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INDICE AO BLOG NSG E À BIBLIOTECA VIRTUAL LACHESISBRASIL BASEADO EM BUSCAS ESPECÍFICAS

OBSERVE POR FAVOR QUE A MAIORIA DOS LINKS SÃO AUTO EXPLICATIVOS, E CONTÉM INDICAÇÃO DE CONTEÚDO ANTES MESMO DE SUA ABERTURA: 1) SOBRE ...

sábado, 18 de abril de 2015

Quatro anos sem Luke



Há exatos 4 anos (17 de Abril de 2011), Luke escrevia a alguns amigos, com entusiasmo incontido.

Seu sonho, um santuário para as lendárias 'King Cobras' (Ophiophagus hannah) havia se materializado. Era hora da festa.

Todos os que receberam esta mensagem abaixo estavam convidados por Luke e a mulher Nicole, para 'um vinho até a madrugada ...', numa fazendinha na Inglaterra, para conhecerem - antes da abertura ao publico - o sonhado local onde os animais cativos serviriam de 'embaixadoras' para 'as primas', ameaçadas de extinção no sudeste asiático e Índia, por perda de habitat.

A ideia era educar, dominar reprodução em cativeiro, e levantar fundos a serem revertidos na preservação destas cobras, comprando terras e criando reservas. O mesmo sonho do Núcleo Serra Grande.

Abaixo a mensagem original:

On Sun, Apr 17, 2011 at 7:34 AM, <ophiophagushannah@hotmail.co.uk wrote:

The King Cobra Sanctuary is "Officially", not only as a king cobra (Ophiophagus hannah) research and captive breeding facility, but also because of our focus on education and fund raising, using our captive kings as 'Ambassadors' for their wild cousins, to support conservation projects for King Cobras in their natural habitat. Opening our doors to visitors on Saturdays and sundays. See our web site www.kingcobrasanctuary.com for more information. Luke and Nicole Yeomans would be honoured if you will attend our opening 'party' and tour of the new facility, on Saturday May 21st 2011 at The King Cobra Sanctuary. Brookhill Leys Farm. Eastwood Notts NG163HZ UK. More 'formal' events will be in the afternoon (exact time to be confirmed) and for the many of you who enjoy swapping "snake story's" etc, The Wine (or drink of your choice) will flow till the small hours. This is an invitation only event though everyone receiving the email from me has a +1 please contact me  if you would like to bring more than one guest. You will be emailed again nearer to the event with more details but can you please inform me asap if you can attend (an email or SMS would be preferred).  Very much looking forward to seeing you and showing you the new  facilities.

Luke Yeomans. 00447896531871

Sent using BlackBerry® from Orange


A abertura do santuário ao publico em geral se daria em cerca de dois meses após essa festa. Dias antes daquele sonhado final de semana, Luke foi picado, e faleceu.

Confira o caso, em 42 segundos: http://www.bbc.co.uk/news/uk-13968581

Confira nosso trabalho na BBC: http://www.bbc.com/news/magazine-24396013

E o que tirar de uma grande tristeza ?

Abaixo, DE NOVO, o abstract do excelente "Snakebite in herpetologists", de Covacevich e Richardson, no Australian Medical Journal:

OBJECTIVES: To define the risk of snake envenomation in herpetologists, assess factors which lead to their being bitten, assess their occupational morbidity and propose preventive stratagems. SUBJECTS AND DESIGN: Interview of 14 of the most experienced professional herpetologists in Queensland; and questionnaire to 14 members of the Cape York Peninsula Herpetological Society, Cairns, Queensland. RESULTS: The 28 herpetologists had sustained 119 bites by potentially dangerous species, and hundreds of clinically insignificant bites. Seventeen had been admitted to hospital. Only five had never been bitten by a medically dangerous snake and 14 had been bitten on two or more occasions. Correct first-aid techniques were applied in less than half the bites. Two had permanent morbidity--renal damage, and permanent tissue damage to the hands. Anaphylactic reactions from the repeated use of antivenom did not occur. The experienced herpetologists sustained a life-threatening bite every 10 years (median). 

CONCLUSIONS: Herpetologists working with highly venomous snakes are at high risk. Prevention involves recognising the risk; possessing a first-aid certificate; applying standard first-aid if a bite is sustained; carrying a mobile telephone; and not working alone.

Luke certamente 'reconhecia o risco' mas baixou a guarda, quebrou a regra de ouro e perdeu a vida, trabalhando sozinho.


Abaixo Rob Carmichael, com uma King albina:






Para se ter uma ideia dos riscos envolvidos nas atividades do Núcleo Serra Grande, concluo com um parágrafo deste experiente herpetólogo, em comunicação pessoal:


"As far as safety goes, I never work with these snakes unless I am 100% focused and alert. I keep many elapids (including king cobras), bothrops, crotalines, etc. but nothing strikes more concern in me than these bushmasters. I fully know that a bite could end my life which is why when I work with the bushmasters, I don't work with any other snake that day....I want to make sure that I am ready, focused, relaxed and ready for anything. So far, I have found the bushmasters to be amazingly calm and wonderful animals, however, I also have experienced first hand the full wrath of this species.... Even a 16' king cobra coming full steam at me didn't scare me as much as a 8' bushmaster in full "I want to kill you" mode did a year ago. It made me completely re-think my strategies and safety procedures when working with them. But, for the most part, they have been very easy going and I think staying calm, deliberate and keeping movements slow and always working on the bushmaster's terms is the best course of action"


'NEM MESMO O ATAQUE A TODA FORÇA DE UMA KING COBRA DE 5 METROS ME ASSUSTOU TANTO QUANTO A AVANÇADA QUE LEVEI DE UMA SURUCUCU DE 2,40 METROS, A UM ANO' .... 'ESSE EVENTO ME FEZ REPENSAR COMPLETAMENTE MEUS PROCEDIMENTOS DE SEGURANÇA' ... 'VOCÊ TRABALHA COM SURUCUCUS NOS TERMOS DELAS, E NÃO NOS SEUS' ...



Leia também:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/08/em-memoria-de-emanuele-gallmann.html










segunda-feira, 13 de abril de 2015

Um dos Ciclos de Lachesis





Noticias do mundo verde. Aferição de termômetro postado na mata, com registro contínuo de temperaturas máxima e mínima no Núcleo Serra Grande, durante o período de 12 meses. Informação importante, e que pode guiar climatização artificial em outros serviços.












Em natural território de Lachesis, água, sombra e luz indireta geram médias entre 17,5° - 28,5° C.

Local para se olhar bem onde pisa, por vezes o raio de luz que atravessou as copas, fugaz, é tudo o que te separará de um acidente ...














sábado, 4 de abril de 2015

Morte e Luz, em 15 tempos




Páscoa. Trucidaram O HOMEM ontem. Mas a conversa é o chocolate.

Essa memória da violência lembrou-me de compromisso com leitores felizes com meu olho roxo numa postagem recente, falar do Trauma, a epidemia moderna, não como uma curiosidade, mas como uma advertência a todos.


I


Rui Rocha foi preciso - como bom amigo - ao apontar-me o defeito: radicalizo com facilidade. A tão buscada moderação do 'caminho do meio', em mim, quase sempre não há. Sinto-me semelhante a muita gente que optou pelos extremos, e não acho isso bonito.






Há contudo, uma espécie de índole que acompanha os ditos radicais, ou estourados, ou 'pavio-curto', que quando bem canalizada, produz maravilhas.

Década de 80, capoeira em Belo Horizonte, Mestre Mão Branca puxando o treino. De repente a comoção, dois atracados 'do nada', e um deles, o Donizete - conhecido provocador - sob forte 'gravata de porteiro', e tendo a cabeça socada repetidamente contra a pilastra de concreto. Briga de cachorro grande, difícil de separar. Charlinho não era de largar o osso. E ainda não o é, como veremos.

Procurei Charlinho alguns anos depois. Meu pai de criação recebera sentença de morte de um medalhão da cardiologia mineira: 'vive seis meses e não aguenta cirurgia'. Aguentou a cirurgia cardíaca de risco conduzida pelas mãos competentes e corajosas do amigo, e viveu com qualidade por outros 12 anos.


II


Quem adentrar hoje o João XXIII (maior Emergência de Minas) vitimado por trauma e com risco de morte nos próximos 240 segundos, tem chance de sobrevida igual ou superior àquela verificada nos melhores centros de Trauma do mundo. Verdadeiro milagre brazuca.

A 'Manobra de Mattox' consiste-se em parte, em abrir o peito do paciente instável e meter-lhe uma pinça na artéria aorta (contendo hemorragias brutais), ainda na sala de emergência especialmente adaptada, fora do centro cirúrgico propriamente dito. 30% dos casos envolvem arma de fogo, outros 15% arma branca como mecanismo do Trauma.

Mattox é parceiro de publicações de Feliciano, um dos grandes cirurgiões militares norte americanos de todos os tempos. São a referencia moderna de abordagem ao Trauma. Charlinho trouxe Mattox à Belo Horizonte, e juntos criaram a tal sala de emergência especialmente adaptada para a 'Onda Vermelha', que é a sequencia de procedimentos desencadeada à admissão do paciente critico.

A 'Onda Vermelha' completou 10 anos de existência e é um dos legados de Charles Simão Filho (foto), o Charlinho, que hoje dedica-se ao MG Transplantes - onde já se comemoram recordes históricos em cirurgias realizadas -  à docência na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, e aos cinco filhos.






Muito da minha vida se passou dentro daquele Pronto Socorro. Inúmeros Natais e Réveillons. Fui da equipe D (Evilásio e Norton, terça e quinta noite). Pessoas pulando ondinhas nas praias, e nós nos desviando de poças de sangue na 'sala do poli' - sala de primeiro atendimento ao paciente politraumatizado - e assim, sou testemunha do quanto se evoluiu 'no João' sob a direção de Dr. Charles: "pavio-curto quando bem canalizado produz maravilhas"


III


O 'nós x eles' lulista atingiu também os cuidados com a saúde da população. O sucateamento do SUS é vendido como atendimento medico precário, e a importação de mão de obra médica/escrava para fazer caixa para ditaduras é atribuída 'ao desejo' dos profissionais brasileiros de permanecer no grande centro, como se existisse um plano de carreira (como no judiciário) que nos desse estabilidade no interior, e assim, no serviço publico em especial, a relação medico - paciente é repleta de hostilidade.

Com olhos de quem vive de dentro essa injustiça, inicio essa discussão sobre violência com uma homenagem aos Cirurgiões - personificados em Charlinho - e à Cirurgia em si.

Existem crânios de 40.000 anos que evidenciam o procedimento cirúrgico conhecido como 'trepanação', que é o ato de se abrir uma janela no osso que envolve o cérebro, com objetivos diversos. A mesma trepanação pode ser observada em crânios humanos do Império Inca (Peru, século XIII) com uma novidade: alguns pacientes sobreviveram ao ato cirúrgico, é o que demonstra a regeneração óssea no exemplo abaixo.





Difícil contudo, chamar algo assim de 'Cirurgia', termo que envolve procedimentos padronizados e pretensões curativas. Qual seria a motivação de quem conduziu o procedimento, à luz do que se conhecia na época ? Expulsar demônios ou aliviar pressão intracraniana ? Sacrifícios aos deuses ou alivio de hidrocefalia ?

Nada mais perturbador que a perda da saúde. Existem ateus em trincheiras. Mas não existem ateus numa UTI neonatal onde seu filho pequeno luta pela vida. Em nossa hora de maior fragilidade ainda recorremos as deuses, como os gregos faziam no Templo de Esculápio, abaixo.






Mas hospitais como os conhecemos hoje - alheios ao misticismo e à magia, dentre outras características - podem ter seus primórdios traçados ao século VI com o inicio da implantação do Hôtel Dieu (abaixo), na França.






Um egresso daquela instituição faria história na Idade Média, quando da introdução da pólvora nos combates. Os soldados sabiam que sua chance de sobrevida era maior com a presença de Ambroise Paré (1510-1590) no campo de batalha. Paré rompeu com tradições e desenvolveu 'procedimentos padronizados e com pretensões curativas' utilizados até os dias de hoje, sendo assim considerado o 'pai da Cirurgia moderna'.






Naqueles idos feridas de guerra eram tratadas com cauterização, óleo fervente sobre a área atingida, uma tradição que remontava a Hipócrates e Galeno, sendo portanto, inquestionável.

Paré rompeu com a cauterização, e passou ligar individualmente os vasos sangrantes (o principio da 'hemostasia') e a aplicar nas feridas uma pomada de gema de ovos, óleo de rosas e terebintina. Tecidos respondem bem à delicadeza. A resposta inflamatória era evidentemente menor nos casos tratados por Paré.

Varias escolas cirúrgicas se alternaram na vanguarda ao longo do tempo. A chegada de Pierre Desault ao Hotel Dieu em 1785 é considerada um marco. Em 1790, no St. George Hospital de Londres, Hunter (1728-1793), considerado o precursor da cirurgia experimental, formava discípulos notáveis como Physick, Albernethy e Cooper. Brambilla, em 1785, inaugurou a Academia de Cirurgia Militar de Viena, que era independente da Universidade de Viena. Pouco mais tarde nessa universidade, gênios como Langenbeck, Kern e Billroth, criadores da chamada escola Berlim-Viena (1810-1882), se inscreveriam na historia da cirurgia.

Nas palavras de Wangensteen, 'as escolas de cirurgia de Hunter, Dessault e Kern anteciparam-se ao advento de duas grandes inovações do século XIX, a anestesia e a antissepsia cirúrgica profilática ... a escola de Langenbeck - Billroth surgiu quando a antissepsia estava em formação'


IV


As grandes inovações à cirurgia no seculo XIX foram a anestesia e a antissepsia profilática.

Sobre a antissepsia e a natureza do contagio, uma breve linha do tempo: Leeuwenhoek descreveu as bactérias na ultima década do século XVI, e Koch, em 1876, estabeleceu a patogenicidade das mesmas, valendo-se de contribuições pioneiras de Schwann (1837), Henle (1840), Sommelweis (1847), Pasteur (1863) e Lister (1867).

A anestesia inalatória nasceu de brincadeiras com o éter de Crawford Long, em 1842, que utilizou a técnica 4 anos antes da histórica demonstração dos cirurgiões dentistas Morton e Wells, em 16 de outubro de 1846, no Massachusetts General Hospital.

A grande inovação cirúrgica no seculo XX foi a cirurgia intracardíaca, amparada na criação de uma bomba oxigenadora por Gibbon (Filadélfia, 1930), que substituiria coração e pulmões durante a parada cardíaca. Lewis (Minnesota, 1952) conseguiu o primeiro sucesso numa cirurgia cardíaca aberta em humano, corrigindo defeito congênito numa menina de 7 anos.


V


Sobre as grandes escolas cirúrgicas norte americanas, o pioneirismo veio com a Universidade da Pensilvânia no século XVIII, com Physick, Gross, Keen e Gibson. A escola de Nova York ganhou fama no século XIX, com McBurney e Whipple, o mesmo ocorrendo com a escola de Boston, sob influencia de Warren. Hasltead (1889-1922) transferiu para o Hopkins, de Baltmore, a liderança cirúrgica na America do Norte. Com a passagem do seculo outra poderosa escola surgiria na Chicago de Murphy, cuja excelência foi perpetuada gerações subsequentes de cirurgiões excepcionais, como Dragstedt e Huggins, Skinner e Nyhus. Numa acomodação mais recente, às primeiras décadas do século XX foi dado o nome de 'era Kocher-Mayo' na cirurgia americana.

Hitler demoliu a influencia das universidades alemãs na cirurgia. Foram 125 anos de vanguarda até o advento da Segunda Guerra Mundial, quando o eixo foi desviado para a América, onde permanece, muito em função de seus excepcionais cirurgiões militares, a exemplo de Mayo, DeBakey, Rich e Feliciano.

A cirurgia militar pode ser considerada uma especialidade, com treinamento especifico em vários centros norte-americanos. A experiencia acumulada por estes cirurgiões militares após a Segunda Guerra Mundial, na Coréia, Vietnan, Guerra do Golfo e Afeganistão, formaram as bases para o primeiro atendimento ao grande acidentado nos dias atuais, nas emergências mundo afora.





Trauma civil é diferente de Trauma militar, por diversos motivos. O Trauma militar envolve, por exemplo, projéteis de alta velocidade. Um tiro de calibre 38 (civil, baixa velocidade) numa melancia, produzirá nela um orifício de entrada e outro de saída da bala. Um tiro de M16 (militar, alta velocidade) explode a mesma melancia. A velocidade da bala provoca o chamado 'efeito cavitacional temporário', que é a propagação de uma onda de choque pelos tecidos da vitima, com lesões em áreas muito distantes da trajetória da bala em si. A energia dessa onda de choque pode ser intuída pela explosão da melancia. No Rio de Janeiro, onde a guerra do trafico utiliza armamento militar, foi necessário formar cirurgiões aptos à lidar com essa nova modalidade de Trauma. Na primeira leva de especialização, Dr. Rodrigo Gavina, cirurgião torácico, foi beber da fonte de Dr. Feliciano, e hoje, além de fazer escola, é a grande esperança das vitimas dos fuzis que chegam vivas ao Hospital Souza Aguiar e Hospital da Policia Militar, ambos no Rio.


VI


Permanecendo na Historia, mas pausando para respirar um pouco num tópico mais leve, divido com os leitores a honra de me ver numa lista que inclui Saint-Hilaire, Langsdorff, Von Martius e Spix, entre outros exploradores dos campos de altitude caracences ... O texto é de Padre Lauro Palú.





VII

Voltando aos 'radicais', aos 'pavio-curtos', e à canalização dessa energia em nome de uma causa, lembro-me de Dian Fossey.

No documentário original da National Geographic, vale ver e rever aquele momento 'em que se criou a ponte entre duas especies': Dian assume posição submissa, estica o braço sobre a relva, abre a mão e espera. O gigantesco gorila hesita mas toca-lhe de leve a ponta dos dedos.

Confira: https://www.youtube.com/watch?v=fnCDuCBbqfg






Por treze verões consecutivos Timothy Treadwell viveu desarmado entre os ursos pardos do Alaska, numa proximidade aterrorizante, sobre a qual já escrevi aqui no blog:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2014/02/timothy-e-eu.html 

Contribuiu para o entendimento de sua biologia. Mas como Dian, perdeu-se em si mesmo. Morreram no experimento.






Alex Honnhold escalava seu bercinho. Depois os armários e prateleiras da casa. Abandonou a universidade para viver numa van e poder se deslocar melhor entre os diversos pontos de rocha íngreme, seu território natural. Passou a escalar solo, sem cordas ou proteção. Na Historia da Escalada, nunca se viu nada semelhante ao que ele fez recentemente no 'Sendero Luminoso', no link https://www.youtube.com/watch?v=Phl82D57P58

Viva está também Kulki Gallmann, numa vida de luta pela conservação da natureza na Africa, comprando todas as brigas possíveis, a ultima delas com caçadores de elefantes no Kênia.

Confira:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/08/os-essenciais-12-kuki-gallmann-e-david.html

Nada confortável pensar que essa gente 'radical' me inspira, como se existisse lá dentro algum 'death wish', logo eu que trabalho com surucucus, e vejo nelas grande beleza.






























VIII


Tenho medo da morte e outros medos maiores, sempre relacionados aos filhos.

Como um Sidharta, um dos meus meninos descobre recentemente que 'menos é mais'. Relatou-me espontaneamente que a vida simples trás mais alegria que a complicada. Tem sua própria avaliação do que é ser 'bem sucedido'. Sem ter lido coisa alguma a respeito já busca sair da 'Roda do Desejo' do Buda.

E não está sendo papagaio do pai, que também pensa assim, mas já complicou e trabalha como burro, e assim será. O menino teve esse Satori, essa iluminação, ao sentir e assumir que sua grade curricular não lhe interessa. A impressão que ele teve foi a seguinte: '`Papa (é assim que ele me chama, sem o 'i' no final), as coisas da escola não tem uso, e vai ser a vida toda ali, se preparando para depois passar o outro resto da vida sem gostar muito do trabalho, isso não está certo'. Falava com a tensão de uma descoberta súbita.

Da minha parte cuidado para não interferir com os chavões sobre 'a escadinha do aprendizado', ou 'tolerância à frustração', ou 'o futuro', ou mais terroristicamente 'quando eu faltar ...',  deixo que ele me use para fechar suas Gestalts, muito grato pela confiança.

Menino maravilhoso, melhor que eu em tudo, no rolimã em especial. É por gente assim que quero viver mais.





























IX

Disse anteriormente que o problema da morte não seria a morte em si, mas a saudade. Corrijo-me. O problema da morte - e meu maior medo - é a possibilidade de desamparar meus filhos, material e espiritualmente.

Para tentar não desamparar muito cedo (via sedentarismo, stress), e também garantindo mais segurança pessoal na lida com as surucucus (com reflexos apurados e explosão muscular), é mais que necessário exercício físico pesado.

Academias, seus espelhos, modelitos, azaração e bate-estacas sonoros não fazem parte do meu perfil, e assim, eu que fui aluno do grande Akio Yokoyama (foto abaixo) na juventude, aos 49 anos - para tentar viver mais - voltei à fonte dos esportes de contato, optando por uma outra arte, 'testada e aprovada em combate' ...







A atual defesa pessoal do exercito israelense, nasceu com Imi Lichtenfeld brigando (sem armas, na mão) nas ruas da Europa nazi-fascista pré-holocausto. O espancamento de judeus até a morte era rotineiro.

Atlético e familiarizado com o boxe e diversas artes marciais, Imi selecionou aqui e ali o que funcionava na rua, criando o Krav Magá. O Krav Magá é um sistema que nasceu de uma resposta ao preconceito.


X


O preconceito contra judeus pode ser traçado a textos gregos, III e IV a.C, onde se comenta a escravidão no Egito. Mas o antissemitismo tomou a força que ainda tem hoje à partir do seculo I depois de Cristo.

O judaísmo era o cristianismo original. O primeiro evangelho, de Marcos, é de 60 d. C. O último, o de João, é de 90 d.C. Mateus e Lucas são tentativas de melhorar Marcos. Clima tenso naquele seculo, não havia consenso na comunidade judaico-cristã se Jesus seria ou não o Messias. Roma perseguindo cristãos. Judeus se revoltando contra o julgo romano.

Evangelhos demonstrando intimidação: Roma e Pilatos saem praticamente ilesos do episódio da crucificação, enquanto judeus saem como os que "mataram o Cristo". No Novo Testamento, muito pudor ao falar da opressão de Roma, e despudor para falar dos judeus, que passaram a simbolizar todos os 'heréticos': aqueles que como eu, duvidavam da ressurreição física de um homem.

Homens como Hipólito (170-246), discípulo de Irineu, por sua vez discípulo de Policarpo, por sua vez doutrinado diretamente pelo apóstolo João, formavam a vanguarda fundamentalista de "homens de Deus", especializada no combate feroz e homicida a todas as formas de "heresia": gnosticismo, islamismo e judaísmo em especial.

No seculo IV, o bispo Augustino escreve "malditos judeus que traíram e mataram Jesus Cristo". No seculo XIII, o Papa Gregório IX diz que o Talmude tem 'inspiração demoníaca'. Em 1964, o Vaticano pretendeu reabilitar os judeus, considerando (num concilio), que o martírio de Jesus foi voluntario e para "nos salvar".

A chamada 'Diáspora' - ou dispersão dos judeus pelo mundo, iniciada em 587 a.C quando Nabucodonossor toma Jerusalém - teve seu ápice no seculo I, com a destruição do segundo templo de Jerusalém pelos romanos (66-70 d.C). A dispersão foi necessária para a sobrevivência deste povo, mas o sentimento de retorno à pátria, a Palestina (a Canaã bíblica), nunca abandonou os judeus.

A história escrita pelos vencedores. Esse é o pano de fundo do antissemitismo secular.



XI


Durante um tempo este sentimento 'de retorno' teve cunho religioso, mas com nacionalismos diversos iniciados na Europa do seculo XIX, sob julgo multinacional, nasceu também o sionismo, nacionalismo judaico de Theodor Herzl, que pregava a criação do Estado judeu na antiga pátria dos hebreus, ao sul do Líbano e a nordeste da Península do Sinai, entre o Mar Mediterrâneo e o vale do Rio Jordão.

Após a primeira guerra mundial, a Turquia, que lutara junto à Alemanha e fora derrotada, se viu deposta de todas as suas ocupações no mundo árabe, Palestina inclusive. A região passou a ter domínio Britânico. À partir de 1918, a imigração dos judeus para a região foi crescente, conflituosa, e no pós HOLOCAUSTO, à partir 1947, foi irresistível.

Em 1947, a Assembléia Geral da ONU decidiu dividir a Palestina em dois Estados independentes: um judeu e outro palestino. Mas tanto os palestinos como os Estados árabes vizinhos recusaram-se a acatar a partilha proposta pela ONU.

Em 14 de maio de 1948, foi proclamado o Estado de Israel, que se viu imediatamente atacado pelo Egito, Arábia Saudita, Jordânia, Iraque, Síria e Líbano (1ª Guerra Árabe-Israelense). Os árabes foram derrotados e Israel passou a controlar 75% do território palestino. Os 25% restantes da Palestina, correspondentes à Faixa de Gaza e à Cisjordânia, ficaram sob ocupação respectivamente do Egito e da Jordânia. A partir daí, iniciou-se o êxodo dos palestinos para os países vizinhos. Atualmente, esses refugiados somam cerca de 3 milhões.

Esse é o pano de fundo do antissemitismo moderno, e o cenário histórico da criação do Krav Magá, 'testado e aprovado, em combate'.



XII


O ego 'desvirtua' quando insere o praticante das artes de combate na ilusão de onipotência.

Faixa preta nenhuma, nem títulos ou troféus são garantia de sucesso nas ruas, porque em todo confronto real há a presença intangível do fator sorte: o elemento surpresa (a pedrada / paulada / pancada / lamina / bala que veio de não sei onde, sem provocação ou ameaça prévia), a qualidade (e quantidade) do/s oponente/s, a presença consigo de fatores distrativos no momento da agressão (filho pequeno, companhia 'sem noção', vestimentas inadequadas, a carteira que caiu - distraindo - o sapato que deslizou - desequilibrando - a bala que mascou, a pistola que travou. A sorte favorece os mais preparados, mas aquele pode ou não ser o seu dia.

O ato de 'congelar' ou 'travar', é um evento psicológico, um reflexo. Existe o congelamento tático, que é quando optamos por ficar imoveis para colher informações sobre a situação, ou para escapar de um grande carnívoro por exemplo. Algo de nosso DNA. Mas o congelar a que me refiro aqui é imobilidade onde deveria estar ocorrendo ação, para fugir de um acidente onde um veículo está prestes a explodir, ou para não ser espancado até a morte, por exemplo. A má noticia é que frente ao grande evento traumático, todos congelam. Lutadores experientes congelam, em diferentes níveis e por diferentes períodos de tempo, mas congelam. Ser capaz de reconhecer que se está congelado, e tomar a decisão racional de sair deste estado, na menor fração de tempo possível, antes que seja tarde demais.

Quanto mais forte o treino, menor a chance de se entrar em 'dissociação cognitiva' no momento das emergências diversas, ou agressão real. A dissociação cognitiva é o nome técnico do evento psicológico que leva ao congelamento, e surge quando a sua expectativa não corresponde à realidade pratica.

Sobre 'treino forte': o Kumitê do Karatê, o Combate do Krav Magá, a Sombra do Muay Thai, os rounds do MMA, por mais intensos que venham a ser, por conterem ética e regras, pelo uso de proteções acolchoadas, por envolver camaradagem entre gente de bem, EM NADA se assemelham ao que se pode encontrar nas ruas.






Não se deveria construir ilusões de onipotência, quem 'se acha', dá-se ao luxo do 'estopim curto' negativo, de certas imprudências. Sobre 'reação': fala-se que o assaltante de hoje vai levar tudo e ainda matar. Eu falo que ele só quer facilidade, e que 'cooperando' - falando pouco, mostrando as mãos, e atendendo rápido - as chances de se sair bem de um momento desses são maiores.

O Krav Magá brasileiro é um dos melhores do mundo, porque foi introduzido e é comandado aqui, a 25 anos, por Kobi Lichtenstein (à direita na foto abaixo), discípulo direto de Imi. Levam-se dezessete anos de treino duro para formar um faixa preta de Krav Magá no Brasil. No Estado de Minas Gerais existem três. Com esse treino, esse individuo está preparado para reagir como muito poucos, daí minha preocupação com os que só acham que estão.






XIII


2012, Guilherme Abras Frauche, 20 anos, adentrou a sala de emergência do João com um tiro no coração, desavença em assalto.

'Onda Vermelha', Leonardo Belga Ottoni Porto como cirurgião responsável.

Tentarei ser didático, para que o leitor realmente entenda a sequencia de eventos.

Não há tempo para preparar centro cirúrgico. Na própria sala de emergência (especialmente pensada para esse momento especifico) o paciente é colocado nessa posição, o pontilhado é o corte dado no tórax esquerdo para se chegar ao coração sangrante.






Por entre as costelas insere-se um afastador, abrindo espaço para o ato cirúrgico ...






Lembro-me do Professor Zerbini falando que 'no inicio (operando com Dr. Barbero três corações por dia), tive muita dificuldade no acesso ao coração'. Dr. Leonardo e todos nós também temos essa dificuldade. A bala calibre 38 atingira o átrio direito, no topo do coração do Guilherme. Área difícil de se trabalhar com aquela incisão clássica. Sem demora partiu-se para a 'tampa do fusca': o osso esterno é serrado, e prolonga-se a incisão para a direita, abrindo-se uma janela (a tampa do fusca) adequada para reparar o coração ferido ...






Com o coração na mão, defeito identificado e reparo realizado. A mais difícil cirurgia de um ponto só.






E foi assim que se encontraram Guilherme e Leonardo, Mattox e Charlinho (em espírito), naquela sala de emergência especialmente adaptada, num emocionante caso de sucesso improvável.


XIV


O caso acima descrito, e tantos e tantos outros, me lembram de como deveria ser um 'Manual de defesa pessoal da Puta Velha', dedicado aos mais jovens, e aos 'pavio-curtos' mal canalizados em geral. Os capítulos 'faca', 'arma de fogo' e 'trocação' diriam:


Saiba enquanto há tempo, que não há defesa de ataque de faca vinda de agressor experiente. Correr - se você puder antecipar o que te espera - é a melhor opção. Tudo (facadas) vai ser sempre rápido, traiçoeiro, inesperado, atingindo pontos de finalização por vezes instantânea. Para quem tem treino e/ou não tem para onde correr, existe a opção de atacar o agressor (e não a faca) com os diversos chutes altos, mantendo distancia, mas isso se você for capaz de antecipar / detectar a agressão (sempre dissimulada) a tempo. Meu filho Gabriel, que simpatia, ilustra a questão da dissimulação, abaixo ...







A faca que ele esconde é uma K BAR, armamento padrão dos USMC, uma faca grande, que ainda assim esta totalmente oculta na primeira imagem. Agressão a faca bem sucedida, normalmente envolve esconder o jogo. As brigas de rua sem armas também tem esse componente da surpresa e dissimulação.'Trocação' sustentada é algo raro. Culturalmente permitimos aproximação física de estranhos, mas nesses tempos bicudos, isso deve ser permanentemente revisto.

Saiba também enquanto há tempo, que não é sem motivo que TODOS os que realmente trabalham com violência no dia-a-dia recomendam não reagir a arma de fogo. Se a agressão iminente é tão inaceitável que pede eventualmente o sacrifício da sua vida, lembre da técnica, vá com tudo e boa sorte, mas fora das situações limite, simplesmente não reaja. O 'treino' habitual, com o cano da arma do agressor encostado (ou quase) em nossa cabeça, tórax etc (como ilustram meus filhos), com saídas espetaculares e etc e tal, simplesmente não existe no mundo real.






Abaixo a real situação de rua, numa imagem de assalto verdadeiro. Essa é a empunhadura de arma clássica do vagabundo experiente. Não há defesa para uma situação dessas. Entregue enquanto há tempo, e sem movimentos bruscos, sem falar muito. E havendo a tentação de reagir, considere antes a rotineira presença do segundo agressor, normalmente também armado, e dando retaguarda a quem faz a abordagem ...





Saiba enquanto há tempo que nossa unica garantia é o comportamento defensivo, a sobriedade, a capacidade de antever o problema.


A taxa de mortos por arma de fogo no Brasil é de 26 por 100.000 habitantes. No México, em guerra colossal com o narcotráfico a taxa é de 19,3. Na Russia, 9,3. Nos Estados Unidos, 3,9. Na China, 0,7, na Índia 0,2, e no Japão, 0,01.

Este seria, em parte, o 'Manual de defesa pessoal da Puta Velha'


XV


Queria mesmo era outra pausa para assuntos mais leves, como aquela lista honrosa de Padre Lauro Palú, ou falar de como foi o trabalho em Serra Grande, na semana passada. Mas como que para me apurrinhar com esse assunto da violência, lembro-me que dei de cara com Rodrigo Minotauro no avião ...






No Núcleo (o lado B do meu mundo), de tudo um pouco, luz e preocupação. Cosmiro me visitou e contou o seguinte: ' ... era um miado diferente, forte, logo ali ... fiz barulho e gritei, mas ele não ligou não ... chamei a mulher e mostrei ... antes eu subia o riacho até la em cima na mata ... faço isso mais não ...'

Na beira do lago duas carpas grandes partidas ao meio. Lontras sem lago e suçuaranas sem floresta estão voltando à Serra Grande. A casa é sua.






  Luz diferente na mata, o amarelo e tons ocres como que pesando mais que o habitual ...







       E tinha também a anti-cretinice daqueles outros '50 tons', de verde, rosa e amarelo ...






   E antes da noite outros tons de cinza, Sumi-e refletido na lagoa da lontra e das carpas partidas ...






Consigo finalmente pegar a radio Inconfidência em ondas curtas, programa sobre o Uakiti na cozinha enfumaçada.






Pensando no custeio inviável dessa batalha pelas últimas surucucus da Mata Atlântica (problema é isso), adormeço retornando sem querer ao trabalho mais duro, no lado A da minha vida.





            
          FELIZ PÁSCOA    https://www.youtube.com/watch?v=FqBCTyj-85c