belíssima sequencia de fotos, um jovem casal de Chironius bicarinatus, inofensivas repito, em comportamento sugestivo de cópula ... 



Cristina Pataxó ... também aflita com 'olhos estranhos' da serpente abaixo, bem como com sua eventual periculosidade, mas com grande preocupação em cuidar do animal, alimentá-lo em especial, e encaminhá-lo 'ao Ibama de Juiz de Fora' ....






RESPONDO:

Oi Cristina, trata-se de uma das mais inofensivas cobras brasileiras, a Sibynomorphus newiedii. Esse olho estranho é porque ela vai trocar de pele. Você não vai conseguir alimentá-la, é um animal que come minhocas e lesmas sob o folhiço da floresta. Te recomendo solta-la em alguma florestinha, e rápido. O bicho é frágil. O Ibama não fará nada por ela, retorno à natureza sim.



Alessandra, Manaus (19/05/2015):

Prezado professor,
Por gentileza, o Sr saberia me dizer a espécie dessa cobra? É venenosa?
Apareceu a noite na casa do meu pai num sítio na região de Manaus.
Obrigada 
Alessandra






Grato pelo contato Alessandra, e nada a temer, trata-se da absolutamente inofensiva Corallus hortulanus, bicho arborícola bom de se ter por perto, para controle de ratos e morcegos. É um bichinho valente, que dá botes e etc, mas que não ameaça a tranquilidade lá no sítio.



É CERTO DE QUE OS AVISTAMENTOS (GENTE / COBRA) TENDEM A AUMENTAR, VARIAS ESPÉCIES JÁ PERDERAM MAIS DE 80% DE HABITAT E ESTÃO 'ACUADAS', CONFIRA:



E ESSA POSTAGEM SEGUE VIVA E ABERTA, NOS COMENTÁRIO DE LEITORES ABAIXO ... SERPENTES URBANAS VIERAM PARA FICAR ...





segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

SOS SABL FUNED




Fiquei de escrever sobre os 'dias de cão'. Era o combinado com o leitor do blog Geraldo Couto, frente às muitas dificuldades no período. O link fala por si:

http://sustentabilidade.estadao.com.br/blogs/dener-giovanini/ma-gestao-no-ministerio-do-meio-ambiente-pode-levar-brasileiros-a-morte

É meio ridículo qualquer queixume. É sorte poder somar pelo extremamente eficaz 'Soro Antibotrópico (pentavalente) e laquético' - SABL (já na nova nomenclatura Anvisa) - da FUNED.

Roubo de Kierkegaard o título de um texto que tento escrever sobre o momento emocional da vitima do acidente laquético: 'The concept of dispair'

Campbell e Lammar, na herpetologia, e Dr. Warrell na parte médica do ofidismo, fizeram 'o melhor' num livro. E sim, surucucu na capa.






Neste livro o cineasta Herzog descreve um acidente ocorrido durante as filmagens de 'Aguirre' na amazônia, quando um dos membros nativos da equipe foi picado duas vezes por surucucu. Não estava longe do socorro, mas refletiu e optou por amputar o próprio pé no ato, com motoserra: "The concept of dispair'.






           O desespero vai a outro patamar se faltar soro para o acidentado. E então agimos.








Cheguei à Serra Grande na sexta, fizemos as extrações, sempre menos que 1,0 ml por animal, difícil.

Seria (e foi) nossa primeira liofilização. Ia ter aulas sobre o processo com Dra. Liza Felicori, Bioquímica ICB UFMG. Que é dessas que gesticulam quando falam, que aos 26 era PhD, que ama seu oficio (aquele fogo no olho), e conseguiu colocar alunos nossos fazendo bonito frente à concorrência mais desigual: Harvard, Stanford, MIT; e tudo isso com o agravante de que parece ser alegre.

Frente ao acima exposto, achei perigoso para minha integridade emocional ir conhecer a tal pessoa. Afinei, chegando às extrações bem crú na matéria processamento. Abaixo Liza, por Sarah Dutra.






O que era possível, com o que eu tinha e sabia, foi feito. 36 horas em - 700 mmHg e surge a substancia







0,9 gramas de veneno liofilizado de Lachesis muta rhombeata + 3,6 gramas (ml) de veneno bruto congelado foram entregues à pouco na FUNED, em mãos (Sr. Atos). Algo entre 2,5 - 2,7 gramas de veneno liofilizado, aguardo pela pesagem de precisão deles.

Peço ao Dr. Francisco (presidente FUNED), que o eventual excedente daqueles 2,0 gramas combinados para a produção de soro sigam para pesquisa com Dr. Eládio Sanchez.

Correria doida, mas tá feito. E já estou com saudades. Muitas criaturas da noite em Serra Grande ...






























ENTENDA MELHOR ESSA POSTAGEM:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2014/11/brasil-de-cabo-ponta-rabo-inercia.html




segunda-feira, 6 de outubro de 2014

descobrimento

À partir da incursão de Colombo no Caribe em 1492, toda a costa norte da America do Sul passou a ser explorada. Muito provavelmente Vespucio, Hojeda e Pinzon, da Espanha, aportaram no litoral Norte-Nordeste brasileiro por volta de 1496-1499. Antes de Cabral.

Indo ainda um pouco mais fundo, observa-se uma lei de D. Afonso V, de 1470 (Porugal), que incluia uma reserva de mercado de 'tintas brasil' no comercio com a costa da Africa. O pau brasil do litoral de Vera Cruz gerava a tintura vermelha mais cobiçada na época, a da nobreza, e baseado neste documento, entre outros, autores trazem o conhecimento da costa brasileira por parte de Portugal para por volta do ano de 1470.

Naquela época, navegar era segredo de estado. Nem espanhóis nem portugueses podiam abrir o jogo sobre o que conheciam, nem onde aportavam.

O tratado de Tordesilhas (1494) era uma 'bula papal', um meridiano da foz do Amazonas à foz do Prata, que dividia o mundo entre os dois paises. Esquerda da linha (oeste) Espanha, direita da linha (leste) Portugal. Confira o mapa Gabriel: http://en.wikipedia.org/wiki/Treaty_of_Tordesillas

File:Spain and Portugal.png



Acontece que os navegadores daquelas épocas não conheciam LONGITUDE, só LATITUDE.  Latitude é o quanto se afasta da Linha do Equador, para norte ou sul, medida determinavel com os recursos tecnológicos da época: a direção no mar era dada pela bussola ou marineta de forma imprecisa até o seculo XV, pois não se conhecia a declinaçao magnétia, que é a variação em graus entre o norte geografio ou verdadeiro, e o norte magnético. Com o 'quadrante', ancestral do sextante, podia-se medir a altura da passagem meridiana do sol, e com esse dado, chegava-se à latitude com precisão relativa. Longitude é o quanto em graus se afasta do meridiano de Greenwich, para leste ou oeste, e só pôde ser determinada com o cronometro maritimo, em 1782. Só se determinou o meridiano de Greenwich e as longitudes exatas a partir desta data. OU SEJA, OS NAVEGADORES NÃO SABIAM EXATAMENTE ONDE PISAVAM, e isto poderia custar sua vida. Espanhol não pisava em reino portugues, e vice versa. Então, muitos movimentos destes navegadores não eram explicitos.

Assim, estariam Vespucio, Hojeda e Pinzon invadindo terra portuguesa quando supostamente aportaram na costa norte-nordeste do Brasil, bem antes de Cabral ? Muito provavelmente na cabeça destes homens experientes sim, e portanto a pouca publicidade.

A longitude de Porto Seguro (Monte Pascoal) não era precisamente estimada. Creio que daí veio a cautela e malandragem de D. Manoel de Portugal ao falar com os "Reis Católicos" da Espanha, em 1501, sobre a viagem do Cabral à Indias, logo após "achar" o Brasil. Em uma carta,  D. Manoel lhes fala de "homens de quatro olhos", "vacas com colares de ouro" e etc no caminho da esquadra para Sofala e Calicute, e quase nada sobre a tal acidental descoberta do Brasil, aparentemente com intenção deliberada de desviar a atenção dos "Reis Catolicos" para o lado oposto, presumivelmente dada à incerteza das coordenadas da terra brasilis.

Mas os mistérios desta época são maiores que as revelações. Por exemplo: a pior parte do mundo para a navegação, mesmo nos dias de  hoje e com barcos modernos, o Estreito de Magalhães, foi vencida por Fernão de Magalhães em 1513. Um dos sobreviventes desta expedição, Pigafetta, anotou em seu diario que aquelas aguas já tinham sido cartografadas por Martin Behaim, e que esta cartografia estava no "Tesouro do Rei de Portugal".

Estamos falando do portal da Antártida, de mares e ventos furiosos, e esta turma já tinha andado por lá antes de 1513. Então é dificil para mim Filhinho, acreditar em "acaso no descobrimento do Brasil por Cabral". Acho que já se andava por estas bandas, o Atlantico Sul, a muito tempo, e o tal descobrimento foi uma formalização, um ato de tomar posse, com um Portugal alarmado e respondendo aos espanhóis em sua exploração de Paria (Venezuela).

Esse tal Martin Behaim ainda vai dar muito o que falar, há estudos que apontam para a possibilidade de que ele tenha navegado com DIÔGO CÃO pelo terrivel Cabo das Tormentas, o atual "Cabo da Boa Esperança" no Sul da Africa, em 1484, ou seja, antes de Bartolomeu Dias, em 1488.

Resumindo e concluindo Filhinho, Espanha e Portugal de bôbos não tinham nada, brincavam de gato e rato com mapas imprecisos, mas com navegadores de uma capacidade técnica, força fisica e mental IMPOSSÌVEIS de medir. Pela sua tenacidade, considero-os UMA OUTRA ESPECIE DE HOMENS. Assim, não vejo acaso, mas estrategia, no 'descobrimento' do Brasil, e não sei nem mesmo se os portugueses foram os primeiros a aportar aqui. No fundo, acho que ninguem sabe.

"Na falta de fatos a historia é forçada às vezes a adivinhar os fatos. Nem sempre acerta"


"Assim parti, no alto mar aberto,
Só com uma nau e com a companhia
Pouca dos que jamais me desertaram"

Dante, " A viagem de Ulisses", L'Inferno, canto XXVI

A situação era a seguinte, meu irmão Amilcar, rezando dizia: "se eu escapar desta nunca mais ponho o pé num barco". Lá fora, o leme amarrado dando proa para as ondas, e o barco se virando sozinho. O mastro de 11 metros de altura muitas vezes varrido por ondas. Isso numa tempestade á noite no Atlantico, na metade do caminho entre Africa e Brasil, num barco a vela de fibra de vidro, de 11 metros de comprimento. É em condições como essas, que TODOS os marinheiros pedem aos céus para ter Shackleton ao seu lado e liderando: quando o fim parece próximo. Aos ingleses que tem se interessado pelo nosso trabalho, um abraço nessa homenagem ao Capitão.


Sir Ernest Shackleton, Antarctic Explorer
Sir Ernest Shakleton, explorador polar

Shackleton não era da terra. Fora dos barcos e longe dos camaradas, acho que devia se sentir como eu me sinto no Minas Tenis Club, onde a meta existencial parece ser uma barrriga tanquinho, e atração de olhares.

Seu sonho, seu foco, sua atração era o grande Sul, as altas latitudes polares, a Antartida. Mares e terrenos mais duros do planeta. E como disse no post da holandezinha, independentemente do preparo e do equipamento, se quizer, o mar nos engole. E foi o que aconteceu, mas nenhum homem se perdeu, porque Shackleton estava lá.

A historia do "fracasso" foi infinitamente mais gloriosa que do eventual "sucesso" na expedição. Impossivel tentar descrever o sentido real da palavra SOBREVIVER no limite extremo:
http://www.youtube.com/watch?v=qj0fAYiY09A

Melhor indicar a leitura de "Endurance", tambem em portugues (Companhia das Letras) com fotos originais de Frank Hurley:


The Endurance by Caroline Alexander



'Endurance' ou 'resistencia', me inspirou a escrever o artigo abaixo, em que falo da persistencia necessária para chegar ao ponto de merecer os comentários de Mark O'Shea e Dean Ripa, no post anterior a este:

http://www.lachesisbrasil.com.br/download/BulChicagoHerpSoc_Vol44Num6pp85-86%282009%29.pdf


Só que comigo não teve a experiencia mistica do terceiro companheiro, que até inspirou Eliot, em "The waste land":


Who is the third who walks always beside you?
When I count, there are only you and I together
But when I look ahead up the white road
There is always another one walking beside you

ou

Quem é o outro que sempre anda a teu lado ?
Quando somo, somos dois apenas, lado a lado,
Mas quando ergo os olhos e diviso a branca estrada
Há sempre um outro que a teu lado vaga

(Em tradução de Ivan Junqueira, "A terra desolada" Poesia, T.S Eliot Ed. Nova Fronteira, terceira edição, de 1981)

A existencia do Nucleo Serra Grande tem sido uma experiencia solitaria, onde amigos entram e saem, ajudam e se afastam, mas eu permaneço, pela resistencia: