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INDICE AO BLOG NSG E À BIBLIOTECA VIRTUAL LACHESISBRASIL BASEADO EM BUSCAS ESPECÍFICAS

OBSERVE POR FAVOR QUE A MAIORIA DOS LINKS SÃO AUTO EXPLICATIVOS, E CONTÉM INDICAÇÃO DE CONTEÚDO ANTES MESMO DE SUA ABERTURA: 1) SOBRE ...

domingo, 30 de dezembro de 2012

Crise e Oportunidade



Esta postagem é dedicada aos pequenos criadores que como eu, foram vitimados pela irracionalidade no preço da ração para animais de laboratório.

Este texto só pôde ser escrito após 3 meses de observações no biotério do NSG. Perguntas básicas tinham que ser respondidas: a taxa de fecundidade diminuiu ? adultos canibalizaram anormalmente suas ninhadas (em busca de proteína) ? houve perda de pelo, queda do estado geral (vitalidade) ou diarreia ou constipação no período ? A resposta a todos os quesitos foi não.

Os ratos no NSG, wistar, suiço e Balbick C 47, milhares deles, nunca estiveram tão bem.

Passamos a fabricar nossa própria ração ao entrarmos em colapso financeiro. Presenciei a Labina da Purina pular de 47, para quase 70 reais o saco (20 Kg), para na sequencia sumir do mercado Ilhéus - Itabuna, abrindo espaço para uma concorrente que já chegou a nós por 115 reais, por saco de 20 kg. Uso 10 sacos por mês, no mínimo. Clique sobre a imagem do orçamento, abaixo.





Quando se lê a composição básica da ração (acima), o efeito é intimidador, imagina-se que jamais seremos capazes de alimentar corretamente nossos ratos. E mais, peletizadoras - maquinário de produção de ração - custam em media 30 mil, enquanto maquinas de quebrar osso quase isso (osso bovino em pó é cálcio, parte fundamental de nossa formula). Ou seja, para nós os pequenos, fabricar ração parecia algo distante, inviável. Mas conheço bem os ratos do mato, imbatíveis em energia sem alimentar-se de nada tão 'sofisticado' quanto a formula do orçamento acima, e segui então o caminho do meio: proteína da soja, carboidratos do milho e da mandioca, cálcio da farinha de osso, gordura do coco, ferro da folha de aipim, vitaminas do Glicopan Pet e semente de girassol, alguns extras como torta de algodão, linhaça e pó de cacau (refugo da torrefação da AMMA), cana-brava triturada (digestibilidade), elementos que após muita tentativa e erro, transformaram-se num produto final aprovado por nossos bichinhos.




Quanto aos ingredientes supra citados, tudo é moído por etapas num liquidificador industrial de 25 litros, com água da nossa nascente como liga.

As proporções garantem o sucesso nutricional: proteína da soja 30%, cálcio da farinha de osso 20%, carboidratos do milho e mandioca 20%, gordura do coco 10%, semente de girassol e seus sais minerais 10%, Glucopan Pet 3 colheres de sopa (vitaminas), e o restante em medidas de 200 ml para cada item.

A titulo de curiosidade, avalie a riqueza de um dos nosso ingredientes principais, a semente de girassol. Em 100 gramas desta semente temos 5% de água, 571,43 calorias, 21,42 g proteínas, 50 g de gorduras, 5,43 g de acido graxo saturado, 9,64 g de acido graxo monoinsaturado, 33,21 g de acido graxo poli-insaturado, zero de colesterol, 17,86 g de carboidratos, 117,86 mg de cálcio  714,29 mg de fosforo, 6,79 mg de ferro, 696,43 mg de potássio, 3,57 mg de sódio  Vitamina A (UI) 35,71, Vitamina A (Retinol equivalente) 3, 57 UI, Tiamina 2,32 mg, Riboflavina 0,25 mg, Niacina 4,64 mg,  e traços de Acido Ascórbico.

Acompanhe o simples processo da fabricação da 'ração NSG' logo abaixo, que em matéria prima tem custo médio de 300 reais a cada dois meses.

O processamento é higiênico, e ocorre neste galpão construído no Núcleo Serra Grande, com madeira de forro...






... onde Claudio inicia trituração dos ingredientes...







... a farinha resultante é compactada em formas destas de gelo, e levada ao forno rapidamente, o que dá consistência aos blocos ....






E foi assim que, quebrados, transformamos a crise em oportunidade de libertação de cartéis.




quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

do "Lanterna dos Afogados"




Uma sereia socorre um afogado. Sobre a cena do resgate incide uma luz branca, vinda do céu.





Falando do Projeto Lachesis e do Núcleo Serra Grande em 2012, reconheço essa mesma luz vinda do céu nas pessoas de Dener Giovanini, Diego Badaró, Rui Rocha, Victor Cantarelli, Nilza Silva Barbosa e meu filhinho Luca: "você se esforça muito papai, vai dar tudo certo..."

Final de ano é propicio a drama, 'quando tá escuro, e ninguém te ouve...' Não estou nessa, mas tem gente que sabe que o verso dos Paralamas se aplica sim a muitos momentos recentes do NSG, porque estiveram comigo 'quando tudo era ausência': http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2012/07/quando-tudo-era-ausencia-esperei.html

Sobrevivemos a mais um ano, é hora de agradecer.



sexta-feira, 19 de outubro de 2012

João e o Cio Barométrico




A cobra apareceu com a casa cheia de menino. Sem saber se era venenosa ou não, João levantou-a com um pau, caminhou 300 metros na noite chuvosa, e soltou na mata. Ao retornar, tinham mais duas da mesma especie, no mesmo lugar. Repetiu a operação de realocação.






João é vizinho em Serra Grande. Mandou-me as fotos para saber do veneno e dos riscos, e também preocupado por ter "separado a família".

Senti em seu relato o cheiro da oportunidade. A aventura do João vale mais que qualquer compendio acadêmico sobre reprodução de Lachesis.

Os fatos se deram numa noite chuvosa do dia 16 de outubro de 2012. Essa era a situação local,
observe ali na área de afunilamento do Sul da Bahia, trecho Ilhéus-Itacaré (e casa do João), fortes frentes frias - manchas verdes - em atividade.





Observe agora essa geladeira velha abaixo, imagem gentilmente cedida por Dean Ripa ...





























É a câmara fria do Dallas Zoo, onde em 1987, Boyer e colaboradores reproduziram surucucus (amazônicas) em cativeiro pela primeira vez, no mundo. Cio induzido: baixar temperatura, aumentar umidade. Como na entrada de uma frente fria. Na década de 90 Ripa reproduziu pela primeira vez os animais da America Central, com os mesmos métodos.

Faltava o animal da Mata Atlântica, e em 2007 foi a vez do Núcleo Serra Grande entrar para a historia do gênero, graças a uma especial atenção à meteorologia:

http://www.lachesisbrasil.com.br/download/BulChicagoHerpSoc_Vol42Num3pp41-43%282007%29.pdf


Observe que na base da primeira pagina do artigo acima eu já falava da influencia de fenômenos barométricos no cio de Lachesis. E a aventura de João só vem me confirmar tudo isso... As cobras não venenosas que ele encontrou em casa são Corallus hortulanus em tipico comportamento reprodutivo. Muito provavelmente dois machos, na trilha química de uma fêmea que despejou ferormônio no ambiente, por influencia de alterações súbitas de temperatura e umidade, entrada de frente fria. Cio barométrico.






João então não 'separou uma família', no pior cenário evitou que nova família fosse constituída, mas pode dormir tranquilo por ter quebrado o ciclo atávico do abate.

Confira também ultimo paragrafo da primeira coluna da pagina 161:

http://www.lachesisbrasil.com.br/download/BulChicagoHerpSoc_Vol43Num10pp157-164%282008%29.pdf



Lachesis e Graviola



Tem um vídeo alemão que mostra nosso trabalho em Serra Grande, em 2004-2005 http://www.lachesisbrasil.com.br/documentario.html  e nele aparece o amigo Lindoval fazendo e ingerindo o 'chá de sumo da graviola', Anona muricata, que é para onde correm os nativos da região cacaueira quando picados por Lachesis.

Já me perguntaram muitas vezes se acredito no chá, e a resposta é a mesma: acredito, desde que tomado a caminho do hospital, onde será administrado o soro.

Certa vez o Velho Oscar nos disse que a graviola 'era para dar tempo do infeliz chegar vivo ao hospital', coisa que costumava não acontecer, em épocas de socorro a saveiro de pena, em Nilo Peçanha, Bahia. A partir deste relato, percebi que no meu preconceito eu só pensava em neutralização de peçonha, algo inviável, ainda mais por via oral, de lenta absorção. Mas não era essa a questão: não se buscava neutralizar nada, mas melhorar o prognostico.

Alguma propriedade anti emética ? Alguma propriedade vasoativa ? O chá diminuiria vomito ? Ajudaria na queda de pressão ?

AS CONCLUSÕES FINAIS ESTÃO NO TRABALHO CITADO, PARA QUE NÃO TEM ACESSO COMPARTILHO OBSERVAÇÕES PRELIMINARES E PARCIAIS:

As alterações mais relevantes em animais injetados com a peçonha foram as relacionadas com ação miotóxica, resposta inflamatória, função renal e função hepática promovidas pelo envenenamento laquético, e evidenciadas pelas determinações de CK, Albumina, Uréia e TGO, respectivamente

Os tratamentos tanto com suco como com extrato da folhas de graviola não demonstraram efeitos significativos sobre a pressão arterial e TP

Quanto aos efeitos benéficos dos tratamentos, pode-se ressaltar:

- Tanto o tratamento com suco, como com extrato das folhas de graviola mostram uma recuperação mais acentuada no quadro miotóxico, diminuindo significativamente as concentrações de CK em VB+S T24h e VB+F T24h, quando comparado ao envenenamento sem tratamento

- O tratamento com Suco de graviola promoveu efeito protetor miotóxico nas primeiras horas de envenenamento (VB+S T1h e VB+S T6h)

- O tratamento com Suco de graviola promoveu discreto diminuição de TTPA na primeira hora após o envenenamento (VB+S T1h), favorecendo a coagulação sanguínea, enquanto que o envenenamento sem tratamento favorece a incoagulabilidade do sangue. O tratamento com Extrato das folhas promoveu
redução não significativa de TTPA na primeira hora após o envenenamento, sugerindo efeito benéfico também do extrato das folhas de graviola

- Os grupos tratados com Suco e com Extrato das folhas de graviola apresentaram TP próximos aos Controles quando comparados com o grupo sem tratamento, sugerindo efeito benéfico dos tratamentos sobre a coagulação sanguínea

- O tratamento com Extrato das Folhas de graviola ajudou no controle glicemico na primeira hora após o envenenamento. (VB+F T1h)

- O tratamento com Extrato das Folhas de graviola contribuiu com a excreção de Uréia quando comparado ao grupo sem tratamento, 6h após o envenenamento (VB+F T6h), sugerindo uma melhora na função renal nesta etapa do envenenamento

- O tratamento com Suco contribuiu com a manutenção das concentrações de albumina e proteínas totais, na primeira hora após o envenenamento (VB+S T1h), sugerindo possível efeito protetor/ anti-inflamatório do suco .

Os tratamentos também apresentaram efeitos indesejáveis, como:

- Tanto o tratamento com Suco, como com Extrato de Folhas de graviola agravaram o quadro hemolítico, demonstrado pela diminuição dos níveis de hematócrito, concentração de hemoglobina total e redução do número de eritrócitos 24h após a injeção da peçonha, quando comparados ao grupo sem tratamento

- Tratamento com Extrato das Folhas de graviola mostrou diminuição significativa tanto da albumina quanto das proteínas totais após a primeira hora de envenenamento (VB+F T6h e VB+F T24h), sugerindo agravamento do quadro inflamatório e possivelmente potencializando a resposta de fase aguda frente ao
envenenamento

- Tanto o tratamento com Suco, como com Extrato de Folhas de graviola sugerem agravamento da injuria hepática, baseado no aumento significativo de TGO nos grupos tratados em relação ao grupo não tratado.









































domingo, 29 de julho de 2012

"Você fala com cobra ?"



Melhor seria perguntar: "cobra fala ?"

A resposta é sim, e abordaremos aqui um pouco da linguagem corporal ("fala") em Lachesis.

Começo por onde o problema é certo (clique sobre a imagem): o animal abaixo é da Paraíba, e foi fotogrado pelo Wilianilson Pessoa, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

O que a cobra fala aqui é: "SAI FORA, AGORA, NEM UM MILIMETRO MAIS PERTO"


Batimentos de língua lentos, muito lentos, 30 ou menos por minuto, significam eminencia de bote. Com a língua, o animal está captando partículas no ar e levando-as ao órgão de Jacobson no céu da boca, uma via direta para o cérebro do animal, onde ocorrerá o processando dos odores. Juntamente com a fosseta loreal, sensível a variações de temperatura de até 0,04 °C, temos aqui dois equipamentos que permitem à surucucu caçar ratinhos, à noite, no solo alagado da Mata Atlântica, ou desfazer este duplo S em fração de segundos naquele que invade seu espaço de conforto. Quem é do mato sabe: 'surucucu não erra nem desperdiça bote'  


The Atlantic Bushmaster in Serra Grande, in ethical confinement. The animal is considered 'Vulnerable', by the International Union for  the Conservation of Nature, in Rio de Janeiro and Minas Gerais states it might be already extinct
O comportamento na foto inicial pode seguir-se desta demonstração acima, quando o animal, numa tentativa final (antes do bote) de afastar o perigo, aciona o 'efeito gular', que é inflar o papo com respiração ruidosa, como se dissesse: "DAQUI PARA FRENTE FECHOU O TEMPO"

Esta imagem pode vir a ser a sequencia das duas primeiras (foto minha, Itacaré, BA), só que com o animal já se levantado do solo, em 40, 60, 80 cm. É daqui que surgiu o mito popular que 'surucucu fica em pé na ponta do rabo'. É o pior cenário para quem encurralar este animal. Surucucu em Tupi Guarani significa 'aquela que dá botes sucessivos', o que de fato pode vir a ocorrer, se a fonte térmica mante-se além no perímetro de conforto do animal. Assim, o que a cobra fala aqui é: "VOU TE AFASTAR AGORA, CUSTE O QUE CUSTAR" (1,2, 3 botes em sequencia rápida).  



Na sequencia das 'falas' de Lachesis, uma que realmente chega aos ouvidos. Há uma escama adaptada na ponta da cauda de Lachesis, que quando vibrada contra o folhiço da Mata, emite o ruidoso alerta, em alto e bom tom: "Estou aqui, não me pise....".

 Daí as primeiras nomenclaturas de Lachesis... o Crotalus mutus de Linnaeus. Confira abaixo...



                                video



 Resta apenas agora aquele momento em que a cobra não está 'falando', mas 'pensando': "DEIXA EU FICAR QUIETA AQUI QUE QUEM SABE ESTE BICHO GRANDE NÃO ME VÊ... " É a imobilidade confiando na camuflagem, confira abaixo.


video


É assim portanto que um réptil, ao contrario dos humanos, expressa claramente seus sentimentos, e os movimentos por vir.




domingo, 22 de julho de 2012

A incrível historia da primeira Lachesis descrita para o Rio Grande do Norte, e de gente que faz sua própria lei ou, colocando a Herpetologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte com a faca e o queijo na mão....


10/08/2008: "Consegui umas Lachesis novas, Lachesis acrochorda a mais rara das Lachesis, e a primeira Lachesis muta que se tem noticia do RN, o animal foi coletado na cidade de Bahia Formosa no litoral sul do Rio Grande do Norte, bicho bem diferente cabeça negra sem nenhuma mancha parece uma melanocephala só que avermelhada como qualquer muta da Mata Atlântica


Localização de Baía Formosa

Local do maior remanescente de Mata Atlântica do estado, a Mata da Estrela com mais de 2000 hectares, e divisa com a Paraíba, onde Lachesis é descrita, Bahia Formosa é um porto natural, unica baia do Rio Grande do Norte, lugar encantador.

Baía Formosa, RN.jpg


O animal em questão é fruto do trafico ilegal de animais silvestres no Brasil.

O autor do texto que abre esta postagem é um advogado do Rio de Janeiro, um colecionador, autoridade informal reconhecido em alguns meios da Herpetologia acadêmica, e que me escreveu sob pseudônimo.

Em 31/05/2006 ele se apresenta assim: "... não sou da área não sou Biólogo, sou formado em Direito pela UFRJ e me dedico desde os 8 anos de idade a manutenção desses animais como hobbie, já obtive sucesso na reprodução de diversas Bothrops nativas do Brasil e agora estou tentando reproduzir Lachesis, possuo 4 animais saudáveis que se alimentam muito bem em cativeiro, como não tenho o espaço que o senhor possui para manter esses animais em um local que se assemelhe ao ambiente natural, acabei tendo que lançar mão da tecnologia que já é muito usada nos EUA, por herpetocultores, para manter com relativo sucesso tais indivíduos e os resultados estão vindo em minha criação amadorista in door. Sei que sou um criminoso"

É texto de quase duas laudas. Fiquei muito impressionado com a quantidade de 'inside information' desta pessoa, sobre bastidores e medalhões dos grandes institutos de produção de soro brasileiros. Fazendo cruzamento de dados que esta pessoa me passava, com dados que eu já tinha levantado com gente de dentro destes institutos, pude perceber que ele sabia o que estava falando: muita farsa na manutenção e reprodução de Lachesis, muita vaidade, e acima de tudo uma grande vontade de destruir nosso trabalho no Sul da Bahia.

Em 04/06/2006 o tal advogado escreve:

"Eu sei que o senhor não conhece esse submundo onde eu e outros colecionadores estamos mas a coisa é realmente como eu lhe disse, muitos Gringos  acham que podem chegar aqui e ir levando nossos animais, eu tenho larga experiência em coleta, e sei que as coisas não são fáceis..."

Submundo ou não, pude rapidamente perceber que não lidava com um amador nas questões de lida, sistematica, taxonomia. Para minha grande surpresa, a mais completa coleção de Bothrops do Brasil estava na mão de um criador clandestino, bem como inigualáveis resultados na reprodução em cativeiro daquele gênero.




Cópula de Bothrops venezuelensis, nascimentos de Phortidium, extinta na natureza no Equador. Imagens que provavam a competência que eu intuía no tal sujeito. Mas restava o enigma da reprodução de Lachesis em cativeiro, e do alto da sua experiencia reproduzindo tudo o que lhe caia em mãos, o tal advogado me lança um desafio construtivo, não acreditando - como ninguém acreditava - em meus métodos arcaicos:
"Eu sou um mero colecionador Dr. Rodrigo, um dos grandes mas não passo de
mero colecionador, tenho 5 Lachesis e essas 5 jamais irão salvar uma população,
mesmo reproduzindo todo ano, não há amplitude genética para isso, mas foi como eu 
lhe falei e até irei lançar um desafio a você: Você continua com seu método, 
eu seguirei com o meu, e vamos ver quem terá a primeira ninhada de Lachesis 
muta rhombeata, esse é um desafio saudável para nós 2, quem conseguir 
primeiro, publica um artigo com dados, fotos e etc.. em PDF e lança para o 
meio cientifico o primeiro caso realmente documentado de acasalamento, 
gestação, postura, incubação e nascimento de Lachesis muta rhombeata do 
mundo.

Tentar reproduzir é uma coisa Dr. Rodrigo, reproduzir verdadeiramente é 
outra, e você ainda não conseguiu reproduzir nada. Você vai chegar ao Topo quando 
reproduzir e documentar todos os estágios, passar para um PDF e lançar na 
cara da comunidade cientifica. Aí sim você vai humilhar TODA a elite de
Merda da Herpetologia desse país,criando como você cria, eles ainda se sentem por
cima e ainda tem a audácia em tentar tomar seus animais, por que você esta no mesmo
patamar deles, não reproduziu nada ainda.

O Desafio esta lançado, vamos ver quem reproduz isso primeiro, eu estou na 
desvantagem, tenho apenas 5 animais, mas acho que ganho mais essa, como 
também ganhei com Porthidium arcosae. A única diferença é que se eu ganho 
não tem valor algum, mas se você ganha, há um real valor e inestimável para 
a espécie. Você é o único que pode salvar uma população endêmica da nossa 
Mata Atlântica, e isso é um FATO INCONTESTÁVEL"
Em 01/03/2007 comunico que 'venci a aposta' com fotos de nascimentos de muitos
filhotes, e recebo a resposta:
"Congratulações e mais congratulações por esses filhotes, agora sim, prepare 
uma bela descrição que eu faço isso rodar o mundo, para que todos saibam, 
para que todos os herpetólogos respeitados conheçam e respeitem o seu 
CRIATÓRIO por que agora sim vocês tem um criatório, antes desses filhotes 
você tinha apenas um aglomerado de Lachesis e nada alem disso, você 
conseguiu posturas e mais ... conseguiu eclodir os ovos, agora é a recria, o 
que não é difícil, ainda mais pela qualidade desse filhote que aparece bem 
na fotografia, o animal esta em ótimo estado físico com certeza irá vingar, 
mas essa já é outra etapa, a inicial você já ultrapassou, conseguiu uma 
postura, e nascimento de filhotes com ótima qualidade, é isso que você 
precisa esfregar na cara do ****, é isso que você precisa esfregar na cara 
dos biólogos por ai que querem detonar com seu CRIATORIO, papo furado, 
brigas via email, provocações e acusações mesmo que verídicas não estavam 
contribuindo muito. Mais uma vez parabéns". Confira as imagens abaixo....

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/01/carl-gustav-jung-e-o-clube-da-surucucu.html
Pasmo, continuava recebendo correspondências que revelavam um absoluto destemor, pela vida de clandestino e pela lida com animais especialmente difíceis. Quando apelei para a atenção à segurança, recebi a resposta abaixo das imagens....





"Não há como adquirir soro ilegalmente, como adquiro qualquer espécie que seja, o soro é complexo, não sai dos países sem autorização lá e cá, então conto com as medidas de segurança absoluta, não dou oportunidade para que os acidentes ocorram. Najas são complexas realmente, no momento tenho 13 animais de 6 espécies diferentes, e tenho o maior cuidado com todas elas, as cuspideiras são complexas no manejo, mas as do Norte do Africa são as mais rapidas. Aqui onde estou tenho só 3 fotos, e vou lhe mandar ... uma de Naja kaouthia albina femea, ainda bem jovem, outra de uma jovem fêmea Naja legionis que ficará totalmente negra quando adulta e a ultima uma Cerastes cerastes, bichinho dos mais interessantes. Hoje minha coleção é a maior da America do sul e central, com maior numero de gêneros e espécies peçonhentas ... isso claro, depois de 2 importações que somaram 108 animais importados, fora as espécies brasileiras e algumas da exóticas que eu ja mantinha. Tenho um esquema infalivel para importar o que quer que seja, é um pouco caro mais vale a pena. O meu esquema é 100% seguro mas também 100% ilegal ... consegui stenophrys e o mesmo cara me garante um casal de melanocephala, mas até agora, não achou filhotes a venda para comprar por la e me mandar, alem disso, com certeza ele esta procurando um preço bom"
Mas de repente o cara sumiu de vez, espero sinceramente que os bichinhos acima nada tenham a ver com isso. E é essa a incrível historia da primeira Lachesis do Rio Grande do Norte, e de um sujeito sem medo, sem limites, mas para mim - bandido ou não - de grande credibilidade se o tema é herpetologia.
O Reptile Database já sinaliza para a ampliação da distribuição geográfica da surucucu da Mata Atlântica

http://reptile-database.reptarium.cz/species?genus=Lachesis&species=muta


sexta-feira, 20 de julho de 2012

Athayde, Diego e a Floresta de Chocolate na Bahia: sobre a ultima chance, das ultimas surucucus da Mata Atlântica


Para quem não sabe, o cacau cultivado de forma orgânica produz o melhor chocolate, sendo que o cultivo orgânico é basicamente manter o cacaueiro em ambiente de alta biodiversidade, a Mata Atlântica preservada, território natural de Lachesis.


A surucucu está acabando por falta de habitat, veja fotos de satélite da região Ilhéus-Itabuna - http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2012/07/vanzolini-revisitado.html - e o boom do chocolate orgânico exige preservação de biodiversidade em níveis máximos. Atente aqui que não nos referimos ao chocolate tradicional, mas ao chamado chocolate gourmet, feito à partir dos grãos e com certificação ambiental, algo novo no Brasil (2010). O rato paca (foto) - abundante na Mata Atlântica preservada, aquela do cacau orgânico, que não usa 'defensivos agrícolas' - é um animal que se reproduz muito e que adora a amêndoa do cacau. Se não controlado, inviabiliza o negocio. A surucucu, maior cobra venenosa das Américas e segunda do mundo, só chega a esse porte comendo muito rato, e é o principal agente deste controle populacional de roedores no cacaual. Assim, pode-se dizer que preservação de Lachesis é também investimento, e neste contexto, o da preservação de habitat como necessidade básica para a produção de chocolates de excepcional qualidade, reside para mim sua ultima chance antes da extinção na natureza. 

Que eu saiba, foi Dener Giovanini do RENCTAS quem primeiro atribuiu às surucucus  o status de "Guardiãs do Chocolate" http://www.youtube.com/watch?v=YTitbs5Gw4Y&feature=plcp

Desde sempre gente como Eduardo Athayde apontava para o caminho da conservação através dos negócios. Confira:

Date: Sat, 19 Nov 2011 09:02:50 -0200
Subject: Associação Comercial da Bahia - ACB firma convênio com a Califórnia para promover a BTS e o Chocolate da Bahia
From: rotarybts@gmail.com
To: RotaryBTS@googlegroups.com

Associação Comercial da Bahia - ACB firma convênio com a Califórnia

Em concorrido evento na Federação das Indústrias do Estado da Bahia - FIEB, o presidente da Associação Comercial da Bahia, Marcos de Meirelles Fonseca e Sean Randolph, presidente Instituto de Desenvolvimento Econômico da Califórnia, firmaram convênio de cooperação entre as duas instituições.

Para o presidente da ACB “esta é mais uma iniciativa da Associação, preocupada com o desenvolvimento sustentável e apoiadora de projetos que consolidem a região da Baía de Todos os Santos no cenário turístico mundial”. Sean Randolph, que também é presidente da Agência de Desenvolvimento da Baía de São Francisco, veio à Bahia a convite da ACB, do Governo do Estado e do Rotary Baia de Todos os Santos, para estreitar os laços entre os estados e preparar a visita de investidores californianos à Bahia.

Uma das áreas em foco é a Baía de Todos os Santos - BTS, que, a partir do acordo firmado, receberá a apoio da Agência da Baía de São Francisco para a criação da Agência de Gestão da BTS. "Empresários californianos têm interesse em investir no desenvolvimento turístico da área, desde que encontrem as mesmas regras de preservação que têm em São Francisco, e garantem o desenvolvimento econômico local", afirmou o advogado Geoffrey Gibbs, membro da comitiva californiana que visitou a Bahia.

Floresta de Chocolate

A outra área de interesse dos californianos para desenvolvimento turístico é a região cacaueira da Mata Atlântica - batizada no relatório do WWI-Worldwatch Institute como Floresta de Chocolate da Bahia - único lugar do mundo onde o cacau é produzido em alta biodiversidade. Interessados na BTS, nas energias eólica e solar, no chocolate, na biodiversidade, no turismo e no acolhimento do povo da Bahia, organizam visita de investidores no início de 2012.

Os californianos viram o documentário “Saga do Cacau”, exibido pela Rede Globo Bahia e produzido com apoio do WWI-Worldwatch Institute, filmado em países europeus, mostrando chocolateiros italianos e suíços importando cacau da Bahia e produzindo chocolate de alta qualidade. Se é possível fazer chocolate de alta qualidade na Europa com o cacau da Bahia, é possível fazer o mesmo nas biodiversas “Fazendas de Chocolate” daqui, se forem preparadas para receber bem os turistas com banhos, cremes e produção personalizada de chocolate. Este é um exemplo de "Economia Verde", foco da Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável da ONU [Rio+20] que trará presidentes de corporações, investidores e a mídia internacional para o Brasil em junho de 2012.

O diretor da ACB, Eduardo Athayde, que recepcionou os californianos, mostrou que o Chocolate da Bahia, produzido no ambiente biodiverso da Mata Atlântica, batizado de Floresta de Chocolate, já está sendo degustado na Califórnia. Amêndoas secas de cacau fino da Mata Atlântica, com terroir (sabor característico do local da roça que está plantado) especificado, saídas das barcaças vão direto para este seleto grupo formador de opinião no formato de “chocolate-nibs” ou “cocoa-granola” ao preço de 20,62 dólares por 12 onças (34 gramas). 97% do conteúdo dessas embalagens que exibem mensagens sobre o poder nutritivo do cacau, são amêndoa de cacau in natura. Cada quilo de amêndoa de cacau in natura é vendido lá a 60 dólares, o que dá à saca de cacau fino o valor de 3.600 dólares, cerca de 6.400 reais.

Exemplo de cultivo orgânico, ilustrando a busca pela excelência na produção do chocolate, é a parceria AMMA/DAGOBA, do Diego Badaró.

Conheci o sujeito a alguns anos, no Villas de São José do amigo comum, Clebinho. Fala mansa, foco, know-how, me chamaram a atenção. Fora o fato de ter passado dias com uma surucucu no carro, à minha procura. O bicho estava em sua linha de produção, não poderia ser abatido, nem permanecer onde estava. Somos poetas práticos, e esse é sem duvida o caminho:

http://www.youtube.com/watch?v=KNI4ZlLSc5g&feature=related


LEIA TAMBÉM: http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2012/08/nana-lachesis-e-o-chocolate.html

domingo, 15 de julho de 2012

Vanzolini revisitado







A tentativa de ilustrar objetivamente o conceito de 'pressão antrópica' sobre Lachesis, levou-me ao site 'Acorda minha gente'. Com sua licença, Paulo Paiva.

Nas fotografias aéreas abaixo, vegetação ao norte e oeste de Ilhéus e Itabuna. Como já relatado, o gênero é dependente da Mata Atlântica preservada e seu alto gradiente de umidade relativa do ar, fora do qual ovos se ressecam, e não há nascimentos.

Mais sobre os ovos de Lachesis: http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/07/sobre-os-ovos.html 

O bioma fragmentado em 'ilhas verdes' promove consanguinidade. A quebra da permuta genética apropriada é inevitável caminho de extinção das espécies.

Aprofundando o declínio populacional, a invasão do bioma promove o explosivo encontro homem x surucucu, ocasião em que o abate é tido como a única alternativa viável.

Confira: http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/02/eco-biologia-do-generobaseada-no.html

Isto posto, voltemos a Vanzolini: "A meu ver é urgente proteger essa especie porque é um predador de grande porte confinado a uma área restrita (a Mata Atlântica, do Rio para o Norte) e sob duríssima pressão antrópica. É um bicho precioso e emblemático"


A colcha de retalhos fala por si.


Da aproximação a Ilhéus, abaixo....






Passando pelas cabrucas de Ibicuí, abaixo....






a partir de Floresta Azul, abaixo, não há mais Mata Atlântica, somente cenários de extinção e baixa produtividade ...












Aproximação de Buerarema, Ibicaraí e Itabuna, abaixo. 30.000 hectares de solo degradado, ausência de mata ciliar no Rio Cachoeira.....






O QUE ESPERAR DO FUTURO DE LACHESIS NA NATUREZA, NUM HORIZONTE DE 50 ANOS ?

E QUAL O FUTURO DOS 7% RESIDUAIS DA PRÓPRIA MATA ATLÂNTICA ?


Mais sobre o Professor:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/01/os-essenciais-7-paulo-emilio-vanzolini.html







domingo, 8 de julho de 2012

Sem prevenir, não há como remediar


Outro leitor pergunta sobre a questão da vermifugação rotineira, ilustrada aqui:
http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/06/pergunta-preto-resposta-azul.html

É isso mesmo: estes vermes, os porocephalus, são bem grandes, só removíveis com endoscopia, e se você vermifuga um animal pesadamente parasitado, ele morre por pneumonite - reação de corpo estranho no trato respiratório, onde as carcaças dos vermes entram em autólise - ou asfixia mecânica, quando estas 'rolhas moveis' - vide porocephalus na traquéia na foto maior - tentam abandonar o animal em massa, fugindo do vermifugo, como ratos abandonando o navio que afunda.

Daí a importância da rotina, da vermifugação preventiva, para que não ocorram tragedias como esta abaixo compartilhada pelo amigo e herpetólogo Guilherme Galassi: animal (jararacuçu) pesadamente parasitado, indo a óbito pós vermifugação...






Concluo com uma homenagem ao Guilherme Galassi, ilustrando na foto abaixo sua competência em manejo, seu amor pelos répteis, e seu permanente esforço na educação ambiental. Essa é sem duvida a mais linda, mais bem cuidada Urutu (Bothrops alternatus) que vi na minha vida, e foram muitas...





Dores do parto


Leitor indaga sobre possibilidade de problemas durante postura de ovos, e minha resposta é sim, pode ocorrer de tudo nesta etapa critica - como em todo parto - inclusive morte da fêmea. Em hipótese alguma o animal deve ser manipulado quando em postura, a não ser para medidas drásticas como cesáreas ou esvaziamento do conteúdo de um ovo especifico, como nos casos abaixo, do NSG.







No mundo ideal, casos como este são tratados com radiologia e exames de sangue, à priori. Só enfrentei este problema em período de postura, mas massas podem surgir do nada, em constipações e canceres por exemplo. Se é período pre postural, o sinal amarelo se acende quando vemos uma fêmea inquieta, em movimentação excessiva como que massageando a área da obstrução contra acidentes do relevo do viveiro. Imersão em banho morno da área afetada, acompanhada de gentil tentativa de alinhamento do ovo 'encroado' (essa manobra chama-se 'versão externa'), pode provocar imediata resolução do problema. Em um dos nossos casos, KY gel introduzido sob pressão na cloaca, via sonda uretral humana conectada a seringa de 20 cc, resolveu o problema com rapida eliminação de ovo atrésico e deformado. Em outra oportunidade, com gelco 18 em seringa de 60 cc aspiramos conteúdo de outro ovo atrésico, e a postura seguiu sem intercorrências.

Mas pode ser pior. Nas radiografias abaixo (cortesia Guilherme Galassi), um agrupamento de ovos atrésicos compactou-se numa Bothrops jararacussu, aderindo-se a estruturas adjacentes (coluna inclusive), levando a obstrução intestinal sem possibilidade de correção cirúrgica, e óbito do animal.





Há um excelente livro que ensina como lidar com estes sérios problemas: "Ball phyton book" de Dave and Tracy Baker, disponível on line. É um livro sobre pitons, mas o approach a problemas como este é universal.


sábado, 7 de julho de 2012

Surucucu, cachaça e maconha



No post anterior falo de uma exigência de Dr. Alfredo Palau, Ibama / RAN quando da vistoria de 2005: um gigantesco muro cercando a área das cobras no Núcleo Serra Grande, com o objetivo de 1) servir como barreira para fugas de Lachesis, para 2) evitar tentativas de entrada de predadores no biotério, para 3) evitar fuga de ratos de laboratório para a Mata Atlântica, para 4) proteger as cobras contra fogo vindo do vizinho, e 5) para impedir vandalismo.

Recebi uma mensagem na qual se fala de "arbitrariedade" nesta exigência milionária, e se ela não seria uma maneira indireta de me forçar a desistir. Sinceramente não pensei em questionar Dr. Alfredo Palau, entendi sua preocupação e procurei - com sucesso - mobilizar forças para fazer acontecer.

Mas confesso que pensei na hora: "vandalismo ? esse povo é apavorado com surucucu, quem poderia se meter com elas aqui dentro do NSG ? "

Mas não deu outra. 2006, obras em curso, muro não concluído. Num domingo, cinco homens resolvem fazer uma festinha entre os viveiros. Muita cachaça, maconha e covardia. Achavam que não havia vigilância, que não havia gente olhando naqueles confins de mata.

O olheiro sentiu medo e não interviu. Disse que os sujeitos estavam 'brabos', e assim observou de longe a ação.

Na segunda feira, encontrei um grande macho já agonizando com quatro perfurações pelo corpo, e recebi o relato detalhado da festinha. Ao lado de um viveiro uma vara tipo taco de sinuca - veja-a na ultimas das fotos abaixo - feita para transfixar de longe, através da tela, um animal indefeso.

Com contatos e algum serviço de inteligencia, em 48 hs caçamos e prendemos os cinco.

Fotos não falam, mas as expressões destas pessoas, no momento em que lhes esfrego a cobra morta na cara, mostram como a chapa estava quente.

Um vizinho do NSG, senhor idoso, agricultor pobre, mais tarde diria: 'É doutor, a noticia correu por aqui, pararam até de roubar meus cocos...'











quinta-feira, 5 de julho de 2012

"Quando tudo era ausência, esperei"



6:45 da manhã. Manobrava o carro para levar meu filho para a escola. Escutei o soluço. Luquinha chorava silenciosamente.

Tinha escutado a palavra 'divórcio' numa conversa entre Ana e eu, na noite anterior.

É que num oficio de maio de 2011, o Ibama, ou parte dele, sugeria à Policia Federal que além de fechar o criatório, eu deveria ser multado em hum milhão de reais, pelo crime de reproduzir Lachesis em cativeiro.

Antecipei-me à convocações, procurei a PF, prestei esclarecimentos, protocolei documentos.

Comprei sacos de farinha, lavei bem lavado, estava pronto para ensacar as surucucus e entregá-las à morte certa. Assim, fugiria da autuação. Hum milhão de reais é valor que coloca meus netos em divida. Mas não tive o estomago para seguir em frente com tamanha covardia.




E assim, na noite citada, discutia com Ana o divórcio, para que ela não se ferrasse comigo, em função no nosso casamento em comunhão de bens.

E Luca então se viu sem família, por aí como tantos coleguinhas e suas mães tão católicas, com suas missas e sinais da cruz e evocações de deus, mas incapazes de discutir guarda compartilhada.

Explicamos ao meu filho o que de fato ocorria, e entendendo, tranquilizou-se.

Espada de Dámocles


                   

PS: "Hey you bastards, I'm still here" http://www.youtube.com/watch?v=4XGWXmxmaoE




sexta-feira, 22 de junho de 2012

"Sucuri come gente ?"




Há uma pergunta recorrente no blog: "Já acharam gente na barriga de sucuri (ou 'anaconda') ?"

A resposta é não, e os detalhes estão aqui:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/04/os-essenciais-8-dr-vidal-haddad-ou-de.html

Mas e as duas meninas ? A resposta também é não, sucuris nada tem a ver com o evento, comentado aqui:

http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/05/sobre-sucuri-que-matou-duas-meninas-no.html

E o dentista, a criança em cima da vitória régia e etc ? Respondo que são relatos sem comprovação. Ouvir dizer não vale nesse blog.

Mas sucuri ataca, é perigosa, já matou gente comprovadamente ?
A resposta é sim: ataca, é perigosa, e já matou gente comprovadamente (Pará). Mas não engoliu.

Confira relato de ataque comprovado e não fatal, na pagina 687 no link abaixo: http://www.scielo.br/pdf/aa/v39n3/v39n3a25.pdf

Fui chamado pela Policia Militar para remover esta cobra do centro de Itacaré, num sábado de Carnaval à noite, com centenas de testemunhas.




Meu equipamento era um remo de canoa velho. Num dado momento perguntei a Katú: 'se eu for no pescoço dela, você segura a laçada que ela vai me mandar ?' Katú é homem, disse que ia, e foi. Na sequencia outros quatro se agarraram aos metros finais do animal, e ela 'fez sanfona' com nós seis.

Tenho 1,82 mts e vi bote da altura do meu rosto neste dia. Não somos páreo para os grandes Boídeos.

Ainda assim, nunca se achou gente na barriga de uma sucuri no Brasil.

Já na Asia, grandes pitons matam e comem gente. Fico até tentado a terminar esta postagem com aquelas imagens dramáticas do sujeito sendo devorado na Malásia, mas concluo com uma exibição da força bruta dos Boídeos, num registro que me foi enviado por Dra. Anna Young, da Austrália.






sábado, 16 de junho de 2012

Morte súbita em Lachesis cativas


Dentre os Viperídeos brasileiros, a surucucu é o animal mais frágil, e que apresenta maior grau de dificuldade para manutenção em cativeiro.

Recebo a pouco a seguinte correspondência:

Caro amigo Rodrigo,

Acabei de perder a Ferrari da coleção.

Estava comigo desde 2010, trocou de pele 12 vezes, alimentava-se quase toda semana.

Ontem estava bem e hoje a encontro contorcida, de barriga para cima.

Estava com 1,97 mts e 3.454 Kg.

Você já teve este tipo de problema por aí ? O animal aparenta estar bem e do nada vir a morrer ?

Tem alguma suspeita ?




Em primeiro lugar, lamento, mas morte súbita não é - infelizmente - uma novidade para os que se dedicam ao gênero. Mantenha o animal congelado. Formolização pode dificultar a investigação e a necropsia.

Antecedendo a necropsia algumas considerações. Num modelo de caixa para Lachesis como o abaixo, de 2,00 mts x 70 x 70 cm, usa-se muito silicone. O produto SilTrade Manutenção RTV não contem metais pesados e fungicidas, comuns em outras formulações, e que podem matar o animal.




Asfixia mecânica por porocephalus pode ser causa de morte súbita. Parasitas grandes (6cm), só removíveis por endoscopia, podem obstruir a traqueia num animal aparentemente são.




Necropsia no Nucleo Serra Grande: pulmão congesto, repleto de vermes adultos, que ao morrerem provocaram 'reação de corpo estranho' e pneumonite (inflamação pulmonar) seguida de pneumonia (infecção bacteriana no sitio da inflamação), levando o animal a insuficiencia respiratoria e morte. OU SEJA, não se pode esperar para vermifugar, se a cobra cheia de parasitas no pulmão receber anti parasitarios, morrerá. O segredo é rotina semestral na medicação: tanto todas as cobras quanto bioterio, o que impedirá em parte as infestações maciças, que são no fundo, incontroláveis.


Outra causa de morte súbita é manipulação de animais em processo de digestão, ou que sofrem pequenas quedas: os ligamentos internos são frágeis demais, e uma vez rompidos, ocorrem hemorragias rapidamente fatais. Uso do laço tende a provocar trauma raquimedular em Lachesis.

Infestação por Paramixovirus (PMV) normalmente mata em 10 dias em media, mas segundo Ripa, que é acessorado por Veterinários especializados, pode matar em 24 hs indivíduos aparentemente hígidos. O Brasil é hoje foco endêmico de PMV, trazido de fora do país, devastador ao atingir animal sem imunidade.

Os extremos de temperatura do mundo de Lachesis são 17-27° C, abaixo ou acima disso na manutenção é problema certo. Susceptibilidade a infecção de um lado, e do outro regurgitações, com possibilidade  de lesão esofágica.

Até que ponto a morte foi realmente súbita ?

Um animal raramente visto 'na integra' pode estar em curso terminal sem que nos atentemos para o fato.

É esse o nosso ponto de vista mais frequente ?



Possibilidade de inspeção visual do abdome pode revelar 'pink belly' inicial, tratável. É uma  infecção mista, fúngica e bacteriana, normalmente ocasionada por substrato úmido, e que rapidamente evolui para sepse e morte



É possível antecipar graves problemas antes do curso terminal. Se o substrato do recinto é orgânico, ou ele permanece 100% seco e renovado, ou Pseudomonas ssp., Providencia ssp., Proteus ssp., Aeromonas hydrophila e Escherichia coli surgirão previsivelmente, causando pneumonias rapidamente fatais

Receita para complicações: substrato úmido e com dejetos - um meio de cultura bacteriano - umidade excessiva condensando no vidro do recinto pouco aerado e sem acesso a luz solar, também utilizado como 'mesa' para outros repteis da coleção, facilitando infecção cruzada.




























Resumindo, há morte súbita, e morte aparentemente súbita em Lachesis cativas. Há o evitável, e a causa mortis desconhecida, inesperada e aguda, mas cujos agentes causais podem estar relacionados aos fatores ou condições enumerados em negrito neste texto. Necropsia revelando granulomas em pulmões, rins e figado sugerem cronicidade: doença em curso, animal 'bem', e subitamente, morte.

Fig. 3.
Granuloma em figado de Natrix tessellata, cortesia Andrei Mihalca


LEIA TAMBEM: http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/06/pergunta-preto-resposta-azul.html