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domingo, 16 de janeiro de 2011

Os essenciais 7 - Paulo Emílio Vanzolini, in memorian



'Sai bravo, cheguei manso
Macho da mesma maneira
Estrada foi boa mestra
Me deu lição verdadeira
Coragem num tá no grito
E nem riqueza na algibeira'


Falava em homens de moral no post anterior sobre os Villas Boas, confira: http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/01/surucucu-orlando-moral-e-misterios.html

Em sendo 'moral' o tema, a sequencia natural é lembrar o Dr. Vanzolini.

Quando o NSG estava nascendo, dez anos atrás, nem a mais básica das perguntas tinha uma resposta: o que difere a surucucu da Mata Atlântica da Amazônica ? Ninguém sabia, e falo não por mim, que era só um sapo em meio á tanta "cobra criada" consultada, ninguém sabia. Ou sabe.

Para mim, erroneamente, o habitat sem fim do animal amazônico protegia e permitia o desenvolvimento dos gigantes, a verdadeira surucucu. Ao contrario, as matas atlânticas (Ab'Saber), tombadas em 93%, induziriam Lachesis a menos tempo de vida (pressão antrópica) e menos intercambio genético, gerando a "surucutinga", um diminutivo em relação ao bichão amazônico  Nesse raciocínio  só o tamanho diferenciaria muta muta, de muta rhombeata

Alguém lançou uma luz: "só o Vanzolini para responder essa" e logo veio o adendo, "mas não adianta nem tentar, ele não responde carta de ninguém".

Tinha visto um documentário seu, os "Os calangos de Boiaçú", e nele o Professor dizia: "com esta espingarda (parecia uma 36, de 2 canos, linda) e 2 litros de formol, criei seis filhos", e aquilo me marcou. Pois bem, este era o homem que tinha a resposta, mas que iria ignorar-me se consultado.

Escreví.


Em 27 de dezembro de 2003 recebo dele a seguinte correspondência:


"Lachesis rhombeata foi descrita pelo Principe de Wied-Neuwied em 1825 (Beiträge Zur Naturgerschichte von Brazilien, vol. 1, p. 449-468)

A descrição (de vários exemplares) é muito detalhada. Ele não designa localidade tipo, mas cita: Morro da Arara, Rio Iritiba, Itapemirim, Rio Doce e Peruhype.

As localidades de Wied são discutidas por Bokerman, 1957, arquivos de Zoologia 10 (3): 209-251.

O artigo pode ser obtido da Biblioteca deste Museu.

Hoge (1966, Mem. Inst. Butantan 32 ("1965"): 109-184) descreveu ( p.162) Lachesis muta noctivaga, de Vitória, Espirito Santo, com os seguintes caracteres diferenciais:

a) manchas no topo da cabeça grandes, bem distintas (pequenas em muta)

b) faixa postocular preta e larga, não marginada de branco (estreita, marginada, em muta)

c) colorido geral avermelhado brilhante (acinzentado em muta)

d) dorsais 33-37, ventrais 214-247 em machos, 226-246 em femeas; sub-caudais 31-48.

O trabalho contem uma boa prancha colorida da cabeça (prancha 20)

Mais tarde chamei a atenção de Hoge sobre a especie de Wied, e ele mesmo fez a sinonimia.

Eu pessoalmente considero isso tudo supérfluo  A meu ver é urgente proteger essa especie porque é um predador de grande porte confinado a uma área restrita (a Mata Atlantica, do Rio para o Norte) e sob duríssima pressão antrópica. é um bicho precioso e emblemático.

Não é uma serpente perigosa para o homem (V. pode ter informações sobre isso do Butantan, com Dra. Fátima Furtado ou Dra. Myriam Callefo).

Espero ter atendido a sua solicitação. se faltou alguma coisa não se acanhe. É o tipo de causa em que todos temos que nos engajar. Se eu puder ajudar no Ibama (duvido) estou às ordens.

Cordialmente,

Paulo Emilio Vanzolini

PS: Endereço postal do Museu

Museu de Zoologia da USP

Avenida Nazaréth 481

CEP 04263-000 

São Paulo, SP

PS 2: Voce já viu Amphisbena fuliginosa na sua área ? estou mandando uma separata explicando esse pedido

V"

Pouco depois chega à minha casa um pacote dele, obra sua em 2 volumes: "An annotated bibliography of the land and fresh-water reptiles of South America (1758-1975)". Inacreditável.


Esse era o homem que "não responde".

Seguindo a recomendação da carta do Professor, fiz contato com Dra. Fátima Furtado, que ajudou em inúmeras situações, como essa da dúvida abaixo:

Dra Fátima, perdão, mas é insegurança de revisão, é correto dizer isso ? :

 "...ação desfibrinante ("incoagulabilidade" ou "efeito anticoagulante"), pela geração de trombina e/ou ação direta sobre o fibrinogênio. A desfibrinação é precedida de hipercoagulabilidade seguida de liquefação do sangue por fibrinólise, podendo ocorrer C.I.V entre os eventos."

Sua resposta foi um 'sim, é correta a afirmação'. Nunca deixou de ajudar-me pelos labirintos da bioquímica profunda dos envenenamentos, onde temeroso, eu redigia textos com a responsabilidade de guiar condutas médicas.

Só se pode agradecer ao Professor pelas pontes como esta com Dra. Fátima Furtado, com mais empenho na busca da preservação deste bicho 'precioso e emblemático', que 'é urgente proteger', como ele próprio coloca.

Lendo a introdução no volume I das obras que o Professor me enviou, aprendi que ele se aproximara dos monstros sagrados da Zoologia mundial da mesma forma com a qual que eu havia me aproximado dele, 'com cartinhas muito provincianas', e que alguns destes Mestres, 'no espirito de seu tempo', doaram-lhe bibliotecas inteiras de reprints, iniciando-se ali a formação do excepcional acervo do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP).

Sob sua curadoria, a coleção de répteis e anfíbios da instituição passou de 1200 para 230 mil exemplares, e a biblioteca, montada com doações como as citadas acima, e com o dinheiro que ele ganhou com a música, é reconhecida como um dos mais completos acervos de herpetologia do mundo. Vanzolini compôs 'Ronda' e 'A volta por cima', dentre outros sucessos imortais.

Contudo, a 'menina-de-seus-olhos' talvez tenha sido a redação da lei que criou a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que viabilizou obras em que estou envolvido diretamente, como a edição de 'Animais peçonhentos no Brasil', do Dr. João Luiz Cardoso (Butantã) http://lachesisbrasil.blogspot.com/2010/12/os-essenciais-dr-joao-luis-cardoso.html e também nossa parceria etnobotânica com a USP, abaixo ...


EFFECTS OF JUICE AND LEAVES EXTRACT FROM SOURSOP (Annona muricata) ON ENVENOMATION BY Lachesis muta rhombeata


Caroline M. Cremonez¹; Flávia P. Leite¹; Luisa H. D. Costa³; Zita M. O. Gregório³; Rodrigo C.G. de Souza²; Ana Maria de Souza³, Eliane C. Arantes¹.

¹Depto. Física e Química, Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto-SP, Brazil. ²Fundação Hospitalar Itacaré, Itacaré – BA, Brazil.³ Depto. Análises Clínicas, Toxicológicas e Bromatológicas, Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto-SP, Brazil.

E-mail: carolmc@fcfrp.usp.br


Lachesis muta rhombeata is found in the rainforests of Brazil's Atlantic region. Human accidents with these animals are severe. The pathological effects of L. muta rhombeata venom (Lmrv) result from its proteolytic, hemolytic, hemorrhagic, myotoxic, coagulant, fibrinolytic, inflammatory and neurotoxic activities. While the antivenon will remain as the main tool in the treatment of the accidents, adjunct methods to minimize the damages of the delayed treatments are welcome. The search for alternative methods that can minimize, alter or delay the action of the venom is constant. In the North and Northeast of Brazil, Lachesis bites are treated with the aid of folk knowledge such as the oral intake of a juice or aqueous extract of leaves of A. muricata. The aim of this study was to analyze if treatments with leaves extract or juice of soursop are able to inhibit alterations induced by Lmrv. Changes in blood pressure as well as biochemical, hematological and haemostatic parameters were analyzed in blood of rats (200g) injected (+ control) or not (- control) with Lmrv (3mg/rat, i.m.) and submitted to oral treatment (test) with juice or leaves extract of soursop (3 gavages of 0.5 mL at -1h, 15min and 1h) The treatment was beneficial in: (1) recovery of renal function, as evidenced by reduced concentration of urea in groups treated with soursop leaf extract; (2) glycemic control; (3) coagulation disorders (the treatment with juice maintained the partial thromboplasmin time close to the control group when compared with untreated group); (4) protect against the myotoxicity of venom (creatine kinase concentration in the groups treated with juice and leaves extract was lower than in untreated group). However, treatments with juice and leaves extract seem to worsen (1) the hemolytic action of Lmrv (decreased hematocrit, hemoglobin and the number of red blood cells), (2) the reduction of albumin and total protein – negative acute phase proteins; and (3) increased serum glutamic oxalic transaminase. These assays should be conducted with a larger number of rats to confirm these data.

Support: CNPq, FAPESP

Key-words: Lachesis muta rhombeata, Annona muricata, envenomation, anti-venom action. 


Abaixo outro trabalho nosso financiado pela FAPESP, desta vez com Daniela Damico, da UNICAMP: http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/09/surucucu-e-anti-coagulantes.html


Esse sujeito único - que nos deixou em 28/04/2013 - me lembrou de que 'é mais importante reconhecer a queda que dar a volta por cima'

Saudades ...  http://www.youtube.com/watch?v=8GQLpjf7GyA 






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