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sexta-feira, 2 de maio de 2014
terça-feira, 29 de abril de 2014
Cumprindo ordens
Trabalho pesado em Serra Grande nos últimos dias. Autoridades assistindo: 'posso ter presenciado o melhor manejo do Brasil ...', escutei de uma delas.
Cumprindo ordens, todo o plantel foi sexado, microchipado, e está 'na mão', minha e da fiscalização.
Na placa abaixo lê-se que no serpentário 01 (S1), existem 04 fêmeas sub-adultas (FSA) de números (chips) 9247, 9110, 9662 e 9320. E assim vai por outras N unidades do Núcleo.
Após o procedimento invasivo, animais em recinto seco por 24 horas, para melhor cicatrização ...
E assim seguimos rumo à legalidade plena, e às autorizações que nos permitam vir a ser um dia:
'Uma empresa autossustentável, capaz de contribuir para a preservação da ultimas surucucus da Mata Atlântica, ao mesmo tempo em que contrata de forma crescente funcionários vindos do extrativismo ilegal de subsistência'
Saúde geral do plantel e estrutura física adequada, foi o que pudemos apresentar à estes Funcionários Públicos de primeiríssima linha, verdadeiros orientadores.
Duro é deixar o Núcleo, voltar à realidade, ao Dilúvio ...
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Apocalipse agora
"I wanted a mission, and for my sins, they gave me one" (Martin Sheen em 'Apocalypse Now', de F.F. Coppola)
Há um quadro em Serra Grande com nossa missão estampada: contribuir para a preservação das ultimas surucucus da Mata Atlântica cuidando também do homem, dando emprego e tirando da linha da pobreza gente vinda do extrativismo ilegal de subsistência.
Milhões de vezes repetimos que 'sobrou 7% dos habitat destes animais', e enquanto falamos, mais um 'condomínio' surge em nossa vizinhança, quebrando o corredor ecológico entre a reserva Salles ao norte, e a reserva Leal, ao sul. Surucucu-do-deserto seria denominação mais adequada frente às perspectivas.
No Norte e Noroeste, a mesma toada da costa Leste. Por toda parte, metástases.
Ilustrando mais um pouco: o garimpo abaixo foi localizado, denunciado, autuado e fechado com 60 homens trabalhando ilegalmente, isso em 2013. Quem retornar à área hoje - Pacajá, Pará - encontrará outros 70 garimpos ilegais em atividade, com 600 homens trabalhando. Mercúrio por todo lado, desmatamento, caça para alimentar essa gente toda.
Fui ao cinema com Luca e Gabriel, e escutei reconfortado, que quando se busca evitar a extinção de um vivente qualquer, trabalha-se para que 'uma pequena parte da Criação não se perca'.
A atualidade de 'Noé' reside em retratar nossa infinita capacidade de destruição como a gênese de reações naturais violentas, tais quais mudanças climáticas, epidemias e afins:
O Dilúvio começou.
quarta-feira, 2 de abril de 2014
Surucucu e o milagre dos 100 dias
Considero um milagre que um ovo sobreviva por um único dia sequer dia no solo da Mata Atlântica: teiú, caititu, tatu, paca, irara, formiga, mosca, mofo, alagamento, desmatamento, gente. Legião de fatores contrários à sobrevida deste ente passivo, o ovo.
Em 22 de maio der 2011 postei a noticia de uma encubação de ovo de Lachesis de 91 dias, aqui: http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/05/milagre.html
Essa datação foi recebida com descrença, 60-70 dias no máximo são as medias conhecidas entre outras especies ovíparas, mas como já disse, tudo é novo nesse gênero das surucucus, a historia ainda está sendo escrita, agora.
Medimos as temperaturas de dezembro a março, a época mais quente do ano, no interior de um falso buraco de tatu que escavamos no Núcleo Serra Grande: minima 21° e máxima 24°C. Reproduzimos este exato gradiente de temperatura num grupo de 11 ovos, e as eclosões se deram entre 94 e 100 dias, rigorosamente cronometrados.
Esse é provavelmente o tempo de encubação de ovos Lachesis na natureza, ou mais especificamente na Mata Atlântica preservada. Ovos sobrevivendo aos rigores deste ambiente por 90 - 100 dias, só sendo guardados por ambos os genitores neste período, e olhe lá.
100 dias de espera, milagre em Serra Grande |
A viviparidade é gritante vantagem evolutiva, e que permite adaptação a áreas degradadas. Ovos de Lachesis são porosos, e não sobrevivem a ambientes antropizados, de baixa umidade. Em áreas onde os gêneros são simpátricos, Bothrops asper já se rivaliza e mesmo ultrapassa Lachesis em população e tamanho.
CONFIRA: http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/07/supremacia-lachesis-em-cheque.html
Mais sobre ovos de Lachesis;
http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2013/09/mole-ditmars-amaral-e-o-enigma-dos-ovos.html
http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/07/sobre-os-ovos.html
http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/10/retirada-de-ovos-da-femea.html
http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/01/carl-gustav-jung-e-o-clube-da-surucucu.html
http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/08/herpetologista-mirim-pergunta-sobre.html
http://www.lachesisbrasil.com.br/download/BulChicagoHerpSoc_Vol42Num3pp41-43%282007%29.pdf
Com estas características biológicas, 7% de habitat residual, condomínios prosperando e quebrando corredores entre ilhas verdes - isolando populações - o que esperar do futuro da surucucu da Mata Atlântica na natureza, em 50 anos ?
http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2013/06/metamorfose.html
segunda-feira, 24 de março de 2014
Adrenalina
Comentando a postagem 'Timothy e eu', leitor do blog menciona a possibilidade do 'vicio em adrenalina' como algo que me une ao 'Homem-Urso'.
NEGATIVO.
Toda vez que houver adrenalina no trabalho em Serra Grande, algo terrivelmente errado está acontecendo. Nosso oficio é monótono, lento, cadenciado. NÓS CRIAMOS E IMPOMOS O RITMO DOS ACONTECIMENTOS.
Essa é uma das dificuldades que tenho com as dezenas de candidatos a estagiários que nos procuram: não há emoções fortes na lida diária. Não há botes espetaculares. Não há coração disparado.
Adrenalina normalmente significa erro de calculo, distração, proximidade da morte. Lembro-me bem das poucas vezes em que pude sentí-la nas veias em situações de manejo ou resgate. Escapar 'por sorte' é uma sensação muito ruim.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Timothy e eu
Com um bom atraso, e com minhas desculpas, respondo à pergunta de três leitores: 'que papo é esse de homem-urso' ?
Duas matérias citam essa 'semelhança' entre Timothy Treadwell e eu: na BBC de Londres http://www.bbc.co.uk/news/magazine-24396013 e na revista piauí
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-83/questoes-ofidicas/cobra-criada
Timothy viveu por 12 verões consecutivos entre o ursos pardos do Alaska, desarmado, e numa proximidade que por vezes permitia o toque. Morreu no decimo terceiro verão, comido por um deles.
Assisti ao documentário do Herzog sobre sua vida pelo menos umas vinte vezes, tentando captar cada nuance do inglês, para ir mais fundo no personagem.
Meu interesse veio do fato de que eu não considerava essa interação possível. Como não acho possível que humanos se aproximem dos grandes felinos, em ambiente natural, e vivam para contar.
Por DOZE verões Timothy voltou para contar. As centenas de horas de vídeo que filmou mostram esse impossível acontecendo, dia após dia.
Timothy arriscou botar em pratica uma visão de que quando bem alimentados, não hostilizados e enfrentados em seus próprios termos - grunhidos, postura corporal e defesa do território - os ursos tem cérebro o suficiente para optarem por não se arriscar com essa coisa diferente, os humanos.
São absolutamente aterrorizantes as cenas filmadas com tripé, e nas quais ele não dá um único passo para trás (defesa do território) quando animais gigantescos se aproximam de forma sabidamente predatória: cabeça e orelhas baixas, e salivando. Com uma sequencia de grunhidos, gritos, e saculejadas de ombro, Timothy fazia estes ursos (bem nutridos), 'repensarem' sua intenção.
Confira: https://www.dailymotion.com/video/x1puv2g
Mas a mente de Timothy oscilava por demais. Desde sempre. Descobriu nos ursos e sua preservação a sua razão de viver, se queria viver, não sei.
Numa dessas oscilações mentais, resolveu voltar ao seu acampamento muito tarde na estação. Os ursos da costa, seus conhecidos, estavam alimentados e hibernando. Ursos velhos, desnutridos, do interior, agora chegavam ao litoral, em busca de restos de salmão, carcaças, qualquer coisa calórica que lhes permitisse suportar o inverno. Qualquer coisa, gente inclusive. Foi um urso desses que o matou.
Não sei exatamente porque me comparam a ele. Mas dá para intuir: parece que facilito com as surucucus, bichos também mortais, e que em função disso, que eu seja também meio doido. Com esse cabelo, sujeira e expressão abaixo, reconheço que dou margem.
É difícil para quem esta de fora perceber, mas temo, respeito e não brinco com estes animais. Manipulo Lachesis sem imobilizar sua frágil porção cervical ('free-handling'), porque aprendi que essa é a regra de ouro para quem pretende longevidade de seu plantel. E dentro dessa regra há uma outra regra: em hipótese alguma, quem faz 'free-handling' pode ver, ao mesmo tempo, as duas fossetas loreais do animal que manipula. Se estiver vendo, já é alvo. Já foi. Ou já era.
Bernardo Esteves, autor da matéria da Piauí, perguntou-me 'se meu décimo terceiro verão chegaria', ao que respondi que 'a paternidade me tirou o direito ao suicídio'. Espirituoso, mas não é bem assim. Pearn, Covacevich e Richardson, do Royal Children's Hospital, Brisbane, Australia, autores do artigo 'Snakebites in herpetologists', demonstram que herpetologia como a nossa é atividade de alto risco, que herpetólogos experientes sofrem um acidente potencialmente fatal à cada 10 anos, e que a prevenção começa por se reconhecer esse risco. Sendo ou não pai, se vacilar, o décimo terceiro verão chega sim. Essa seria a resposta correta ao jornalista.
Temos animais excepcionais nascidos em Serra Grande. Sua calma e seu porte impressionam. Um deles voou em minha cara outro dia, sem aviso. Se eu não considerasse a possibilidade de comportamento atípico, poderia estar morto. Confira esse episódio: http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2013/08/mea-culpa.html
Parece que Timothy travou aqui: ignorar a possibilidade do comportamento atípico. Infelizmente.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Em resposta a leitor do blog: a questão do espaço
Não há nada mais importante na lida com Lachesis que o espaço físico. Sim, o animal é dócil, mas é também 'aquela que dá botes repetitivos', do verbete 'surucucu', em Tupi-Guarani.
Como já vivi tanto docilidade quanto agressividade extrema na lida diária, no Núcleo Serra Grande só manipulo Lachesis dentro de um 'octógono de MMA', literalmente, vide imagem abaixo: a ideia é nunca ser encurralado.
Eu nunca sedo animais com neve carbônica para a lida. O halotano pode ser usado na contenção, mas em procedimentos cirúrgicos.
Essa é a primeira e mais importante orientação que passo aos interessados em trabalhar com o gênero: com este animal especifico, a distancia segura é sempre um pouco além do que se imagina.
Confira também:
http://www.lachesisbrasil.com.br/download/BulChicagoHerpSoc_Vol41Num4pp65-68%282006%29.pdf
http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2013/08/mea-culpa.html
http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2013/07/sobre-o-duplo-s.html
Abaixo texto de Bernardo Esteves, sobre o 'octógono':
http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-da-ciencia/geral/serpentes-no-octogono
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