Postagem em destaque

INDICE AO BLOG NSG E À BIBLIOTECA VIRTUAL LACHESISBRASIL BASEADO EM BUSCAS ESPECÍFICAS

OBSERVE POR FAVOR QUE A MAIORIA DOS LINKS SÃO AUTO EXPLICATIVOS, E CONTÉM INDICAÇÃO DE CONTEÚDO ANTES MESMO DE SUA ABERTURA: 1) SOBRE ...

sábado, 18 de abril de 2015

Quatro anos sem Luke



Há exatos 4 anos (17 de Abril de 2011), Luke escrevia a alguns amigos, com entusiasmo incontido.

Seu sonho, um santuário para as lendárias 'King Cobras' (Ophiophagus hannah) havia se materializado. Era hora da festa.

Todos os que receberam esta mensagem abaixo estavam convidados por Luke e a mulher Nicole, para 'um vinho até a madrugada ...', numa fazendinha na Inglaterra, para conhecerem - antes da abertura ao publico - o sonhado local onde os animais cativos serviriam de 'embaixadoras' para 'as primas', ameaçadas de extinção no sudeste asiático e Índia, por perda de habitat.

A ideia era educar, dominar reprodução em cativeiro, e levantar fundos a serem revertidos na preservação destas cobras, comprando terras e criando reservas. O mesmo sonho do Núcleo Serra Grande.

Abaixo a mensagem original:

On Sun, Apr 17, 2011 at 7:34 AM, <ophiophagushannah@hotmail.co.uk wrote:

The King Cobra Sanctuary is "Officially", not only as a king cobra (Ophiophagus hannah) research and captive breeding facility, but also because of our focus on education and fund raising, using our captive kings as 'Ambassadors' for their wild cousins, to support conservation projects for King Cobras in their natural habitat. Opening our doors to visitors on Saturdays and sundays. See our web site www.kingcobrasanctuary.com for more information. Luke and Nicole Yeomans would be honoured if you will attend our opening 'party' and tour of the new facility, on Saturday May 21st 2011 at The King Cobra Sanctuary. Brookhill Leys Farm. Eastwood Notts NG163HZ UK. More 'formal' events will be in the afternoon (exact time to be confirmed) and for the many of you who enjoy swapping "snake story's" etc, The Wine (or drink of your choice) will flow till the small hours. This is an invitation only event though everyone receiving the email from me has a +1 please contact me  if you would like to bring more than one guest. You will be emailed again nearer to the event with more details but can you please inform me asap if you can attend (an email or SMS would be preferred).  Very much looking forward to seeing you and showing you the new  facilities.

Luke Yeomans. 00447896531871

Sent using BlackBerry® from Orange


A abertura do santuário ao publico em geral se daria em cerca de dois meses após essa festa. Dias antes daquele sonhado final de semana, Luke foi picado, e faleceu.

Confira o caso, em 42 segundos: http://www.bbc.co.uk/news/uk-13968581

Confira nosso trabalho na BBC: http://www.bbc.com/news/magazine-24396013

E o que tirar de uma grande tristeza ?

Abaixo, DE NOVO, o abstract do excelente "Snakebite in herpetologists", de Covacevich e Richardson, no Australian Medical Journal:

OBJECTIVES: To define the risk of snake envenomation in herpetologists, assess factors which lead to their being bitten, assess their occupational morbidity and propose preventive stratagems. SUBJECTS AND DESIGN: Interview of 14 of the most experienced professional herpetologists in Queensland; and questionnaire to 14 members of the Cape York Peninsula Herpetological Society, Cairns, Queensland. RESULTS: The 28 herpetologists had sustained 119 bites by potentially dangerous species, and hundreds of clinically insignificant bites. Seventeen had been admitted to hospital. Only five had never been bitten by a medically dangerous snake and 14 had been bitten on two or more occasions. Correct first-aid techniques were applied in less than half the bites. Two had permanent morbidity--renal damage, and permanent tissue damage to the hands. Anaphylactic reactions from the repeated use of antivenom did not occur. The experienced herpetologists sustained a life-threatening bite every 10 years (median). 

CONCLUSIONS: Herpetologists working with highly venomous snakes are at high risk. Prevention involves recognising the risk; possessing a first-aid certificate; applying standard first-aid if a bite is sustained; carrying a mobile telephone; and not working alone.

Luke certamente 'reconhecia o risco' mas baixou a guarda, quebrou a regra de ouro e perdeu a vida, trabalhando sozinho.


Abaixo Rob Carmichael, com uma King albina:






Para se ter uma ideia dos riscos envolvidos nas atividades do Núcleo Serra Grande, concluo com um parágrafo deste experiente herpetólogo, em comunicação pessoal:


"As far as safety goes, I never work with these snakes unless I am 100% focused and alert. I keep many elapids (including king cobras), bothrops, crotalines, etc. but nothing strikes more concern in me than these bushmasters. I fully know that a bite could end my life which is why when I work with the bushmasters, I don't work with any other snake that day....I want to make sure that I am ready, focused, relaxed and ready for anything. So far, I have found the bushmasters to be amazingly calm and wonderful animals, however, I also have experienced first hand the full wrath of this species.... Even a 16' king cobra coming full steam at me didn't scare me as much as a 8' bushmaster in full "I want to kill you" mode did a year ago. It made me completely re-think my strategies and safety procedures when working with them. But, for the most part, they have been very easy going and I think staying calm, deliberate and keeping movements slow and always working on the bushmaster's terms is the best course of action"


'NEM MESMO O ATAQUE A TODA FORÇA DE UMA KING COBRA DE 5 METROS ME ASSUSTOU TANTO QUANTO A AVANÇADA QUE LEVEI DE UMA SURUCUCU DE 2,40 METROS, A UM ANO' .... 'ESSE EVENTO ME FEZ REPENSAR COMPLETAMENTE MEUS PROCEDIMENTOS DE SEGURANÇA' ... 'VOCÊ TRABALHA COM SURUCUCUS NOS TERMOS DELAS, E NÃO NOS SEUS' ...



Leia também:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/08/em-memoria-de-emanuele-gallmann.html










segunda-feira, 13 de abril de 2015

Um dos Ciclos de Lachesis





Noticias do mundo verde. Aferição de termômetro postado na mata, com registro contínuo de temperaturas máxima e mínima no Núcleo Serra Grande, durante o período de 12 meses. Informação importante, e que pode guiar climatização artificial em outros serviços.












Em natural território de Lachesis, água, sombra e luz indireta geram médias entre 17,5° - 28,5° C.

Local para se olhar bem onde pisa, por vezes o raio de luz que atravessou as copas, fugaz, é tudo o que te separará de um acidente ...














terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Só pra contrariar





Anonimo solta essa: '... chato você, do contra, carnaval, Canudos, samba, descobrimento, Lula ...' + '...' + '...' + '... '

Grato pela visita, e vamos lá. Conteste objetivamente para que o debate não fique vago: que linha mereceria retoque na postagem de Canudos ? Qual seria sua argumentação para rebater a minha, na questão da intencionalidade ou não do 'Descobrimento' ?

A quem interessar possa, a questão de Canudos está aqui:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2013/11/diego-zamudio-e-greene.html

E a questão do 'descobrimento' do Brasil, aqui (no meio da postagem, mapa mundi como referencia):

http://lachesisbrasil.blogspot.com/2014/09/caa-ete.html


E no mais, gosto e opiniões, não escuto samba nem coisa alguma, nada bate o silencio, mas me comovo com Candeia / Cartola https://www.youtube.com/watch?v=XB8kk-8nmSw e não pela fé, mas pela arte, também me emociono com Jorge Aragão https://www.youtube.com/watch?v=v97YvRmD_Yo onde até essa coisa difícil do amor romântico parece claro e simples https://www.youtube.com/watch?v=OecgJ9j4Q5c 

Confirmo a falta de estomago para a mitologia ufanista, e já que você cita Santos Dumont e Lula, aí vai mais do mesmo, a começar por Dumont: não, ele não foi o 'Pai da Aviação'. Isso (o titulo) é coisa do Estado Novo e de Henrique Dumont Vilares, seu sobrinho. Porque meio mundo cita os irmãos Wright como pais da criança ? Demorou, mas consegui responder satisfatoriamente a questão para mim mesmo.




O desafio da época: quem teve a primazia do voo com um aparelho mais pesado que o ar, sem auxilio externo, isto é, utilizando meios de propulsão e deslocamento existentes no próprio avião ?

Por 'mais pesado que o ar' entenda-se aviões, por 'mais leve que o ar', entenda-se balões.

A cronologia desta conquista do ar foi mais ou menos assim:

1) A primeira decolagem de um avião tripulado, motorizado e com asas fixas, impulsionado ladeira a baixo, deu-se em 1874 em Best, na França, com Felix du Temple.

2) Otto Lilienthal testa planadores de desenho eficiente na Alemanha, em 1896. Acaba morrendo a seguir, num deles.

3) Orville e Wilson Wright, em 1901-1902 na dunas de Kitty Hawk, North Carolina, fazem testes com planadores sem motor.

4) Em 1902 e 1903 os irmãos Wright fabricam seu motor e hélice e iniciam de fato suas experiencias.

5) Em 13 de dezembro de 1903, com os irmãos Wright ocorre o tal primeiro vôo da historia, pela ótica dos americanos.

Os detalhes sobre esse voo:

1) Os Wright criaram um motor pesado, de 108 Kg com potencia de 15 cavalos. Uma relação 7 kg/cavalo. Na França existiam motores com a relação de 2 kg / cavalo.

2) O avião do Wright não tinha trem de aterragem e decolagem. Se tivesse seria ainda mais pesado e problemático.

3) No tal voo, depois do motor acelerado, o avião foi lançado num trilho do alto de um declive, as dunas de Kitty Hawk. Segundo um telegrama que enviaram ao pai, o avião atingiu sustentação quando a velocidade em relação ao ar atingiu 31 milhas por hora: 10 milhas / hora, resultantes da potencia do motor, e as outras 21 milhas / hora eram o vento local. O voo durou 57 segundos.

4) Sem o vento constante de Kitty Hawk, e sem o lançamento da colina, este voo não seria possível.

A partir  de 1904, o Flyer II dos irmãos Wright passou a contar com uma catapulta para tentativas de decolagem.

Na França em 1905, o brasileiro Alberto Santos Dumont, já lendário e premiadíssimo em função de seu sucesso com os balões dirigíveis, iniciava a concepção e construção do "aeroplano".

Em 12 de dezembro de 1906, no campo de Bagatelle e sob a fiscalização do Aeroclub da França, o aeroplano 14 Bis, pilotado pelo próprio Alberto, valendo-se de um motor Lavavasseur de 24 cavalos pesando 45 kg, e contando com trem de pouso e aterrissagem, alçou um voo de 220 mts com duração de 21 segundos e 1/5, em dia sem vento. Ou seja, decolou e posou sem auxilio externo, com um a parelho mais pesado que o ar.

Em 1908 os irmãos Wright fizeram demonstrações na França utilizando a catapulta.

Em 1910, em Bagatelle, o Aeroclube da França erige uma homenagem 'ao primeiro recorde de aviação do mundo'. E em Saint Cloud, em 1913, o mesmo aeroclube instala um Ícaro de bronze tendo no pedestal a inscrição: "Santos-Dumont, pioneiro da navegação aérea"

Da controvérsia Irmãos Wright - Santos-Dumont, tendo como base a premissa de 'voar sem auxilio externo, utilizando meios de propulsão e deslocamento existentes no próprio avião', conclui-se que o brasileiro chegou lá antes. Se a questão é o voo em si e o design definitivo, onde asas "sugam o ar para cima", gerando a sustentação e capacidade de manobra, os Wright levaram.

Abaixo, registros originais, para que você mesmo conclua:

https://www.youtube.com/watch?v=ro5wkljLn7k

https://www.youtube.com/watch?v=Wfyvspnko04
  

Pelo acima exposto, não acho que Dumont tenha sido 'pai' de nada, e sim mais um elo da corrente que, da Renascença e os esboços de da Vinci, aos tantos outros pioneiros supra citados, resultou no que temos hoje nos ares.





Como a 'Marcha para Oeste', essa não foi jornada de um homem só. A quem interessar possa, a Marcha para Oeste, abaixo:

http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/03/marchando-para-oeste.html 


E concluindo, quanto a 'Lula' que você também cita, é só uma questão de honestidade. Não sou referencia de nada, mas não me nivelo pelo entorno politico atual.

A quem interessar possa, Lula foi citado aqui:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2015/02/minha-primeira-vez.html 

E nas paginas 22 e 23 do meu Catecismo (quando ele tinha 90% de popularidade e estava próximo da canonização), aqui:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/01/fundei-uma-religiao.html


Existem momentos em que se tem que mostrar a cara, partir para a dividida, como fazia outro brasileiro que você não conhece caro leitor, Almir Pernambuquinho, o 'Pelé Branco.







Quando o jogo é desleal (como o desse Brasil de hoje), quando é hora de partir para o pau, todo vascaíno ou flamenguista com mais de 50 anos de vida se recolhe em pensamento:

 ' ... ah se Almir (ou a coragem) estivesse em campo ! ...'


Aguardo seu retorno.

Abraço,

R






sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Os Feras e eu




Um dia (24 horas) de trinta corpos no IML de Belo Horizonte, a maioria jovens, e a certeza de que começou essa merda de novo, a tirania da 'alegria'.






Me sinto tão peixe fora d'agua nesse ambiente festivo quanto num 'Premio Nacional de Biodiversidade' do MMA, onde fui inscrito por uma leitora do blog. O carrasco propondo abraço ao enforcado. Se há uma palavra para classificar o Ibama nestes 12 anos de esforços em Serra Grande, essa palavra seria 'HOSTIL'.

Olho para a capa do Eddie acima e me lembro de uma outra, e de um outro. O outro é a 'alma sebosa' travestida de respeitável cientista, que conspirou pelos animais de Serra Grande, e que vendeu veneno de surucucu misturado com Tang - aquele suco artificial em pó também amarelinho - ao Sr. Marcio Maruyama do extinto instituto San Marú, maculando sua reputação entre os compradores alemães quando a eletroforese detectou 'glicose' (em doses risíveis) na peçonha. A outra (capa do Eddie) que esse outro (bandido) me lembra, é essa abaixo, 'O Fera'.






Pra quem não conhece o glorioso Eddie (Olinda, Pernambuco, Brasil) aí vai a amostra grátis, mas antes aumente o som:




Com a realidade da sequencia brutal de plantões em todo o carnaval pela frente, e sabendo o que vou ver estes dias, empreendo fuga e como certas drogas que provocam alheamento, as cobras vem e me salvam de novo, num teletransporte para outro mundo, mais claro.

O mundo em si já é pequeno demais para elas e para todos os outros viventes que não nós, os inteligentes. É o que leio na elegantíssima revista da FAPESP, gentilmente enviada por Carlos Fioravanti, autor de matéria em que sou citado e que retrata um trabalho de campo de quatro décadas, cujo fechamento é coordenado por Cristiano Nogueira (MZ-USP) e de onde se conclui: 'se não agirmos agora, em 20 anos não haverá mais o que preservar' ...










E tome-lhe mais teletransporte ... Polly Matzinger me manda email (hoje 12/02) perguntando:

'when the snake strikes, its venom does not get injected IV,  it's probably sub Q or I.M.  so what happens if you inject a tiny amount that way, repeatedly?'

(o que acontece num organismo quando pequenas quantidades de veneno de cobra são injetadas no subcutâneo ?)

Meu impulso é responder: 'te preparam para um choque anafilático no caso de acidente verdadeiro', sempre lembrando-me do Emanuelle Gallman, e tantos outros ..



Mas aí vem as incertezas que a idade nos trás, e lembro-me de outro leitor do blog, um canadense que me escreveu do Japão, e que fez em si 47 inoculações de veneno diluído (de uma cobra japonesa, Gloydius blomhoffi) ao longo de um ano, buscando a construção de uma imunidade que tornaria inofensiva, sem efeito, uma picada verdadeira (inoculação real, volumosa e sem diluição) dessa mesma cobra. Abaixo seu email:

Hello Mr.Souza!

My name is Edwin Snell, I am a Canadian living in Japan.

I love conservation and nature.  I never got the eduction for that type of work, but I always wanted to do it.  I should have tried harder!

Now I just make my money teaching English (and conservation ideas!!) and donate money to nature organizations.

In Japan we have gloydius blomhoffi, the Japanese mamushi.  I keep several actually, because many people here put them into alcohol (the way they do it is horrifying actually)

I actually do self immunization with mamushi venom.  If I am bitten, there are no serious effects, only local swelling (gone within a few days)

Do you have a facebook account?  I would love to keep in contact with you!!

Sincerely,

Edwin


Respondi alarmado que carregasse consigo adrenalina ('Epi-Pen', ou caneta de epinefrina), sugestão acatada mas o experimento continuou, e quando ele permitiu a picada verdadeira, sintomas mínimos aconteceram.

Em Davos, na Suiça, um brilhante casal de cientistas turcos, Cezmi e Mubacel Akdis, acompanha (como imunologistas) o manejo de abelhas, e já detectou que no começo da estação os criadores reagem fortemente às picadas, ao contrario do que se verifica no final da estação, onde o veneno dessas abelhas parece nem mais fazer efeito. 

E o que dizer de Tim Fried, que alega auto imunização (100 doses) com veneno de mamba, e posterior exposição voluntaria a uma picada verdadeira (de mamba, cuja DL 50 indica que mataria elefantes), com efeitos mínimos ...

'FREAKS', o antagonista assopra em minha orelha, 'NOT QUITE', assopra a outra metade do individuo sem certezas, que ao contrário daqueles jovens do IML teve a oportunidade de emplacar 52, ou seriam 53 anos ?

Tudo isso para chegar a uma questão: se o corpo cria, e sustenta níveis altos de anticorpos capazes de fazer frente a uma quantidade brutal de antígenos como aqueles dos venenos de cobra, haverá um dia vacina contra estas picadas ? Contra essa 'questão negligenciada de terceiro mundo' ? :  http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/01/preto-no-branco.html


E sigo pelo fascínio da imunologia. Escrevi há alguns dias que Denise Tambourgy, na esteira de Marco Stephano, identificou a proteína que responde pela ação imunossupressora no veneno da surucucu. Não se fala no assunto no Brasil até que haja a publicação do trabalho e a patente dessa proteína, com efeitos tais comparados por uma fonte à ciclosporina. Entendo o sigilo, há décadas de esforços e muito dinheiro aplicado e com retorno potencial em jogo, mas não entendo o porque da maioria dos especialistas brazucas não darem a minima para o baixo clero ao qual pertenço.



Sobre o tema acima, efeito imunossupressor no veneno da surucucu, enviei algumas perguntas aos quatro únicos cientistas tupiniquins que poderiam responde-las:

1) qual seria o sentido evolutivo de um componente desses na peçonha ? em se pensando peçonha como forma de dominação de presa, que utilidade teria um efeito imunossupressor (lento) no episódio agudo do envenenamento ?

2) como se quantificou, que testes foram usados, para a detecção da ausência de resposta imunológica de alguns dos cavalos inoculados ?

3) é correto pensar que a apoptose advinda dessa inoculação, mesmo em dose baixa, traria resposta imunológica voltada não só à toxina em si, mas também contra os tecidos minimamente destruídos, o que geraria algum pico, por exemplo, de anticorpos anti-DNA, ou anticorpos contra outros componentes intracelulares ?

4) nessa linha acima (3), não seria de se esperar que a quantidade de antígeno liberado pelas células mortas seja muito maior que pela toxina ?  o sistema imunológico foi iludido ? ou responde a outra agressão ?


Não obtive resposta, de nenhum dos quatro, nem mesmo aquelas monossilábicas de sempre.


Dean Ripa, incrédulo quanto a alguma ação imunossupressora no veneno da surucucu questionou minha postagem, dizendo: 'como nada disso foi verificado nos cavalos do Instituto Clodomiro Picado ?' (Costa Rica)

Não sei se os cavalos da Costa Rica reagiram de forma diferente. O que sei é que o time 'nata da nata' de Dr. José Maria Gutiérrez também trabalha em cima desse efeito do veneno da surucucu, como ele mesmo me disse ontem, e foi além, transformando minhas quatro perguntas em uma, e me conduzindo ao entendimento com a clareza e humildade (sim, ele perde tempo comigo) dos verdadeiros Mestres:


Hi Rodrigo:

There are proteins in snake venoms which induce some effects that do not play a role in envenoming. It is like a coincidental phenomenon not necessarily selected through evolution. In this case, I would bet that this imunosupressant protein has another role in envenming and exerts this effect on the immune system. There are several examples in venoms of this situation. For instance, it might well be a protein that interacts with receptors in cell mebranes and elicits intracellular effects which, in the case of lymphocytes, inhibits their activation. I am curious to see what kind of protein is this and what is its mechanism of action. Marco Stephano showed that the venom of Lachesis reduces the imune response against various antigens, for instance red blood cells. The reason why it would work in some species and not in others may have to do with specificity against receptors of some species. But all of this is mere speculation until the information is published or disclosed.

Best regards,

José María


Ou destrinchando:

1) existem proteínas nos venenos que não tem função ('play a role') nos eventos do envenenamento em si

2) nem todos os fenômenos evolvem ('are selected through') da evolução

3) 'eu apostaria que esse proteína teria outras funções que não as relacionadas ao sistema imunológico'


E assim pude seguir adiante, com outras novas perguntas em mim, e respeitando mais ainda aqueles viventes complexos da Serra Grande, para onde sigo de volta no dia 28 próximo, atendendo a uma reunião caída do céu recentemente e que pode garantir o futuro do Núcleo, para além da inercia dos burocratas. É Mateus 6 de novo em minha vida de homem sem fé:


25 Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário?
26 Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?
27 E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?
28 E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;
29 E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.
30 Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?
31 Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos?
32 (Porque todas estas coisas os gentios procuram). De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas;
33 Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
34 Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal. 







quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Abade estava lá




Perdi meu Mestre, tem surucucu no céu. Buraco na rodovia federal, pneu furado, capotamento, Brasil. José Abade me ensinou o principal: o bicho é frágil. Morreu aos 54 sentindo-se 'sem reconhecimento', como me falou um dia.

Não aqui no blog:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2010/12/os-essenciais-2-jose-abade-da-ceplac.html

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2013/10/sobre-o-o-extrativismo-de-colarinho.html






Dylan Thomas - abaixo em tradução de Mauro Faustino - explica que quem escreve, o faz pelo coração do leitor.

Se em meu ofício, ou arte severa,/ Vou labutando, na quietude/ Da noite, enquanto, à luz cantante/ De encapelada lua jazem/ Tantos amantes que entre os braços/ As próprias dores vão estreitando —/ Não é por pão, nem por ambição,/ Nem para em palcos de marfim/ Pavonear-me, trocando encantos,/ Mas pelo simples salário pago/ Pelo secreto coração deles

Dia desses recebo a mensagem abaixo. Na integra, negrito da autora:

De antemão, peço desculpas pela extensão do email.

Bom, primeiro a apresentação: J, X anos, amante de répteis e outros animais e como a maioria das pessoas que te escrevem, admiro muito o seu trabalho com as Lachesis e não somente, como médico.

O motivo desse e-mail, o qual levei dias para terminar de escrever e mandar, é o seu último post no lachesisbrasil, "Nossos votos, em tempos de plantar, em tempos de correr", o qual tem me incomodado desde que li, provavelmente há mais de uma semana.

Sou leitora do seu blog há algum tempo, um ano ou mais, mas sempre fui uma daquelas fantasmas, que só lê, admira, concorda ou discorda e não comenta.

Nesse tempo, foram vários os posts que você esteve realmente muito puto com seja lá quem ou o que, desde homeopatia até acusações falsas. Porém, creio que nunca houve esse momento em que você disse 'ok, é o fim da linha, desisto'.

E eu me pergunto, porque diabos iria dar certo você desistir. Você falava em programas de estágios e ensinava um menino de 14 anos a extrair e liofilizar veneno há algumas postagens atrás. Não lembro quando, só lembro que houve uma época que pimpolhavam cartinhas de herpetólogos famosos te apoiando. Uns posts sobre cento e poucos países que visitam um blog de um 'médico fracassado' etc e tal. Em que lugar se tem um pesquisador assim? Que se dispôs a criar um plantel e uma linha de pesquisa maravilhosa com lachesis e fazer tudo certinho, em ordem, sem nunca ter usufruído de uma teta da CAPES/CNPq como a maioria dos pesquisadores faz? E vamos perder um guerreiro desses para a merda do IBAMA? É, me exaltei. Porque ao mesmo tempo que te dou toda a razão para desistir acho a maior besteira. Seus filhos têm um ótimo pai e você está certíssimo em pensar no futuro deles (É bem provável que eu te admire mais como pai desses dois meninos sortudos do que como pesquisador e médico). Eles têm a mesma diferença de idade que eu e minha irmã temos e eu sei o quão sofrido é e foi para a minha mãe nos criar, ainda mais nessa fase X - Y anos. Sei também o quanto eles vão te encher o saco para torrar teu dinheiro seja com coisas fúteis ou com o futuro. E essa grana investida no NSG vai fazer uma puta diferença. No entanto, o fim do NSG, também vai.

Eu não sei bem qual o objetivo desse email, na verdade. Porque não te conheço, entretanto, você me parece uma daquelas pessoas bem chatas que quando colocam uma coisa na cabeça é difícil tirar (veja bem, isso é um elogio). Eu trabalhei como voluntária dentro de um CETAS em XXXX e vi só a pontinha do iceberg que é a morosidade e incompetência do IBAMA. São já treze anos de desserviço com o NSG. Portanto, honestamente, não acredito no potencial de sair a liberação em um semestre. Se os caras querem te ferrar eles vão, ainda mais agora que você deu a corda para eles te enforcarem.

Só que se o NSG deixar de existir, porra, um trabalho único com as Lachesis vai deixar de existir. Só você sabe que ninguém no mundo (nem a mãe natureza) conseguiu manter lachesis tão gordas, bonitas, e saudáveis como o NSG. Você desenvolveu teus próprios métodos de contenção, de reprodução e cuidados extras. As várias publicações com o veneno da lachesis. Teu trabalho foi reconhecido por pesquisadores, especialistas, institutos de diversos lugares do mundo... Vital Brazil, Renctas, Funed, ad infinitum. Enfim, eu não preciso ficar falando as inúmeras conquistas do NSG porque elas são as tuas conquistas, porque quem fez acontecer foi você.

Sei lá, eu olho para tudo isso e vejo que antes de desistir dava para se tentar mais um pouco. Só para encher o saco do IBAMA, entende? Quem sabe montar um programa de estágio lá no NSG cobrando a estadia. Tem tanto louco querendo ir pra lá, aposto que pagariam para dormir em barraca e acordar com surucucu no pé. Ou quem sabe procurar uns patrocínios internacionais de redes filantrópicas, ou no mais desesperador final, vender umas camisetas com surucucu na frente (são 5000 acessos no blog por mês, não são?). Não sei, Rodrigo. Juro que se eu tivesse dinheiro, ou ganhasse na mega-sena, eu não hesitaria em ajudar o NSG

Enfim, você já leva 'Cançado' no nome, eu imagino o motivo, e só estou aqui te enchendo o saco pedindo para não desistir das últimas surucucus do Brasil só para sambar mais um pouco na cara do IBAMA.

Por último, de um post seu perdido:

"...E um dia uma sucuri enorme encalhou na praia, no centro da cidade, e eu a resgatei. E o povo viu e gostou e passou a contar comigo quando bichos perigosos assustavam. Fui a pessoa certa, na hora certa, sem planejamento. E da lacuna do Estado para resgate de fauna ameaçada cheguei às surucucus, e as compreendi como ninguém, e mergulhei na Lei e na burocracia para dar-lhes vida, e assim seguem-se 11 anos emplacando um dia de cada vez, em meio a tantos riscos e custos."

Se você chegou a ter tempo de ler esse email cheio de erros gramaticais e frases desconexas, obrigada por tê-lo feito. Sei que não tenho a autoridade ou importância das pessoas com quem você geralmente mantém contato, muito menos a idade da sabedoria, mas ainda assim resolvi mandá-lo por pura necessidade da consciência.

Se realmente chegar a desistir do NSG (ou não!) ainda assim, acho que como brasileira e admiradora das lachesis, posso e devo agradecer, do fundo do coração, por todo o seu trabalho e esforço realizado para salvar as últimas surucucus da Mata Atlântica.

Sinceramente,

J


Euclides da Cunha via metafisica e missão no escrever. Em uma carta a Alberto Rangel de 20/03/1905, dizia: '... tenho a crença largamente metafisica de que nossa vida é sempre garantida por um ideal, uma aspiração superior a realizar-se. E eu tenho tanto que escrever ainda ...'

Dylan Thomas e Euclides da Cunha embolados em mim. 'Missão' é algo que cheira à arrogância. Como se uma força superior tivesse algum/alguém como 'o escolhido' para algo. Entendo melhor acaso, oportunidade, vontade, trabalho e persistência no tempo. Quanto à 'metafisica', estranho e improvável que eu acabasse vivenciando o tal ÁGAPE, no retorno (preocupação) de uma leitora (acima) de um blog sobre a preservação de uma cobra especifica.


Passei 15 dias no mato, e só ao voltar soube da dimensão da 'crise' da água em Minas e Rio e não mais em São Paulo somente ... aquela mesma água e seus humores variáveis, que foi a grande graça destes dias.







Como está sendo ocultado um aumento de 226% no desmatamento amazônico (em 2014), e com isso a atmosfera tende a ficar cada vez menos úmida, triste pensar que é chegada a hora de dar adeus à fartura. Importante ressaltar contudo, que não é somente a desertificação do Norte brasileiro a responsável pelo baixo registro pluviométrico recente no Sudeste, zonas de alta pressão atmosférica no território brasileiro tem impedido a entrada de frentes frias, e para muitos este tem sido o fator determinante para a ausência de chuvas, confira:

http://epoca.globo.com/ideias/choque-de-realidade/noticia/2015/03/seca-bnao-vemb-da-amazonia.html





Entenda melhor a atual 'crise' hídrica, na verdade um evento previsto, com advertencias formais que remontam à 2003:

http://sustentabilidade.estadao.com.br/blogs/dener-giovanini/crise-hidrica-que-crise-nao-existe-nenhuma-crise-hidrica/ 

Saiba mais do porvir:

http://brasil.elpais.com/m/brasil/2014/08/14/sociedad/1408010925_555437.html
http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2014/09/caa-ete.html


Em Serra Grande tenho reproduzido os ensinamentos de Ernst Goetsh e me movo em sentido contrario à essa tendencia de suprimir a vegetação, pensando na preservação de nossa nascente. Objetivamente, e valendo-me de mudas a R$ 1,00 na região, construo no momento, do zero, uma floresta (experimento agroflorestal) de 1 hectare. em solo pedregoso. Do ponto de vista psicológico, isso me indica que pretendo persistir para além das minhas palavras.

A floresta que construo é 'catada a dedo', e vai mostrar seu rosto em 10 anos, cheia de celebridades. Jabuticabeira Sabará, 'dama-da-noite' (pelo perfume), cedro rosa australiano (que o homem extinguiu), meu cedrinho do Caraça (agora 'pego', e com dois anos), sessenta especies de arvores frutíferas (no estrato de sete metros). Estratos são niveis de altura das copas numa mesma floresta. Estrato superior: arvores 'de lei' de crescimento rápido (como o cedro rosa) e que chegam aos 30 metros de altura, estrato médio (o das frutíferas de até sete metros de altura), estrato inferior (frutíferas baixas, tipo pitanga, mangostão, café, e todo arvoredo nativo que surja espontaneamente), e a 'placenta', que é o solo em si, e que recebe aipim, feijão de corda, amendoim, raízes uteis, fixadoras de nitrogênio. Nada mais é queimado. Tudo o que é orgânico é deixado em decomposição, em transformação para terra vegetal. A pessoa de quem comprei os 4 hectares do NSG era carvoeiro, não precisa explicar muito o que comprei.

Aí a noite cai. E a noite é das surucucus, e tudo fica melhor em Serra Grande. Tem um aspecto de sonho em tudo isso.






Nasce o dia e observo que a mata respira .... Hora da lida.






Técnicos experientes (Ibama) que presenciaram meu manejo alarmaram-se ao ver o tamanho (e tipo) dos ganchos que uso para Lachesis: 'mas é com isso que o Sr. vai entrar aí ? (dentro do viveiro)' ...

Sempre esperam laços de 3 metros de comprimento, importados, mas nunca isso (abaixo) ... 70 - 80 cm de humildade tôsca ...





O pequeno artefato nos permite 'esgrimar' se for o caso. Certa vez tirei uma cobra a 30 centímetros do peito de um grande herpetologista - totalmente vendido no movimento rápido e inesperado da surucucu - graças à agilidade que essas varinhas permitem.

Blusão de couro, perneiras até virilha, o restante da indumentária lembra aquela dos vaqueiros da caatinga, meus filósofos favoritos em seus aboios... 'Meu cavalo morreu ontem, minha mulher no outro dia, do cavalo tive pena, da mulher tive alegria. Pôs cavalo bom é dificil e mulher ruim tem todo dia!!!'





Olhando para o 'octógono' (abaixo) depois do pau quebrar (vermifugar, ou enfiar à força um comprimido na goela de todas as cobras), uma sensação de acerto na singeleza do projeto. Espaço para fugir (eu). Mesa de manejo bruto. E o grande, essencial Bushamp ... 'você é burro papai, devia ter patenteado essa merda ... ' disse Luquinha.







Quem diria que minutos antes ocorria aqui aquele raro instante em nossas vidas, o do foco total, necessário para aplicação de rifampicina spray numa barriga sob ataque bacteriano ...






.. ou à pesagem de um brutamontes de 8,290 quilos, que não entrou espontaneamente nessa caixinha ...






E deu tudo certo mais uma vez, porque 'reconhecemos o risco', e porque Abade estava lá. E deu mais certo ainda porque temos algo novo sob o sol a apresentar, a colocar em discussão. Explico.

Ao me convidar para escrever o capitulo 'Acidente laquético' de seu livro, Dr. João Luis Cardoso pediu: 'não quero revisão de revisão, quero sua experiencia'. E dessa solicitação de risco de Dr. João, surgiu muita coisa nova na clinica dos envenenamentos. Enquanto isso, em 'revisões de revisões' (um autor escrevendo baseado em outro, sem acréscimos da experiencia prática), um chavão permanecia intocável: 'a fraca potencia do veneno é compensada pela grande quantidade injetada'.

Sobre a 'fraca potencia do veneno', já falei aqui: http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2013/09/a-mais.html

Sobre a 'grande quantidade injetada' falo agora: é mito. Mesmo dos maiores exemplares dificilmente alguém conseguirá extrair mais de 2,0 ml de veneno. Grandes Bothrops jararacuçu frequentemente liberam 5,5 ml numa extração, podendo chegar aos 6,7 ml. A media de veneno extraído de Lachesis adultas não ultrapassa a 1,0 (hum) ml por individuo.






Falar de veneno, de picada de surucucu, é falar em dor. Dor local violenta, equivalente a sucessivas 'batidas de porta' de um carro na sua mão (se a mão foi o local atingido pelo bote). Temos alimentado essas cobras com ratos vivos, para que elas cacem, se exercitem, e não percam a vitalidade em cativeiro. Fica a questão ética da dor que esses ratos sentem, e o encaminhamento das soluções.

Rato congelado por três meses tem carga parasitaria próxima de zero. Aos poucos estamos migrando para essa linha: abate indolor por câmara de CO2, vide abaixo ...




... e congelamento de indivíduos de 20 e 45 dias (foto) de vida por três meses, aquecimento em microondas e oferta às surucucus ...





Outra questão encaminhada no NSG foi a questão da segurança no manejo em túneis que oferecemos às cobras. Imitando a natureza, intuímos que falsos buracos de paca e tatu deixariam as surucucus mais confortáveis, isso a dez anos atrás. A intuição se confirmou e a primeira reprodução em cativeiro do mundo da surucucu da Mata Atlântica ocorreu em 2007, graças a esse artefato.

Confira: http://www.lachesisbrasil.com.br/download/BulChicagoHerpSoc_Vol42Num3pp41-43%282007%29.pdf


Abaixo o viveiro (hoje peça histórica do NSG) onde se deu essa reprodução. Observe entrada do túnel (foto à direita), e à esquerda a parte mais larga, onde a cobra colocou os ovos (seta amarela) em 2007 (simulados aqui por pedras pintadas). A foto do meio mostra trajeto entre entrada e parte larga.








Se a postura dos ovos ocorre no meio do caminho do túnel, há um problema. Desinfecção desse recinto, idem. Observação da rotina (comportamento) dos animais no interior dos tuneis, impossível.






Sabíamos que a surucucus não estavam nas tocas e galerias de paca e tatu só 'descansando'. Estavam ativas, desenrodilhadas, também caçando, ou digerindo, ou guardando ovos, ou só fazendo uma social entre seus pares, às vezes por dias e dias sem sair do buraco.

Dessa necessidade de observação nasceram os tuneis modernos, os atuais no NSG. Cansei dos riscos do carão no buraco ....





Uma falsa 'entrada natural' (entrada do túnel), leva ao túnel, que leva a uma barraca, no interior da qual há uma 'toca', com aparato de observação.

Na visão geral abaixo, observe na base à esquerda da foto um tronco com argila, cujo final apresenta um tubo, que penetra na barraca ...







O túnel de acesso está no fundo à esquerda dessa imagem abaixo, enterrado sob a maravalha (vide foto menor). No interior da barraca a parte larga da toca, com visor e luz delicada ...








... por onde se observa sem dificuldades a atividade 'fossorial' de lachesis ...






Concluo respondendo a um leitor, em questionamento de hoje, 29/01 sobre portar ou não adrenalina em trabalhos de campo prolongados, leitor esse que já foi picado por opistóglifas e tende a estar 'sensibilizado' e passível em tese a choque anafilático, no caso de nova exposição.

Aos 50 anos eu me achava no melhor do condicionamento físico. Vinha forte em atividades esportivas, continuava descendo próximo dos 20 metros no peito (mergulho em apneia), acabara de fazer 'Os Sete Picos do Caraça'* com meus filhos, como sherpa do grupo, e carregando 35 kg de equipamento à cada cume. Queria muito fazer o Aconcágua, a maior montanha do mundo fora da Asia, e busquei assessoria profissional, com Davi Marski. Gentilmente ele me freou, propondo um programa de condicionamento físico de dois anos a ser seguido à risca. Podia ter me levado a um acampamento base, aguardar que eu afinasse, e levar meu dinheiro. Mas não, salvou minha vida.

* http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/11/os-sete-picos-do-caraca.html

E logo ele que já se pendurou na principais paredes desse planeta, veio a morrer recentemente numa escalada em Minas Gerais, por choque anafilático num ataque de abelhas.

O sistema imunológico é traiçoeiro, nunca é totalmente previsível. Tenho e carrego comigo adrenalina em trabalho pesado de campo. Recomendo que gente exposta também o faça, SE, E SOMENTE SE souber usar, souber o que se está fazendo. Erre na mão e poderá provocar uma taquicardia fatal naquele que se pretende ajudar. Considere importar a 'EPI- PEN', caneta de epinefrina que despeja a dose certinha naquele que está próximo de uma asfixia (edema de glote, broncoespasmo), ou colapso cardiovascular (hipotensão, bradicardia), e que teria salvado mais esse meu amigo que se vai cedo, mas tendo visto a vida do alto.




Namastê Davi, e é isso, por enquanto...












terça-feira, 30 de dezembro de 2014

'Nada de novo sob o sol'




O Eclesiastes, um dos poucos livros que escaparam da fogueira da minha Santa Inquisição pessoal. Tenho edição antiga, que pertenceu a meu pai, repleta de frases sublinhadas e pontos de exclamação à lápis em trechos que lhe chamaram a atenção - e que também me tocam de forma especial - indicando que ao contrário do que supunha, foram provavelmente nossas semelhanças que nos afastaram em vida.

'Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga sob o sol ?' (1,3). Segundo o texto, em sendo viver intensamente o momento presente a verdadeira realização humana, e em sendo essa vida no 'aqui e agora' necessariamente bancada pelo próprio trabalho, em tempos de exploração quase escravista do homem pelo homem, ocorre que a vida passa sem proveito.

O Eclesiastes, talvez do século III A.C, é então atualíssima critica social a um sistema que rouba vidas. Ironiza e desconstrói dinheiro, poder, status, o próprio trabalho, a produção cientifica, como se tudo isso fosse fruto de roubo. No sistema, alguém sempre banca com sua vida a expansão do outro.

Assim, antes de pavonear-se, o 'bem sucedido' deveria estar ciente de que 'não há nada de novo sob o sol' e que tudo em volta não passa de 'vaidade', e que o juízo 'chegará a tudo o que seja encoberto, quer seja bom, quer seja mau' (12:13-14). Abaixo Salomão, improvável autor do texto.




Contrariando o Eclesiastes, encontrei 'algo de novo sob o sol': uma provável Nobel sem vaidades. Em 26 de janeiro de 2006 escrevi diretamente a Polly Matzinger - diziam para eu não fazê-lo, pelo tamanho acadêmico da pessoa - buscando ajuda para entender porque a necrose progride em alguns casos envolvendo animais peçonhentos, mesmo com soroterapia especifica adequada e na ausência de infecção.

Ela me respondeu rapidamente, dizendo que não era hora de procuramos por respostas, mas por uma boa pergunta para testar no laboratório. Me tratou como a um igual seu que não sou. A conversa durou anos e desaguou num convite para trabalhar a ideia nos Estados Unidos. Não fui, não sei viver longe de meus filhos, mas foi amor à primeira 'vista'.

Polly vem balançando o mundo da Imunologia dizendo que tudo aquilo que aprendemos na escola de medicina, sobre 'self e non-self ' deixa a desejar. Segundo ela, o sistema imunológico não se preocupa com aquilo que nos é ou não inato, mas com o que nos causa dano. A essa sua revolucionaria teoria dá-se o nome de Danger Model, e seu arcabouço teórico foi publicado na Science de 12 de abril de 2002, volume 296 n° 2255 paginas 301-305.

Talvez mais interessante que a vanguarda na ciência de ponta seja a trajetória pessoal dessa mulher, considerada na juventude 'fracasso certo na vida' pelo grupo mais próximo: interesses demais e nenhum interesse objetivo, abertura demais, falta de foco em demasia. Candidata a ser engolida pelo abismo das possibilidades. É o que pensavam.

Abandonou a universidade, dedicou-se ao jazz (piano) e ao treinamento de cães problemáticos, foi coelhinha da Playboy e optou por ser garçonete (1972) como forma de bancar com mais liberdade seus múltiplos interesses. Nesse seu oficio, atenta às conversas de um grupo de clientes habituais da Universidade da Califórnia (at Davis), dirigiu-lhes perguntas que não passaram desapercebidas ao experiente professor Robert Schwab, que a convenceu de que a ciência abrigaria sua inquietação, e assim, entre 74 e 79 a garçonete gostosa chegou ao Ph.D, e vem desde então fazendo o grand monde médico repensar suas certezas, sem desprezar brazucas confusos. Abaixo Polly nos dias de hoje, e entre amigos ...




Voltei a Polly recentemente, com mais 'algo de novo sob o sol': há no veneno da surucucu uma proteína (LMVp) com propriedades imunossupressoras.

Dra. Denise Tambourgi (Imunologia, Butantã) clonou essa proteína (em Lr23 e Lr100) e me disse hoje (30/12/2014) que ela 'não é toxica', mas impediu que alguns cavalos produtores dos anticorpos que fazem o soro que atende aos acidentados, reconhecessem o veneno de Lachesis em sua circulação como algo que lhes causaria dano (!!!), não formando anticorpos. É das mais traiçoeiras (e porque não sutis) ações de veneno de que tenho noticia.

O insight pioneiro dessa atividade deu-se em 2001, através do aluno de farmacologia da UNICAMP, Marco Antonio Stéfan.

Retorno ao tema, surgindo algo novo sob o sol.


 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O 15




“Lá se tinha ficado o Josias, na sua cova à beira da estrada, com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai. Ficou em paz. Não tinha mais que chorar de fome, estrada afora. Não tinha mais alguns anos de miséria à frente da vida, para cair depois no mesmo buraco, à sombra das mesma cruz”

('O Quinze', Raquel de Queiroz)

Lembro-me de voar baixo em meu carro conduzindo dois irmãos de uma cidadezinha do interior para a maior Emergência de Minas Gerais. Ambos haviam comido a 'mandioca-brava' que matou Josias. Um viveu, outro morreu. Olho para meus filhos e sei que nada nunca me faltou.




No meu Quinze (15/12/2014) inesquecível, os burocratas continuaram sem pressa, enquanto o cheque da pensão voltou sem fundos, o cartão foi clonado, e as chuvas derrubaram parte do muro do Núcleo Serra Grande, entre vários outros prejuízos.





Confira o dilúvio: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/12/1564856-fortes-chuvas-isolam-praias-do-sul-da-bahia-2000-estao-desalojados.shtml

Quem puder ajudar ... http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2014/09/vaquinha-sos-nsg-fund-raising-e-obrigado.html


Em 'Beleza Americana', Ricky Fitts divide com Jane o momento em que entendeu a 'força benévola' na vida ... (abaixo, legendado)




"Essa vida toda por traz das coisas ... essa força benevolente lembrando não haver razão para se ter medo ... nunca ... preciso me lembrar ..."






.